🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 8 de 10
Cumbia e Cuarteto: Tunga-Tunga e as Vilas (1940–hoje)
Durante décadas, a cumbia e o cuarteto foram a música que Buenos Aires ignorava. Tocavam nos clubes de bairro, nas favelas, nos galpões da periferia onde dançavam as pessoas que os meios de comunicação portenhos não representavam. As rádios da capital não os programavam. Os suplementos culturais não os resenhavam.
E, no entanto — ou precisamente por isso — a cumbia e o cuarteto foram durante décadas a música mais dançada na Argentina. Enquanto o rock nacional enchia estádios e o tango recebia o Patrimônio da UNESCO, a cumbia enchia as baladas todos os fins de semana com milhões de pessoas que encontravam nesse ritmo o que nenhum outro gênero lhes oferecia: o corpo liberado, a comunidade da dança, a alegria sem condições.
O Quarteto: O Ritmo de Córdoba
O quarteto cordobês nasceu em Córdoba nos anos 40, desenvolveu-se durante cinquenta anos quase exclusivamente dentro dos limites dessa província, e quando finalmente chegou ao resto do país, o fez com a energia de algo que estava sendo cozinhado em fogo lento por muito tempo.
Os refrões mais cantados nos bailes cordobeses do século XX estão marcados pelo ritmo do glorioso tunga-tunga — o golpe rítmico característico do quarteto, derivado do passo italiano do corrido e da polca centro-europeia processados pela Argentina dos anos 40.
O nome "quarteto" vem da formação original: piano, violino, acordeão e contrabaixo — quatro instrumentos para um ritmo dançante e acessível. Com o tempo, a formação cresceu e se eletrificou, mas o nome e o ritmo essencial permaneceram.
La Mona Jiménez: O Rei do Cuarteto
Carlos Alberto Jiménez RufinoLa Mona Jiménez — é o artista de cuarteto mais importante da história e uma das figuras mais extraordinárias da música popular argentina. Nasceu em 11 de janeiro de 1951 em Córdoba, de mãe de Salta e pai de Tucumán.
Estreou como cantor do Cuarteto Berna aos quinze anos, após ganhar um casting entre quarenta candidatos. Cantava apenas pelo sanduíche e a coca. Chamavam-no de "La Mona" desde criança, quando brincava de ser Tarzan e os vizinhos diziam: "Não, você é La Mona Chita."
Seu nome real é Juan Carlos Jiménez Rufino, mas as pessoas o conhecem como La Mona Jiménez. Nascido em 11 de janeiro de 1951, de "uma mistura de províncias" — mãe de Salta, pai de Tucumán, avós de Catamarca — é hoje o cordobês mais famoso.
A carreira de La Mona Jiménez é a demonstração de que a consistência e a autenticidade constroem um legado que nenhuma moda pode destruir: cinquenta anos tocando todos os fins de semana, sem parar, em clubes de bairro e estádios de todo o país.
"Beso a beso" — — é sua canção mais popular: o amor físico descrito com a franqueza do cuarteto, sem eufemismos, com a alegria de quem sabe que o corpo também é uma linguagem.
"¿Quién se ha tomado todo el vino?" — — é seu hino de festa mais universal: a pergunta retórica que qualquer argentino já fez em algum momento transformada em ritmo de tunga-tunga.
Em 2019, La Mona Jiménez tocou no Lollapalooza Argentina no Main Stage 1 — o palco principal do festival de rock mais importante do país — e durante uma hora e cinco minutos convenceu um público de jovens roqueiros de que o cuarteto era exatamente o que precisavam. Ninguém cortou o som embora ele tivesse excedido os cinco minutos previstos. Ninguém queria que ele parasse.
Rodrigo: O Potro que Não Pôde Continuar
Rodrigo Alejandro BuenoO Potro Rodrigo — foi o artista que nos anos noventa levou o cuarteto à popularidade nacional com uma energia e carisma que nenhum outro artista do gênero havia tido antes. Nascido em Córdoba em 1973, estreou profissionalmente como cantor de cuarteto aos dezesseis anos.
Morreu em 24 de junho de 2000 em um acidente de trânsito em Berazategui, Buenos Aires, aos vinte e sete anos. O velório atraiu mais de duzentas mil pessoas. A figura do Potro Rodrigo no imaginário popular argentino cresceu após sua morte com a mesma lógica com que Gardel cresceu após a sua.
A Cumbia Villera: A Crônica das Margens
A cumbia chegou à Argentina da Colômbia e do Caribe nos anos cinquenta e sessenta, e durante décadas foi adotada e transformada pelas comunidades de migrantes internos que chegavam a Buenos Aires das províncias do norte.
A crise econômica que entre o final dos anos noventa e início dos anos 2000 incendiou o país produziu uma atitude musical que se traduziu na cumbia das favelas.
Pablo Lescano foi o arquiteto da cumbia villera: em 1999 criou Flor de Piedra e em 2000 fundou Damas Gratis — o nome é uma referência aos cartazes das baladas: "Cavalheiros $10 / Damas Grátis."
Assim surgiram outros gêneros como a Cumbia Villera, liderados por grupos como Yerba Brava, Damas Gratis e Los Pibes Chorros com letras descrevendo situações de pobreza, criminalidade ou drogas.
O que a cumbia villera fez foi exatamente o que o tango havia feito um século antes: pegar a experiência das margens da cidade — a pobreza, a violência, as drogas — e transformá-la em canção dançante. Para as comunidades que habitavam as favelas da Grande Buenos Aires, a cumbia villera era simplesmente a crônica de sua vida cotidiana — a primeira vez que a música popular argentina falava diretamente com eles, em seu próprio idioma, sobre sua própria experiência.
O Legado: A Cumbia Como Idioma Nacional
Nos anos 2010, a cumbia argentina completou seu processo de legitimação: artistas de rock e pop começaram a incorporar seus ritmos, os festivais de música alternativa a programaram, e os críticos que a haviam ignorado por décadas começaram a escrever sobre ela com a seriedade que sempre mereceu.
Damas Gratis se apresentou no Lollapalooza Argentina 2018. La Mona Jiménez no ano seguinte. O ciclo havia se fechado: a música das bailantas e dos aeródromos havia chegado ao festival de rock. Não porque o festival tivesse baixado seus padrões, mas porque os padrões sempre foram mais amplos do que os programadores acreditavam.
Nota editorial: La Mona Jiménez prometeu à sua mãe que seria profissional da música "mesmo que agora me paguem com um sanduíche e um refrigerante." Cumpriu a promessa e foi além: cinquenta anos de carreira, um Lollapalooza aos sessenta e oito anos, e a certeza de que o cuarteto é cordobês da mesma maneira que o tango é portenho — não como folclore morto, mas como cultura viva que se dança todos os fins de semana. A diferença entre o tango e o cuarteto é que o tango recebeu o Patrimônio UNESCO e o cuarteto ainda não. Mas nos clubes de bairro de Córdoba, as pessoas dançam cuarteto todas as noites sem precisar que a UNESCO lhes diga que o que dançam é importante. Já sabem disso.
10 · 0 en DoReSol
Top 10 da Cumbia e Cuarteto Argentino
Beijo a Beijo
La Mona Jiménez · 1990s
O hit mais popular do cuarteto. La Mona sendo exatamente o que é — sem desculpas, sem complexos, com todo o tunga-tunga.
Você Vai Sentir Falta de Mim
Rodrigo · 1999
El Potro Rodrigo em seu momento mais popular. A voz que convenceu a Argentina de que o cuarteto era grande.
Amor dos Meus Amores
Rodrigo · 1997
A canção que tornou Rodrigo famoso em toda a Argentina. O cuarteto chegando ao mainstream nacional.
Quem Bebeu Todo o Vinho?
La Mona Jiménez · 1980s
O hino de festa mais universal do cuarteto. A pergunta que todos já fizemos transformada em ritmo irresistível.
No me dejes de amar
Damas Gratis · 2001
Pablo Lescano em sua versão mais romântica. A cumbia villera mostrando que também podia ser balada.
El marginal
La Mona Jiménez · 1980s
La Mona cantando para quem vive à margem com dignidade. O cuarteto como crônica social.
Se te ve la tanga
Damas Gratis · 2000
A primeira música de Pablo Lescano com Damas Gratis. O ponto de origem da cumbia villera.
La ventanita
Yerba Brava · 1998
O pioneiro da cumbia villera em sua versão mais urbana. A favela de Buenos Aires como cenário de amor.
Taxi taxi
La Mona Jiménez · 1970s
O clássico dos clássicos do quarteto cordobês. A canção que qualquer cordobês sabe de cor.
Sou um garoto de bairro
La Mona Jiménez · 1980s
A identidade da classe trabalhadora cordobesa transformada em orgulho. O quarteto como afirmação de pertencimento.
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A série completa
Argentina
Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.
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CAP 01
🇦🇷 Cap 01
As Raízes: Os Três Mundos Que Fizeram uma Música (séculos XV–XIX)
Argentina é o oitavo país mais grande do mundo: 2.780.400 quilômetros quadrados que se estendem da selva subtropical do norte aos canais patagônicos do sul, dos Andes no oeste às p
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CAP 02
🇦🇷 Cap 02
O Tango: A Música que Buenos Aires Deu ao Mundo (1880–1955)
O tango não nasceu nos salões elegantes de Buenos Aires nem nos teatros do centro. Nasceu nos arrabaldes — os bairros periféricos onde se misturavam os imigrantes europeus recém-ch
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CAP 03
🇦🇷 Cap 03
O Tango Moderno: Piazzolla e a Revolução que Ninguém Perdoou (1955–1992)
Há artistas que fazem bem o que já existe. E há artistas que destroem o que existe para construir algo novo sobre as ruínas. **Astor Piazzolla** pertence à segunda categoria — e pa
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CAP 04
🇦🇷 Cap 04
O Folclore: A Voz da Argentina Profunda (1930–1990)
O tango era Buenos Aires: o porto, o cortiço, a periferia, a cidade que olhava para a Europa com nostalgia. O folclore era todo o resto: o noroeste andino com suas quebradas e suas
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CAP 05
🇦🇷 Cap 05
O Rock Nacional Fundacional: La Balsa, o Flaco e o Blues do Bajo Belgrano (1966–1973)
Em meados dos anos sessenta, o rock que tocava na Argentina era rock em inglês: bandas que copiavam os Beatles, os Rolling Stones, os Animals, com a mesma atitude com que os roquei
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CAP 06
🇦🇷 Cap 06
O Rock Nacional dos Anos 80: A Música que Sobreviveu à Ditadura (1976–1989)
Em 24 de março de 1976, um golpe de Estado instalou a ditadura mais brutal da história da Argentina: o **Processo de Reorganização Nacional**, que durante sete anos desapareceu com
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CAP 07
🇦🇷 Cap 07
O Rock Nacional dos Anos 90: A Década que Multiplicou Tudo (1990–2001)
Os anos noventa foram para o rock argentino o que os anos sessenta foram para o rock inglês: o momento em que tudo se multiplicou ao mesmo tempo. Os artistas que haviam construído
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🇦🇷 Cap 08
Cumbia e Cuarteto: Tunga-Tunga e as Vilas (1940–hoje)
Durante décadas, a cumbia e o cuarteto foram a música que Buenos Aires ignorava. Tocavam nos clubes de bairro, nas favelas, nos galpões da periferia onde dançavam as pessoas que os
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CAP 09
🇦🇷 Cap 09
O Pop e o Indie: A Geração da Tela e do Coração (2001–2020)
Em 20 de dezembro de 2001, a Argentina caiu. O sistema bancário colapsou, a classe média perdeu suas economias, cinco presidentes renunciaram em duas semanas e as pessoas foram às
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CAP 10
🇦🇷 Cap 10
Trap e Reggaeton: A Geração Global (2015–hoje)
Em janeiro de 2023, uma música produzida em um estúdio em Ramos Mejía — um distrito da Grande Buenos Aires onde ninguém teria procurado o centro da música global — tornou-se número
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