🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 10 de 10

Trap e Reggaeton: A Geração Global (2015–hoje)

Em janeiro de 2023, uma música produzida em um estúdio em Ramos Mejía — um distrito da Grande Buenos Aires onde ninguém teria procurado o centro da música global — tornou-se número um no Top 50 Global do Spotify simultaneamente em dezenas de países. Era cantada por Shakira. Foi produzida por um jovem de vinte e quatro anos chamado **Gonzalo Julián Conde**, conhecido mundialmente como **Bizarrap**.

7 min de leitura publicado 27/05/2026 6 leituras por DoReSol
Trap e Reggaeton: A Geração Global (2015–hoje)

Não foi um acidente. Foi a culminação de uma década em que a Argentina havia silenciosamente construído a cena de música urbana mais criativa e exportável do mundo hispano-falante — superando o reggaeton porto-riquenho em inovação sonora, a música colombiana em alcance global, e todo o resto em velocidade de crescimento.

Trap Argentino: A Origem

A história do trap argentino começa antes de Bizarrap, antes de Duki, antes de alguém chamá-la de cena. Começa nas praças dos bairros de Buenos Aires, onde jovens que cresceram ouvindo hip-hop americano e reggaeton porto-riquenho começaram a fazer suas próprias versões em espanhol e a carregá-las no YouTube e SoundCloud sem selo, sem empresário, com nada mais do que um microfone e uma conexão à internet.

DukiMauro Ezequiel Lombardo — é o artista que mais claramente encarna essa geração: nascido em Buenos Aires em 1996, ele começou a fazer rap em competições de freestyle na praça e se tornou o maior expoente do trap argentino antes de completar vinte e cinco anos.

Bizarrap: O Produtor que Mudou as Regras

Gonzalo Julián CondeBizarrap — nasceu em Ramos Mejía, Buenos Aires, em 29 de agosto de 1998. Seu interesse musical começou aos 14 anos com aulas de solfejo e piano. Foi com o remix de "No vendo trap" de Duki que seu verdadeiro ponto de partida ocorreu.

O que Bizarrap inventou com as BZRP Music Sessions foi executá-lo perfeitamente: um produtor com identidade visual reconhecível, batidas que são ao mesmo tempo acessíveis e sofisticadas, artistas convidados que chegam com a urgência de quem sabe que tem quatro minutos para mostrar o melhor que tem.

O formato funcionou com artistas argentinos, depois latino-americanos, depois globais. Shakira e Bizarrap obtiveram quatro Recordes Mundiais do Guinness por sua "Bzrp Music Sessions #53" — a diss track contra Gerard Piqué que se tornou o maior evento midiático musical do ano.

Em abril de 2023, Bizarrap fez seus primeiros shows na Argentina: três dias no Hipódromo de Palermo para mais de 20.000 pessoas por edição em eventos esgotados. O convidado surpresa foi Duki — o produtor e o artista que se lançaram mutuamente ao mundo compartilhando o mesmo palco em Buenos Aires.

Paulo Londra: O Primeiro a Cruzar o Atlântico

Paulo Ezequiel Londra — nascido em Córdoba em 1998 — foi o primeiro artista de trap argentino a ter um impacto massivo no mercado espanhol. Antes de completar vinte anos, ele já tinha colaborações com Ed Sheeran e sua música "Tumbado en la Rama" — — havia superado 300 milhões de reproduções.

Um conflito legal com sua gravadora o impediu de lançar novas músicas por quase três anos no auge de sua carreira. Quando ele voltou em 2022 — com a BZRP Music Sessions Vol. 23 como plataforma de relançamento — ele provou que o tempo não apagou o que o tornava especial.

María Becerra: A Rainha do Pop Urbano

María Becerra — nascida em Quilmes, Buenos Aires, em 2000 — é a figura feminina mais importante da nova música argentina. Ela começou a subir covers no YouTube na adolescência e construiu em poucos anos uma carreira que a tornou a artista argentina mais ouvida no Spotify a nível global.

O que distingue Becerra é a amplitude de seu alcance: ela pode fazer reggaeton, R&B, pop, trap, bachata — tudo com a mesma convicção e qualidade vocal. "Automático"Ouvir — foi o hit que a estabeleceu internacionalmente: o pop urbano argentino em sua versão mais impecável.

L-Gante: A Cumbia 420

Elian Ángel ValenzuelaL-Gante — nasceu em General Rodríguez, província de Buenos Aires, em 2000. Ele representa a fusão mais inesperada e genuína da nova música argentina: a cumbia 420 — sua criação — que mistura a cumbia villera dos anos noventa com o trap americano contemporâneo, o auto-tune e a gíria dos bairros da Grande Buenos Aires.

"O Último Romântico" — — é sua canção mais emblemática: L-Gante sendo o artista que ninguém previu e que, no entanto, era exatamente o que a música argentina precisava.

Emilia: A Nova Voz Global

Emilia Mernes — nascida em Nogoyá, Entre Ríos, em 1996 — é o nome mais recente a se tornar um fenômeno global da Argentina. Sua colaboração com Bizarrap e sua música "No me hables más" — — a estabeleceram como uma das vozes mais importantes do pop urbano latino-americano atual.

O Fenômeno: Por Que a Argentina

Argentina, Tiago PZK, Bizarrap, Nicki Nicole, Paulo Londra, Emilia Mernes, Lali Espósito, Duki, Nathy Peluso: artistas que em poucos anos levaram a música argentina ao centro do pop global, destronando o calor porto-riquenho que havia dominado por duas décadas.

As razões são múltiplas: a tradição de ensino musical público sem equivalente no continente, a diversidade de influências acumuladas (rock, folclore, tango, cumbia), a crise econômica que obriga a ser independente desde o primeiro dia, e o acesso à internet que igualou as condições de produção entre um estúdio em Ramos Mejía e um em Los Angeles.

Nota editorial: Bizarrap gravou suas primeiras BZRP Music Sessions no quarto de sua casa. Hoje ele grava em um estúdio em Ramos Mejía que recebe Shakira, Rauw Alejandro, Peso Pluma. Esse salto — do quarto aos quatro recordes do Guinness — ocorreu em menos de cinco anos. É a história mais argentina possível: o talento que não espera condições ideais porque na Argentina as condições nunca são ideais, que constrói com o que tem, que chega ao mundo porque o mundo não tinha nada parecido. A geração de Bizarrap, Duki, María Becerra e Nicki Nicole não é a continuação do rock nacional. É algo completamente novo. Mas tem a mesma atitude que Litto Nebbia e Tanguito quando compuseram "La Balsa" no banheiro de um bar de madrugada em 1966: a convicção de que o que têm para dizer importa, mesmo que ninguém ainda tenha dado permissão para dizê-lo.

10 · 1 en DoReSol

Top 10 do Trap e Reggaeton Argentino

#CanciónArtista
01

Shakira: BZRP Music Sessions #53

Bizarrap · 2023

Quatro recordes do Guinness. Número um global por semanas. O produtor de Ramos Mejía tornando-se o nome mais procurado na indústria musical mundial.

Pendiente
02

Automático

María Becerra · 2022

A artista argentina mais ouvida globalmente em sua canção mais perfeita. O pop urbano da Grande Buenos Aires com produção de nível mundial.

Canción
03

Duki: BZRP Music Sessions #50

Bizarrap ft. Duki · 2022

A sessão mais esperada do trap argentino. O produtor e o artista que se lançaram mutuamente ao mundo reunidos no auge de suas carreiras.

Pendiente
04

Quevedo: BZRP Music Sessions #52

Bizarrap · 2022

O verão europeu de Bizarrap. Argentina chegando à Espanha na direção inversa de sempre.

Pendiente
05

Antes

Duki · 2021

O trap argentino em sua versão mais melódica e mais emotiva. Duki demonstrando que o gênero pode conter a vulnerabilidade.

Pendiente
06

Não me fale mais

Emilia · 2023

O pop urbano do interior argentino chegando ao mundo. A prova de que o fenômeno não é apenas portenho.

Pendiente
07

Deitado no Galho

Paulo Londra · 2018

O primeiro artista de trap argentino a cruzar o Atlântico massivamente antes de completar vinte anos.

Pendiente
08

O Último Romântico

L-Gante · 2020

Cumbia 420 em sua forma mais pura. O artista que ninguém previu e que era exatamente o que a música argentina precisava.

Pendiente
09

Recuerdos (álbum)

Nicki Nicole · 2020

A estreia que colocou Rosario no mapa global do trap. A melancolia argentina processada através do trap.

Pendiente
10

Givenchy

Duki ft. Bizarrap · 2023

O reencontro ao vivo no Hipódromo de Palermo. O produtor e o artista que começaram juntos fechando o círculo diante de vinte mil pessoas.

Pendiente

1 canción · en DoReSol

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#CanciónArtista

Fim da Série Argentina

Cap.TemaStatus
1As Raízes — pré-colombiano, gaúcho, candombe
2O Tango — Velha Guarda, Gardel, era de ouro
3O Tango Moderno — Piazzolla, a revolução
4O Folclore — Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa
5O Rock Fundacional — Almendra, Manal, Los Gatos
6O Rock dos Anos 80 — Charly García, Soda Stereo, ditadura
7O Rock dos Anos 90 — Fito Páez, Los Redondos, Calamaro
8A Cumbia e o Cuarteto — La Mona, Rodrigo, cumbia villera
9O Pop e o Indie — Miranda!, Juana Molina, Nathy Peluso
10O Trap e o Reggaeton — Bizarrap, Duki, María Becerra

Série Argentina completa. 10 de 10 capítulos.

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Encerramento da Série · Argentina

Com este capítulo fechamos a série de 10 partes sobre Argentina. Obrigado por lê-la.

Próxima série · em breve Voltar ao Atlas

A série completa

Argentina

Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.

Capítulo 10 de 10 10 de 10 publicados
  1. CAP 01

    🇦🇷 Cap 01

    As Raízes: Os Três Mundos Que Fizeram uma Música (séculos XV–XIX)

    Argentina é o oitavo país mais grande do mundo: 2.780.400 quilômetros quadrados que se estendem da selva subtropical do norte aos canais patagônicos do sul, dos Andes no oeste às p

    9 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇦🇷 Cap 02

    O Tango: A Música que Buenos Aires Deu ao Mundo (1880–1955)

    O tango não nasceu nos salões elegantes de Buenos Aires nem nos teatros do centro. Nasceu nos arrabaldes — os bairros periféricos onde se misturavam os imigrantes europeus recém-ch

    10 min 27/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇦🇷 Cap 03

    O Tango Moderno: Piazzolla e a Revolução que Ninguém Perdoou (1955–1992)

    Há artistas que fazem bem o que já existe. E há artistas que destroem o que existe para construir algo novo sobre as ruínas. **Astor Piazzolla** pertence à segunda categoria — e pa

    7 min 27/05/2026 Ler

  4. CAP 04

    🇦🇷 Cap 04

    O Folclore: A Voz da Argentina Profunda (1930–1990)

    O tango era Buenos Aires: o porto, o cortiço, a periferia, a cidade que olhava para a Europa com nostalgia. O folclore era todo o resto: o noroeste andino com suas quebradas e suas

    8 min 27/05/2026 Ler

  5. CAP 05

    🇦🇷 Cap 05

    O Rock Nacional Fundacional: La Balsa, o Flaco e o Blues do Bajo Belgrano (1966–1973)

    Em meados dos anos sessenta, o rock que tocava na Argentina era rock em inglês: bandas que copiavam os Beatles, os Rolling Stones, os Animals, com a mesma atitude com que os roquei

    7 min 27/05/2026 Ler

  6. CAP 06

    🇦🇷 Cap 06

    O Rock Nacional dos Anos 80: A Música que Sobreviveu à Ditadura (1976–1989)

    Em 24 de março de 1976, um golpe de Estado instalou a ditadura mais brutal da história da Argentina: o **Processo de Reorganização Nacional**, que durante sete anos desapareceu com

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  7. CAP 07

    🇦🇷 Cap 07

    O Rock Nacional dos Anos 90: A Década que Multiplicou Tudo (1990–2001)

    Os anos noventa foram para o rock argentino o que os anos sessenta foram para o rock inglês: o momento em que tudo se multiplicou ao mesmo tempo. Os artistas que haviam construído

    7 min 27/05/2026 Ler

  8. CAP 08

    🇦🇷 Cap 08

    Cumbia e Cuarteto: Tunga-Tunga e as Vilas (1940–hoje)

    Durante décadas, a cumbia e o cuarteto foram a música que Buenos Aires ignorava. Tocavam nos clubes de bairro, nas favelas, nos galpões da periferia onde dançavam as pessoas que os

    7 min 27/05/2026 Ler

  9. CAP 09

    🇦🇷 Cap 09

    O Pop e o Indie: A Geração da Tela e do Coração (2001–2020)

    Em 20 de dezembro de 2001, a Argentina caiu. O sistema bancário colapsou, a classe média perdeu suas economias, cinco presidentes renunciaram em duas semanas e as pessoas foram às

    7 min 27/05/2026 Ler

  10. CAP 10 você está aqui

    🇦🇷 Cap 10

    Trap e Reggaeton: A Geração Global (2015–hoje)

    Em janeiro de 2023, uma música produzida em um estúdio em Ramos Mejía — um distrito da Grande Buenos Aires onde ninguém teria procurado o centro da música global — tornou-se número

    7 min 27/05/2026 você está aqui

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