🇦🇷 AR · Argentina · Capítulo 9 de 10

O Pop e o Indie: A Geração da Tela e do Coração (2001–2020)

Em 20 de dezembro de 2001, a Argentina caiu. O sistema bancário colapsou, a classe média perdeu suas economias, cinco presidentes renunciaram em duas semanas e as pessoas foram às ruas bater panelas. Era o fim de uma era — a do menemismo e a ilusão do primeiro mundo — e o começo de algo que ainda não tinha nome.

7 min de leitura publicado 27/05/2026 6 leituras por DoReSol
O Pop e o Indie: A Geração da Tela e do Coração (2001–2020)

O que surgiu dessa crise não foi apenas uma nova política ou uma nova economia: foi também uma nova música. Os anos que se seguiram a 2001 produziram na Argentina uma explosão de criatividade popular: o indie de La Plata, o electropop de Buenos Aires, a nova canção de autor, o pop glamoroso e melodramático de Miranda!

Era a geração que havia crescido com o rock nacional como legado e que agora buscava seu próprio idioma — mais eletrônico, mais fragmentado, mais conectado com o global, mas igualmente argentino em sua sensibilidade.

Miranda!: O Pop como Telenovela da Alma

Alejandro Sergi e Juliana Gattas formaram Miranda! em Buenos Aires em 2001 e construíram em duas décadas de carreira o projeto de pop argentino mais consistente e original do século XXI.

Miranda! é um duo argentino que se autodefine como "o grupo electro-pop-melodramático argentino." Desde seus primórdios em 2001, construiu seu próprio universo: pop glam, teatralidade transbordante e letras que te fazem desfrutar, sonhar, amar e até dançar enquanto choras.

O que Miranda! fez foi algo que o pop argentino raramente se permitiu: ser absolutamente consciente de seus próprios códigos, celebrar o melodrama em vez de se envergonhar dele, fazer do kitsch das telenovelas argentinas um material artístico válido sem nunca perder a inteligência por trás da superfície brilhante.

"Perfecta" — — foi sua canção mais universal: o hino da mulher que exige ser amada como é, com a produção synth-pop dos anos oitenta reinventada para o século XXI.

"Don" — — é a canção com a referência mais memorável do pop argentino dos anos 2000: "a guitarra de Lolo" — uma frase que se tornou um código compartilhado de toda uma geração.

Suas apresentações foram descritas como "glamorosas e melodramáticas" e foram classificadas como "o grupo mais destacado da cena indie-eletrônica de Buenos Aires," recebendo o apelido de "o monstro do underground." Em 2024, Miranda! ganhou o Gardel de Ouro — o maior prêmio da música argentina — confirmando que o pop melodramático platense havia chegado ao centro da cultura nacional.

Él Mató a un Policía Motorizado: O Indie de La Plata

Santiago Motorizado e seus companheiros fundaram Él Mató a un Policía Motorizado em La Plata em 2003, com um nome tirado de uma legenda de um filme americano de classe B que haviam visto em uma festa. O nome era uma piada. A música não.

Él Mató a un Policía Motorizado combina punk rock com noise rock e noise pop, alcançando um som de guitarras fortemente distorcidas e em destaque. Entre suas influências estão Pixies, Ramones, Weezer, Sonic Youth e The Velvet Underground.

O que Él Mató construiu em vinte anos de carreira é o catálogo de indie rock mais importante e querido da Argentina no século XXI. Discos Laptra — o selo de La Plata fundado para distribuir sua música — tornou-se o lar do indie argentino mais relevante: Bestia Bebé, Las Ligas Menores, Peces Raros — toda uma geração de artistas que construíram uma cena à margem do mainstream de Buenos Aires.

Juana Molina: A Exploradora

Juana Molina — nascida em Buenos Aires em 1962 — começou sua carreira como atriz e humorista nos anos noventa, deixou-a para se estabelecer na Califórnia e começou a fazer música que não se parecia com nenhuma outra música argentina.

Seus álbuns Son (2004), Un Día (2008), Wed 21 (2013) — são objetos sonoros de uma singularidade radical: loops de guitarra acústica sobrepostos, vozes processadas, ritmos que emergem das texturas. A crítica internacional a comparou com Bjork e Brian Eno. Nenhuma comparação a capturava completamente porque o que Juana Molina faz não tem precedente exato.

"Sin Guía No" — — é sua canção mais representativa: o ponto onde a experimentação sonora mais radical produz algo absolutamente belo.

Nathy Peluso: A Artista Total

Natalia PelusoNathy Peluso — nasceu em San Juan, Argentina, em 1993, mas cresceu na Espanha e construiu sua carreira a partir de Barcelona. Ela é o exemplo mais completo da nova geração de artistas argentinos que são globais antes de serem locais.

Nathy Peluso talvez seja o melhor exemplo da cena argentina em termos de saber interpretar diferentes gêneros e estilos. Seu álbum Calambre é uma passarela onde desfilam referências musicais como hip hop, salsa, reggaeton, R&B ou tango, aos quais Nathy Peluso se dedica, assumindo todos os riscos.

"Business Woman" — — foi sua declaração artística mais poderosa: o rap-bolero mais original do pop latino-americano recente.

Lali Espósito: A Estrela Pop Total

Mariana EspósitoLali — nasceu em Buenos Aires em 1991. Ela começou sua carreira como atriz infantil em telenovelas argentinas e construiu uma das carreiras pop mais sólidas do país no século XXI.

Sua canção "Obsesión" — — ganhou o Gardel de Ouro de melhor canção do ano em 2024 — o mesmo ano em que Miranda! ganhou o Gardel de Ouro de melhor álbum pop. A confirmação de que o pop argentino do século XXI havia chegado ao centro da cultura nacional.

Nicki Nicole e o Rosario Global

Nikki Nicole CuccoNicki Nicole — nasceu em Rosario em 2000 e se tornou aos vinte anos a primeira artista argentina de trap a ter um impacto global. Seu álbum de estreia Recuerdos (2020) foi o ponto de partida: trap em espanhol com uma melancolia especificamente argentina que o mercado global adotou rapidamente.

"Colocao" — — foi sua música mais popular: o estado de perplexidade emocional do desamor transformado em trap dançante. Rosario — a cidade de Fito Páez e Lionel Messi — dando ao mundo sua próxima estrela global.

A Cena de Cantautores: O Íntimo como Universal

Paralelamente ao pop eletrônico e ao indie de La Plata, a Argentina do século XXI também produziu uma nova geração de cantautores que retomaram a tradição de Spinetta e Fito Páez com as ferramentas da produção contemporânea.

Kevin Johansen — argentino criado no Alasca, com uma mistura de inglês e espanhol que transforma cada canção em uma viagem linguística — produziu em Sur o No Sur (2002) um dos álbuns mais originais do pop argentino da década.

Lisandro Aristimuño — da Patagônia, com uma voz de contratenor e um pop que mistura o folclore com a eletrônica — construiu desde a periferia geográfica do país uma das carreiras mais singulares de sua geração.

Nota editorial: Miranda! ganhou o Gardel de Ouro em 2024, mais de vinte anos depois de suas primeiras apresentações serem descritas como "o monstro do underground." Essa trajetória — do underground portenho ao prêmio mais importante da música argentina — é também a história do pop local no século XXI: gêneros e artistas que o establishment cultural ignorava ou desprezava e que acabaram sendo exatamente o que essa cultura precisava, embora demorasse a reconhecê-lo. A Argentina sempre precisou que seus artistas mais importantes fossem reconhecidos internacionalmente antes de poder reconhecê-los em casa. Miranda! quebrou esse ciclo ficando em Buenos Aires e vencendo a partir daí. Isso também é uma revolução — mesmo que ninguém saia às ruas para celebrá-la.

10 · 0 en DoReSol

Top 10 do Pop e Indie Argentino do Século XXI

#CanciónArtista
01

Perfecta

Miranda! · 2007

O hino pop mais bonito do indie argentino do século XXI. O melodrama sem vergonha como posição artística.

Pendiente
02

Sin Guía No

Juana Molina · 2013

A experimentação sonora mais radical em sua versão mais bonita. A artista mais singular que a Argentina produziu no século XXI.

Pendiente
03

Don

Miranda! · 2008

"A guitarra de Lolo" — o código compartilhado de uma geração transformado em refrão.

Pendiente
04

Obsesión

Lali Espósito · 2023

A canção que ganhou o Gardel de Ouro 2024. A estrela pop total da Argentina confirmando que sabe exatamente o que está fazendo.

Pendiente
05

Business Woman

Nathy Peluso · 2019

O rap-bolero mais original do pop latino-americano. Nathy Peluso sendo completamente argentina em cada compasso.

Pendiente
06

El Mató (álbum de estreia)

Él Mató a un Policía Motorizado · 2004

O ponto de origem do indie de La Plata. Guitarras distorcidas e melodias inesquecíveis.

Pendiente
07

Colocao

Nicki Nicole · 2019

O trap argentino em sua estreia global. Rosario dando ao mundo sua próxima estrela com vinte anos.

Pendiente
08

Sur o No Sur (álbum)

Kevin Johansen · 2002

O pop bilíngue argentino em sua versão mais original. Johansen sendo ao mesmo tempo de todos os lugares e de lugar nenhum.

Pendiente
09

Prisionero

Miranda! · 2007

A canção de amor mais elegante do pop argentino do século XXI. Miranda! em sua versão mais contida e mais poderosa.

Pendiente
10

La Sandunguera

Nathy Peluso · 2017

O ponto de origem de Nathy Peluso como fenômeno. Salsa, trap e pop latino na mesma canção.

Pendiente

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Próximo e último capítulo — Série Argentina: Trap e Reggaeton Argentino — Bizarrap, María Becerra, Duki e a geração que colocou a Argentina no centro do pop global do século XXI.

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A série completa

Argentina

Tango, rock nacional e folclore — o som de um país que se conta a si mesmo.

Capítulo 9 de 10 10 de 10 publicados
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    🇦🇷 Cap 07

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  10. CAP 10

    🇦🇷 Cap 10

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