🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 4 de 10
O Folclore: A Voz da Argentina Profunda (1930–1990)
O tango era Buenos Aires: o porto, o cortiço, a periferia, a cidade que olhava para a Europa com nostalgia. O folclore era todo o resto: o noroeste andino com suas quebradas e suas vidalas, o litoral com seu chamamé e seus rios, a pampa com sua zamba e seus payadores, Santiago del Estero com sua milenar chacarera.
Durante a primeira metade do século XX, o interior da Argentina era invisível para a mídia de Buenos Aires. As rádios de Buenos Aires tocavam tango, as revistas falavam de tango, e os teatros apresentavam sainetes do Río de la Plata. O interior existia como reserva de mão de obra e de votos, não como fonte de cultura.
O que Atahualpa Yupanqui e mais tarde Mercedes Sosa mudaram foi exatamente isso: colocaram a Argentina profunda no centro, deram-lhe voz com a seriedade artística dada ao tango, e levaram-na ao mundo com a convicção de quem sabe que o que tem para dizer importa.
Atahualpa Yupanqui: Aquele Que Vem de Longe para Dizer Algo
Héctor Roberto Chavero Aramburu escolheu o nome artístico de Atahualpa Yupanqui, que em quéchua significa "aquele que vem de terras distantes para dizer algo".
Ele nasceu em 31 de janeiro de 1908 em Pergamino, província de Buenos Aires, filho de um funcionário ferroviário de ascendência indígena e espanhola. Aprendeu a tocar violão ainda criança com o concertista Bautista Almirón em Junín. Em 1917, durante férias com sua família em Tucumán, descobriu um novo mundo: os instrumentos andinos, a zamba, a música do noroeste. Essa experiência mudou a direção de sua vida.
Cantor, compositor, guitarrista, poeta e escritor, é considerado o mais importante músico folclórico argentino. Suas composições foram cantadas por Mercedes Sosa, Víctor Jara, Ángel Parra, Jorge Cafrune, Alfredo Zitarrosa e Andrés Calamaro, entre muitos outros. Deixou mais de trezentas canções registradas em seu nome.
O que distinguia Yupanqui de todos os músicos folclóricos de sua geração era a profundidade de sua relação com o território que descrevia: não era um intelectual de Buenos Aires que idealizava o interior à distância, mas um homem que havia percorrido o noroeste argentino por décadas, que conhecia a vida dos tropeiros, mineiros e camponeses por dentro.
Algumas das canções mais importantes de seu catálogo são fruto de uma colaboração pouco conhecida: sua esposa, a pianista francesa NenetteAntonieta Pepin Fitzpatrick — compôs muitas das melodias que Yupanqui assinou com pseudônimos masculinos, porque na Argentina daquela época uma mulher compositora de folclore era algo que o mercado não estava preparado para aceitar.
O Tropeiro: A Metáfora de uma Vida
"O Tropeiro" — — é a canção que melhor resume a filosofia de Yupanqui: a figura do tropeiro que leva seu rebanho de animais pelas colinas do noroeste, sozinho, com o poncho ao vento, serve como metáfora da condição humana sem necessidade de explicá-la.
"As penas e as vaquinhas / seguem pelo mesmo caminho / as penas são nossas / as vaquinhas são alheias" — quatro versos que dizem tudo o que precisa ser dito sobre o trabalho sem propriedade, sobre a injustiça econômica, sobre a resignação que não é rendição, mas sabedoria.
"Os Eixos da Minha Carroça" — — tem a mesma economia de meios: a milonga do homem que prefere que os eixos de sua carroça não estejam lubrificados porque o rangido avisa às mulheres que ele está chegando, com um humor seco e uma observação extraordinária da vida cotidiana rural.
"Lua Tucumana" — — é sua canção mais amada pelo público: "Eu não canto para a lua / porque ilumina e nada mais / canto para ela porque sabe / da minha longa caminhada." A lua como companheira de viagem, não como símbolo literário.
O Exílio e o Reconhecimento Internacional
Em 1945, ele se filiou ao Partido Comunista, o que levou à sua censura e à proibição de suas músicas nas transmissões de rádio entre 1947 e 1952. Durante aquele momento difícil, ele criou "El Payador Perseguido", uma de suas obras mais significativas.
A perseguição política o levou ao exílio na França, onde atuou ao lado de Edith Piaf, que lhe deu espaço em um de seus concertos em Nimes. A França o reconheceu com a Ordem das Artes e das Letras enquanto a Argentina ainda o censurava.
Na madrugada de 23 de maio de 1992, Yupanqui faleceu após uma apresentação com lotação esgotada na França. O funeral foi realizado no Congresso Nacional. Por seu desejo expresso, seus restos descansam em Cerro Colorado.
Mercedes Sosa: A Negra que Cantou para Todos
Haydée Mercedes Sosa nasceu em 9 de julho de 1935 em San Miguel de Tucumán — no profundo norte que Yupanqui havia descrito em suas canções — de uma família humilde com raízes diaguitas. Ela começou a cantar em concursos de rádio na adolescência e ganhou o primeiro com um nome falso porque era tímida demais para se apresentar com o seu próprio.
Na década de sessenta, Mercedes Sosa tornou-se a figura central do Movimento do Novo Cancioneiro — o movimento que em 1963 estabeleceu em Mendoza um manifesto para uma nova forma de entender a canção popular argentina: mais comprometida socialmente, mais aberta à experimentação, mais conectada com as lutas do povo latino-americano.
Sua voz era o instrumento mais extraordinário do folclore argentino: uma contralto com um alcance e uma profundidade que lhe permitia passar do sussurro mais íntimo ao fortissimo mais poderoso sem nunca perder o calor específico que fazia com que qualquer canção que cantasse soasse como se fosse sua.
A Ditadura e o Exílio
Em 1979, durante a ditadura militar, Mercedes Sosa foi detida no palco de um concerto em La Plata junto com todos os presentes. Ela foi liberada graças à pressão internacional, mas teve que se exilar. Viveu em Madrid e Paris. Continuou gravando no exílio. Continuou sendo Mercedes Sosa.
Ela retornou à Argentina em 1982, com uma série de concertos no Teatro Opera de Buenos Aires que se tornaram os concertos mais importantes da história do folclore argentino: o retorno de La Negra como um ato de recuperação coletiva de algo que a ditadura havia tentado destruir.
Mercedes Sosa no Século XXI
Em sua última fase, Mercedes Sosa gravou com Shakira, com Caetano Veloso, com Charly García, com Fito Páez. Ela cantou "Gracias a la Vida" de Violeta ParraOuvir — em estádios ao redor do mundo e a transformou no hino de uma geração que sobreviveu às ditaduras do continente.
Ela morreu em 4 de outubro de 2009, em Buenos Aires. O governo declarou luto nacional. Foi a primeira vez que a morte de um artista folclórico produziu esse nível de resposta na Argentina.
O Boom do Folclore: Os Festivais
O Festival Nacional de Folclore de Cosquín — fundado em 1961 nas Serras de Córdoba — foi o espaço onde o folclore encontrou o público de massa. Os grandes grupos vocais do período Los Chalchaleros, Los Fronterizos, Los Huanca Hua — levaram a zamba, a chacarera e a vidala para novas audiências.
Ariel Ramírez compôs em 1964 a "Misa Criolla" — — junto com Los Fronterizos: a missa católica em ritmos do folclore argentino que se tornou a obra coral argentina mais executada internacionalmente.
Nota editorial: Atahualpa Yupanqui disse uma vez que a canção era "o caminho mais curto entre dois corações". Ele dizia isso como poeta, mas também como estrategista: em um país onde as diferenças de classe, região e educação tornavam quase impossível a comunicação entre o portenho de Palermo e o camponês de Jujuy, a canção era o idioma que ambos podiam compartilhar sem precisar de tradução. Mercedes Sosa entendeu isso melhor do que ninguém: por isso cantava o mesmo para os operários tucumanos que para os intelectuais de Paris, com a mesma entrega e convicção. Não porque fosse calculista — mas porque sabia que a verdade de uma canção não depende de quem a ouve, mas de quem a canta. E ela sempre cantou com verdade.
10 · 2 en DoReSol
Top 10 do Folclore Argentino
O Carreteiro
Atahualpa Yupanqui · 1945
A filosofia social do folclore em quatro versos. A canção mais política e poética do cancioneiro argentino.
Gracias a la Vida
Mercedes Sosa · 1971
A versão que transformou a canção de Violeta Parra em hino continental. Mercedes apropriando-se de algo alheio até torná-lo completamente universal.
Missa Criolla
Ariel Ramírez / Los Fronterizos · 1964
A obra coral argentina mais executada no mundo. A missa católica em ritmos de folclore.
Luna Tucumana
Atahualpa Yupanqui · 1944
A canção mais amada do cancioneiro de Yupanqui. A lua como companheira de viagem.
Zamba para no morir
Mercedes Sosa · 1969
A resistência à ditadura cantada antes de a ditadura chegar.
Los Ejes de mi Carreta
Atahualpa Yupanqui · 1943
A milonga do homem que não lubrifica os eixos de sua carroça. O humor seco do folclore em sua forma mais perfeita.
Todo cambia
Mercedes Sosa · 1982
O hino do regresso do exílio. A resistência latino-americana em uma única canção.
Camino del Indio
Atahualpa Yupanqui · 1939
O poema ao caminho ancestral do noroeste. Yupanqui celebrando o pré-colombiano quando a cultura oficial o ignorava.

Alfonsina Y El Mar
Mercedes Sosa · 1969
A canção sobre a morte da poeta Alfonsina Storni. Uma das canções argentinas mais conhecidas no mundo.
Zamba del Chaguar
Atahualpa Yupanqui · 1944
O chaguar como símbolo da resistência cultural indígena. Yupanqui celebrando o que a Argentina queria esquecer.
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A série completa
Argentina
Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.
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CAP 01
🇦🇷 Cap 01
As Raízes: Os Três Mundos Que Fizeram uma Música (séculos XV–XIX)
Argentina é o oitavo país mais grande do mundo: 2.780.400 quilômetros quadrados que se estendem da selva subtropical do norte aos canais patagônicos do sul, dos Andes no oeste às p
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CAP 02
🇦🇷 Cap 02
O Tango: A Música que Buenos Aires Deu ao Mundo (1880–1955)
O tango não nasceu nos salões elegantes de Buenos Aires nem nos teatros do centro. Nasceu nos arrabaldes — os bairros periféricos onde se misturavam os imigrantes europeus recém-ch
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CAP 03
🇦🇷 Cap 03
O Tango Moderno: Piazzolla e a Revolução que Ninguém Perdoou (1955–1992)
Há artistas que fazem bem o que já existe. E há artistas que destroem o que existe para construir algo novo sobre as ruínas. **Astor Piazzolla** pertence à segunda categoria — e pa
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🇦🇷 Cap 04
O Folclore: A Voz da Argentina Profunda (1930–1990)
O tango era Buenos Aires: o porto, o cortiço, a periferia, a cidade que olhava para a Europa com nostalgia. O folclore era todo o resto: o noroeste andino com suas quebradas e suas
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CAP 05
🇦🇷 Cap 05
O Rock Nacional Fundacional: La Balsa, o Flaco e o Blues do Bajo Belgrano (1966–1973)
Em meados dos anos sessenta, o rock que tocava na Argentina era rock em inglês: bandas que copiavam os Beatles, os Rolling Stones, os Animals, com a mesma atitude com que os roquei
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CAP 06
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Em 24 de março de 1976, um golpe de Estado instalou a ditadura mais brutal da história da Argentina: o **Processo de Reorganização Nacional**, que durante sete anos desapareceu com
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CAP 07
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O Rock Nacional dos Anos 90: A Década que Multiplicou Tudo (1990–2001)
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CAP 10
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