🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 1 de 10

As Raízes: Os Três Mundos Que Fizeram uma Música (séculos XV–XIX)

Argentina é o oitavo país mais grande do mundo: 2.780.400 quilômetros quadrados que se estendem da selva subtropical do norte aos canais patagônicos do sul, dos Andes no oeste às planícies infinitas da pampa no leste. Nesse território conviveram — e convivem — dezenas de povos com tradições musicais próprias que o processo de colonização europeia tentou suprimir e que sobreviveram com uma persistência que hoje chamamos de folclore.

9 min de leitura publicado 26/05/2026 118 leituras por DoReSol
As Raízes: Os Três Mundos Que Fizeram uma Música (séculos XV–XIX)

A música folclórica argentina encontra suas raízes nas culturas indígenas originárias. Três grandes acontecimentos histórico-culturais a foram moldando: a colonização espanhola (séculos XVI-XVIII), a imigração europeia (1850-1930) e a migração interna (1930-1980).

Desse triplo encontro — o mundo indígena, o mundo africano trazido pela escravidão, o mundo europeu dos conquistadores — nasceu o som que a Argentina reconhece como próprio: uma música que não pertence completamente a nenhuma de suas três origens, mas que carrega todas elas dentro de si.

A Raiz Indígena: Antes do Violão

Antes de os espanhóis chegarem ao Rio da Prata no século XVI, o território que hoje é a Argentina era habitado por dezenas de povos com tradições musicais completamente diferentes entre si.

No noroeste andino — Jujuy, Salta, Tucumán — os povos quechuas e aimarás tinham uma música intimamente ligada à cosmovisão andina: a quena, flauta de cana que produz o som mais característico do altiplano, e o sikus ou flauta de pã, o instrumento que os incas haviam levado por todo o continente. Essa música não era entretenimento: era a linguagem com que os homens falavam com a Pacha Mama, com os apus das montanhas, com o ciclo da água e da colheita.

No litoral — Corrientes, Misiones, Entre Ríos — os povos guarani tinham suas próprias tradições vocais e de percussão, com cantos responsoriais e ritmos que os jesuítas que chegaram no século XVII tentaram incorporar à liturgia católica com resultados musicalmente extraordinários: as reduções jesuíticas produziram nos séculos XVII e XVIII uma fusão única entre a música barroca europeia e os ritmos guarani que musicólogos de todo o mundo ainda estudam.

Na Patagônia, os povos mapuche, tehuelche e selknam tinham tradições musicais próprias que os cronistas europeus descreviam com fascínio e que sobreviveram parcialmente até o século XX, quando a expansão do Estado argentino para o sul completou o processo de destruição que a colonização havia iniciado.

A Raiz Africana: O Candombe do Rio da Prata

A história musical argentina é também, em uma proporção que a narrativa oficial durante muito tempo preferiu minimizar, uma história africana. No final do século XVIII surgiu o candombe, estilo musical e dança criado pelos escravizados de origem africana, baseado em ritmos de tambor.

Buenos Aires foi, durante o período colonial, um porto escravista ativo. As comunidades afro-argentinas — concentradas no bairro do Mondongo, no que hoje é o sul da cidade — desenvolveram suas próprias instituições culturais: as nações africanas, associações organizadas por origem étnica que funcionavam como espaços de preservação cultural, ajuda mútua e resistência.

Nessas nações soava o candombe: os tambores, os cantos, as danças que vinham da África e que no Rio da Prata encontraram um terreno específico no qual crescer. A presença africana na música rioplatense foi durante décadas tão visível que os cronistas do século XIX descreviam as celebrações dos bairros afro-argentinos como um dos espetáculos mais extraordinários da cidade.

Essa presença quase desapareceu ao longo do século XIX: as guerras de independência e depois a Guerra do Paraguai dizimaram a população afro-argentina, que participou de forma desproporcional em todos os conflitos. Mas seu legado musical não desapareceu: ficou no ritmo do tango, na síncope da milonga, na maneira específica com que a música do Rio da Prata trata o tempo musical de uma forma que as músicas europeias não fazem.

A Raiz Espanhola e o Gaúcho

A colonização espanhola trouxe critérios estéticos, técnicas e instrumentos característicos da música europeia. A mistura cultural levou ao desenvolvimento de danças, instrumentos e técnicas musicais próprias que tiveram uma influência decisiva no folclore argentino.

O instrumento mais importante dessa herança foi o violão: desde que chegou ao Rio da Prata, foi rapidamente adotado pelos criollos e soube entrelaçar-se com os instrumentos nativos de tal forma que hoje é o protagonista principal da música folclórica. Foi companheiro da solidão do gaúcho, do engenho dos payadores.

O gaúcho — o habitante das planícies da pampa, mestiço, livre, que vivia do gado e se movia pelo território com uma independência que o Estado incipiente considerava ameaçadora — foi a figura central da música criolla argentina do século XIX. Suas canções não eram canções de amor no sentido europeu: eram relatos de vida, crônicas da paisagem, reflexões sobre a liberdade e a solidão da planície infinita.

A payada — o duelo de improvisação poética entre dois guitarristas que se desafiam mutuamente com versos que devem rimar, responder ao argumento do rival e demonstrar habilidade poética em tempo real — foi a instituição artística mais importante da cultura gaúcha. Os gaúchos, figuras emblemáticas da cultura rural argentina, relataram por meio de seus violões e payadas histórias de luta, amor e solidão. As payadas são canções improvisadas acompanhadas ao violão, em que dois cantores se enfrentam em um duelo verbal e poético.

O grande texto literário dessa cultura — o Martín Fierro de José Hernández, publicado em 1872 — é também o grande texto musical: um poema épico escrito na métrica das payadas, que descreve a vida do gaúcho perseguido pelo Estado, e que foi aprendido de memória por gerações de argentinos que o cantavam antes que o sistema educacional os ensinasse a lê-lo.

Os Instrumentos: A Física da Mestiçagem

Algumas das contribuições europeias fundamentais foram a guitarra crioula, as modificações feitas no bombo nativo até que se tornasse o bombo legüero, e o charango, uma pequena guitarra fabricada com a carapaça de um tatu, de grande importância para o folclore andino do norte.

O bombo legüero — o tambor de couro bovino que se escuta a uma légua de distância, segundo diz a tradição — é o instrumento de percussão central do folclore argentino. Seu som profundo e pleno define o ritmo da zamba, do chacarero, do malambo. É um instrumento de origem africana modificado com materiais americanos para servir a uma música que é as três coisas ao mesmo tempo.

O bandoneón chegaria mais tarde — no século XIX, da Alemanha, trazido por imigrantes centro-europeus — e se tornaria a alma do tango, o instrumento que nenhum outro país usa da mesma maneira e que a Argentina adotou como se tivesse sido inventado em Buenos Aires. Mas essa é a história do próximo capítulo.

As Danças: O Corpo como Arquivo

As danças do folclore argentino são também arquivos de história: cada passo, cada figura, cada nome guarda a memória do encontro entre os três mundos que produziram a cultura argentina.

O malambo — a sapateado masculino da pampa, nascido no início do século XVII — é a demonstração de virtuosismo individual: um bailarino solo, sem par, que desafia o ritmo com a velocidade e a precisão dos seus pés. É o equivalente dançado da payada: competição, destreza, identidade.

A zamba — não confundir com o samba brasileiro — é a dança mais romântica do folclore argentino: um cortejo entre um homem e uma mulher com lenços, onde ela esquiva e ele persegue numa coreografia que tem a mesma estrutura que a cueca chilena e que provém da zamacueca peruana, transformada nos vales do noroeste argentino até tornar-se algo completamente próprio.

O chamamé — a música do litoral guarani-missioneiro — tem o acordeão como instrumento central e um ritmo sincopado que recorda sua dupla herança: a guarani e a europeia, inseparáveis no nordeste argentino onde a fronteira entre culturas nunca foi tão clara como no resto do país.

Nota editorial: O folclore argentino não é uma tradição única, mas um mosaico de tradições regionais que o século XX tentou unificar sob o rótulo de "música nacional". Essa unificação foi também uma operação política: o Estado peronista dos anos quarenta e cinquenta promoveu o folclore como símbolo de identidade nacional com a mesma intenção com que outros Estados promovem suas tradições — para construir uma imagem de unidade onde a realidade é diversidade. O que sobreviveu a essa operação foi exatamente o que não podia ser uniformizado: a especificidade de cada região, o sotaque particular da quena jujeña, o ritmo inconfundível do chamamé correntino, a melancolia específica da zamba tucumana. A Argentina é um país que se imagina como um e que soa como muitos. Essa tensão é também sua riqueza musical mais profunda.

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Top 10 das Raízes Musicais Argentinas

#CanciónArtista
01

La Payada

Pampa / Río de la Plata

O duelo de improvisação poética que define a identidade gaúcha. O antecedente direto do rap na tradição crioula argentina. A forma artística mais democrática que a cultura popular argentina produziu.

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02

La Zamba

Noroeste

A dança do cortejo mais bela do folclore argentino. O lenço entre o homem e a mulher como linguagem do amor que não precisa de palavras.

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03

El Malambo

Pampa

O sapateado masculino que é também uma filosofia de vida: o gaúcho que se mede a si mesmo, não ao rival, a cada golpe do pé contra a terra.

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04

El Chamamé

Litoral (Corrientes)

A música do nordeste guaraní-europeu. O acordeão e o bandoneão a serviço de um ritmo que mistura dois mundos com a naturalidade de quem não se lembra de que algum dia foram separados.

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05

La Quena

Noroeste andino

O instrumento pré-colombiano que sobreviveu à conquista. O som do altiplano antes de a Argentina existir. A voz dos Andes no folclore contemporâneo.

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06

El Bombo Legüero

Nacional

O tambor que se ouve a uma légua de distância. O pulso do folclore argentino em todos os seus gêneros. A herança africana que sobreviveu ao branqueamento da história oficial.

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07

El Candombe Rioplatense

Buenos Aires

A música das nações africanas do Rio da Prata. A raiz negra do tango que a história oficial preferiu ignorar e que os musicólogos contemporâneos estão recuperando.

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08

La Chacarera

Santiago del Estero

O ritmo mais antigo da música popular argentina. Santiago del Estero como o coração musical do interior profundo, o lugar onde o folclore nunca foi moda, mas sempre foi vida.

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09

As Reduções Jesuíticas

Misiones / Litoral

A fusão mais extraordinária do período colonial: a música barroca europeia e os ritmos guaranis produzindo algo completamente novo. Um experimento musical que durou cento e cinquenta anos.

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10

O Martín Fierro (como texto musical)

Pampa

O poema épico de José Hernández escrito na métrica das payadas. A música antes de ser música: o ritmo que está nas palavras antes de as palavras serem cantadas.

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A série completa

Argentina

Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.

Capítulo 1 de 10 10 de 10 publicados
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