🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 5 de 10
O Rock Nacional Fundacional: La Balsa, o Flaco e o Blues do Bajo Belgrano (1966–1973)
Em meados dos anos sessenta, o rock que tocava na Argentina era rock em inglês: bandas que copiavam os Beatles, os Rolling Stones, os Animals, com a mesma atitude com que os roqueiros latino-americanos dos anos cinquenta haviam copiado Elvis Presley. Era competente, era entusiástico e era completamente derivativo.
O que aconteceu entre 1966 e 1967 foi a decisão — simples em sua formulação, radical em suas consequências — de cantar em espanhol. Não de traduzir canções estrangeiras, mas de escrever as próprias, em seu próprio idioma, sobre suas próprias experiências. Essa decisão foi o ato fundacional do rock nacional argentino.
Simultaneamente, a beatlemania chegava ao país, modificando radicalmente o gosto juvenil e abrindo um novo panorama musical-contracultural que em 1967 explodiria com a música "La Balsa" de Los Gatos e o nascimento do rock nacional, tal como é entendido na Argentina.
A Caverna e A Pérola: Os Espaços da Origem
Antes de existirem os discos, existiam os espaços onde a primeira geração do rock argentino se encontrou. O mais importante foi A Caverna — um porão na rua Pueyrredón em Buenos Aires onde as bandas emergentes se apresentavam diante de plateias de cinquenta pessoas que compartilhavam a sensação de estar presenciando algo novo que ainda não tinha nome.
"La Balsa" foi composta em um banheiro de A Pérola, o mítico bar da área de Once. Foi em 1966, durante uma das muitas madrugadas que Litto Nebbia e José Alberto Iglesias — Tanguito — passavam conversando, fumando e tomando algumas bebidas naquele lugar que ficava aberto a noite toda e era frequentado por artistas, boêmios e estudantes.
Os Gatos e A Balsa: O Tiro de Partida
Litto Nebbia — nascido em Rosario em 1952 — era o líder e compositor central de Los Gatos: a banda que com seu simples debut mudou a história do rock na América Latina.
Em 3 de julho de 1967 foi lançado o single "La Balsa", canção composta por Tanguito e Litto Nebbia, no Lado A e "Ayer no más" no Lado B. O disco foi um sucesso massivo e vendeu cerca de 250.000 cópias.
"La Balsa" não era uma canção política no sentido explícito. Era algo mais difícil de definir e mais profundo: o desejo de liberdade de uma geração que se sentia presa, expresso com uma metáfora simples e universal. "Estou muito sozinho e triste aqui / neste mundo abandonado / tenho uma ideia / é ir para o lugar que eu mais quero. / Construirei uma balsa / e irei naufragar."
Para Nebbia, os jovens do final dos anos sessenta na Argentina precisavam de uma canção que expressasse esse desejo de liberdade. "Não há nenhuma razão absoluta. Eu acredito que nosso disco soube tocar profundamente o afeto das pessoas. E que essa canção foi crescendo, multiplicando-se e passando de uma geração para a outra por seu próprio mérito."
Naquele mesmo ano foi fundada a gravadora Mandioca — a primeira dedicada exclusivamente ao rock argentino — e foi publicada a primeira edição da revista Pinap. O movimento tinha sua canção, seu selo e sua imprensa.
Tanguito: O Fantasma do Rock Nacional
José Alberto IglesiasTanguito — foi a figura mais mítica e trágica da primeira geração do rock argentino. Coautor de "La Balsa", viveu à margem da cena que ajudou a criar: internações psiquiátricas, vida na rua, criatividade brilhante que não encontrava canais para fluir. Morreu em 1972, atropelado por um trem, aos vinte e sete anos. Seu álbum póstumo é o documento mais fragmentado e poderoso do rock argentino daquele período.
Almendra: El Flaco e a Poesia
Luis Alberto Spinetta — "El Flaco" — nasceu em Buenos Aires em 23 de janeiro de 1950. Formou o Almendra em 1967 com Edelmiro Molinari, Emilio del Guercio e Rodolfo García. Tinha dezessete anos quando começou a compor as músicas que definiriam o grupo.
Almendra trouxe uma sensibilidade artística inédita. Com uma abordagem poética e sofisticada, elevaram a qualidade lírica do rock argentino. Seu álbum de estreia Almendra (1969) foi um álbum conceitual à frente de seu tempo.
"Muchacha (Ojos de Papel)"Ouvir — foi a canção que apresentou Spinetta ao mundo: uma descrição do amor adolescente com imagens tão específicas e tão belas que a crítica falou de surrealismo e poesia concreta. "Muchacha ojos de papel / blanco pan de la canción / un duende en tu mirada / que habita em meu coração" — o rock argentino falando como nunca antes havia falado.
O álbum duplo Almendra (1969) é o documento fundacional do rock argentino como arte: canções que iam do rock elétrico à balada acústica ao blues à música de câmara, todas unidas pela voz e escrita de Spinetta, que aos dezenove anos já era o compositor mais importante de sua geração.
Almendra se separou em 1970. Spinetta continuaria sendo a figura central do rock argentino por mais quatro décadas, com Pescado Rabioso, Invisible e como artista solo, produzindo uma obra que nenhum outro artista de rock em espanhol igualou em extensão e profundidade.
Manal: O Blues do Rio da Prata
A terceira parte da trilogia fundacional era Manal — o grupo de Javier Martínez, Claudio Gabis e Alejandro Medina que trouxe o blues americano ao Rio da Prata com uma autenticidade que nenhum outro grupo da época alcançava.
Onde Los Gatos eram pop-rock acessível e Almendra era poesia elétrica, Manal era o blues mais puro que a Argentina havia produzido: a guitarra de Claudio Gabis com o som de Muddy Waters processado pela umidade do Rio da Prata, a voz e as letras de Javier Martínez descrevendo a vida noturna de Buenos Aires com a economia de palavras do bluesman que não precisa de adornos.
"Avellaneda Blues" — foi sua canção mais representativa: o subúrbio industrial do sul de Buenos Aires transformado em paisagem de blues. A mesma música, outro continente, a mesma desigualdade.
Vox Dei e A Bíblia: A Ambição Conceitual
Vox Dei — formados em Quilmes em 1967 — foram a banda que levou mais longe a ambição conceitual do rock argentino: seu álbum A Bíblia (1971) foi o primeiro álbum conceitual do rock em espanhol — a narração musical do Antigo e do Novo Testamento em rock, com seções de música de câmara e hard rock alternadas com uma coerência que o rock progressivo inglês teria reconhecido como igual.
Mandioca: O Selo que Acreditou Primeiro
O produtor Jorge Álvarez e o selo Mandioca — "a mãe dos garotos" — fundado em 1968, foi o primeiro a acreditar comercialmente no rock em espanhol quando todos os indicadores de mercado diziam que era uma loucura. Ele assinou com Los Gatos, Manal, Almendra, Vox Dei. Consistentemente perdeu dinheiro e abriu o caminho que as grandes gravadoras seguiram depois.
Nota editorial: "La Balsa" foi composta no banheiro de um bar de madrugada por dois jovens sem dinheiro que não sabiam que estavam fundando um movimento. Essa inconsciência da origem — a ausência de plano, estratégia ou intenção de criar algo histórico — é exatamente o que torna uma canção fundacional grandiosa. As canções que se sabem históricas antes de serem escritas geralmente não são. As que mudam a história são as que nascem da necessidade pura de dizer algo que ainda não foi dito. Litto Nebbia e Tanguito precisavam dizer algo naquela madrugada de 1966. Eles disseram. E cinquenta e sete anos depois, o rock argentino ainda começa ali.
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Top 10 do Rock Nacional Fundacional
A Balsa
Los Gatos · 1967
A canção fundacional do rock argentino. 250.000 cópias sem promoção paga. O desejo de liberdade de uma geração expresso em uma metáfora simples e irresistível.
Menina (Olhos de Papel)
Almendra · 1969
A primeira grande canção de Spinetta. O rock argentino falando como poeta pela primeira vez.
Avellaneda Blues
Manal · 1970
O blues do Río de la Plata. O subúrbio industrial argentino como paisagem de Muddy Waters.
Almendra (álbum duplo)
Almendra · 1969
O documento fundacional do rock argentino como arte. Spinetta aos dezenove anos já sendo o compositor mais importante de sua geração.
Presente
Vox Dei · 1971
A urgência do presente como único tempo real. O rock argentino dos anos setenta em sua versão mais direta e atemporal.
A Bíblia (álbum)
Vox Dei · 1971
O primeiro álbum conceitual do rock em espanhol. A ambição do rock progressivo inglês no Rio da Prata.
Para Ir ao Céu
Manal · 1970
Javier Martínez construindo o vocabulário do blues argentino.
Prece para uma Criança Adormecida
Almendra · 1969
Spinetta em sua versão mais contemplativa. A canção de ninar que não é uma canção de ninar.
Ontem Mesmo
Los Gatos · 1967
O lado B de "La Balsa". A outra face do single fundacional.
Rock da Mulher Perdida
Manal · 1970
O hard blues de Manal em sua versão mais poderosa. Claudio Gabis sendo o guitarrista de blues mais extraordinário que a Argentina havia produzido.
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Pratique estas músicas em Doresol
Muchacha (Ojos de Papel)
Luis Alberto Spinetta · 1969

Plegaria para un niño dormido
Almendra · 1969
A série completa
Argentina
Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.
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CAP 02
🇦🇷 Cap 02
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Há artistas que fazem bem o que já existe. E há artistas que destroem o que existe para construir algo novo sobre as ruínas. **Astor Piazzolla** pertence à segunda categoria — e pa
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CAP 04
🇦🇷 Cap 04
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O tango era Buenos Aires: o porto, o cortiço, a periferia, a cidade que olhava para a Europa com nostalgia. O folclore era todo o resto: o noroeste andino com suas quebradas e suas
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🇦🇷 Cap 05
O Rock Nacional Fundacional: La Balsa, o Flaco e o Blues do Bajo Belgrano (1966–1973)
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CAP 06
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