🇮🇹 IT · Itália · Capítulo 3 de 8

O Festival de Sanremo: A Máquina que Transformou a Canção Italiana em Fenômeno de Massas (1951–presente)

A cidade de Sanremo fica na Ligúria, na Riviera italiana, a vinte e cinco quilômetros da fronteira com a França. É uma cidade pequena, de cerca de cinquenta mil habitantes, conhecida por suas flores — é a capital italiana da floricultura — e por um cassino elegante que no inverno, quando os turistas de verão já não estão, precisava de algo que atraísse as pessoas.

10 min de leitura publicado 27/05/2026 7 leituras por DoReSol
O Festival de Sanremo: A Máquina que Transformou a Canção Italiana em Fenômeno de Massas (1951–presente)

No dia 29 de janeiro de 1951, o Casino de Sanremo recebeu a primeira edição do Festival della Canzone Italiana com quatro cantores, uma orquestra e um apresentador — Nunzio Filogamo — que tinha de preencher uma noite com um concurso de músicas inéditas. Nilla Pizzi venceu com "Grazie dei Fiori." A sala não estava lotada.

Setenta e cinco anos depois, o Festival de Sanremo é o evento televisivo mais assistido da Itália, o termômetro da cultura popular do país, a máquina que lançou os artistas mais importantes da história da música italiana — e o palco do momento mais sombrio e mais misterioso dessa história.

A televisão e o milagre económico

O Festival de Sanremo cresceu junto com a Itália. Nos anos cinquenta, a televisão chegou aos lares italianos com a mesma velocidade com que o dinheiro do boom económico — o milagre económico do pós-guerra que transformou a Itália de país agrícola em potência industrial numa única geração — enchia os bolsos de uma nova classe média que queria entretenimento.

A RAI — a radiotelevisão pública italiana — começou a transmitir Sanremo pela televisão e o festival tornou-se o primeiro grande espetáculo televisivo do país. Os italianos que tinham acabado de comprar o primeiro televisor ligavam-no para ver Sanremo. Os artistas que venciam em Sanremo tornavam-se estrelas nacionais numa semana. O festival era a indústria musical italiana concentrada em três noites de fevereiro.

O que Sanremo conseguiu, e que nenhum outro mecanismo teria podido fazer, foi criar um repertório partilhado: um catálogo de canções que todos os italianos de todas as regiões, de todos os dialetos, de todas as classes sociais conheciam e podiam cantar. Num país que em 1951 ainda não tinha o italiano como língua verdadeiramente comum para a maioria da sua população — as pessoas falavam dialetos em casa e aprendiam o italiano padrão na escola — Sanremo foi a escola musical que uniu o país através das melodias.

"Volare": o momento em que a Itália voou

O momento fundador do Sanremo — o instante que o transformou de um concurso local em um fenômeno global — foi sua oitava edição, em 1958.

Domenico Modugno — cantor e compositor nascido em Polignano a Mare, Puglia, que havia passado anos escrevendo canções que ninguém queria publicar — chegou a Sanremo com uma canção estranha: "Nel blu dipinto di blu", conhecida popularmente como "Volare". A canção começava com o narrador sonhando que pintava as mãos e o rosto de azul para voar pelo céu sem peso, sem preocupações, apenas com o vento e o espaço aberto. Não tinha nenhuma semelhança com as canções sentimentais e carregadas de nostalgia que dominavam o repertório sanremense.

O júri de seleção quase a rejeitou. No final, foi admitida. No palco do Casino de Sanremo, Modugno fez algo que nenhum cantor italiano havia feito antes: abriu os braços como se fosse voar enquanto cantava o refrão. O gesto foi tão inesperado, tão livre, tão fisicamente diferente da postura rígida e formal dos cantores da época, que o público não soube exatamente como reagir — e depois explodiu em aplausos.

"Volare" venceu o Sanremo de 1958. Foi o primeiro artista na história do festival a vencer cantando sua própria composição — até aquele momento, os cantores interpretavam canções de outros. A canção foi levada ao Eurovision, onde ficou em terceiro lugar. E depois conquistou o mundo: vendeu mais de vinte e dois milhões de cópias, ficou treze semanas no número um da Billboard Hot 100 norte-americana, e Domenico Modugno se tornou o primeiro artista a ganhar o Grammy de Gravação do Ano e de Álbum do Ano simultaneamente — nos primeiros Grammys da história, em 1959.

Ninguém na Itália — nem o próprio Modugno — havia imaginado que uma canção em italiano sobre sonhar que se voa pelo céu azul poderia chegar tão longe.

Os anos dourados: os urlatori e o beat italiano

Nos anos sessenta, Sanremo tornou-se o palco onde a Itália do milagre econômico processava suas contradições culturais. Por um lado, a tradição da canzone italiana — melódica, sentimental, orientada para a voz lírica. Por outro, o rock and roll que chegava dos Estados Unidos e da Inglaterra e que os jovens italianos queriam fazer seu.

Os urlatori — literalmente "os que gritam", o nome irônico que os críticos conservadores deram aos cantores de rock italiano da época — sacudiram Sanremo com uma energia que a instituição nunca havia visto. Adriano Celentano, Mina, Bobby Solo: artistas que cantavam com o corpo, que se moviam no palco, que tornavam visível que a música era também física e não apenas melódica.

Mina — Anna Maria Mazzini, nascida em Cremona em 1940 — foi a voz mais extraordinária da música italiana do século XX. Uma soprano do pop capaz de passar da intimidade sussurrada à potência operística na mesma frase, com um controle e uma expressividade que deixavam sem palavras os maestros que trabalhavam com ela. Ganhou Sanremo. Encheu estádios. E em 1978 se retirou dos palcos para sempre — aos trinta e oito anos, no auge de sua carreira — e desde então grava discos em casa e não aparece em público. Continua sendo considerada a melhor cantora da história da música popular italiana. Seus fãs a chamam simplesmente de "La Tigre di Cremona."

Gianni Morandi — o garoto de Emilia-Romagna que em criança ajudava seu pai comunista a vender o jornal do partido e que na adolescência engraxava sapatos no único cinema da cidade — tornou-se o ídolo juvenil dos anos sessenta com canções como "In Ginocchio da Te" e "Non Son Degno di Te." Vendeu milhões de discos, ganhou Sanremo, fez filmes, e ainda hoje, aos oitenta anos, continua sendo uma das figuras mais queridas da televisão e da música italiana.

A noite mais sombria: Luigi Tenco, janeiro de 1967

No dia 26 de janeiro de 1967, o cantor e compositor Luigi Tenco se apresentou na décima sétima edição de Sanremo com a canção "Ciao Amore, Ciao" — uma canção sobre a emigração do sul para o norte, sobre aqueles que deixam sua terra por necessidade e se perguntam se algo do que deixaram para trás ainda existe quando olham atrás. Era uma canção de uma honestidade crua, sem a doçura comercial que Sanremo esperava.

A canção não passou para a final. Tenco, que havia dito ao apresentador Mike Bongiorno antes de subir ao palco "esta é a última canção que canto", foi encontrado morto em seu quarto no Hotel Savoy de Sanremo na madrugada do dia 27 de janeiro, com um tiro na cabeça. A versão oficial foi suicídio. Cinquenta anos depois, a investigação ainda apresenta contradições que ninguém conseguiu explicar completamente: ninguém ouviu o disparo, a pistola não constava no inventário inicial do quarto e não foram encontrados resíduos de pólvora na mão do cantor. O mistério permanece sem solução.

O festival continuou naquela mesma noite. O diretor artístico anunciou a morte de Tenco ao público presente e a competição prosseguiu. A canção vencedora foi "Non Pensare a Me" de Iva Zanicchi e Claudio Villa.

A morte de Luigi Tenco é a ferida que Sanremo nunca terminou de fechar. Representou o choque entre duas Itálias: a Itália comercial que queria canções fáceis e vendáveis, e a Itália dos cantautori que queria que a canção dissesse algo verdadeiro mesmo que isso custasse o sucesso. Tenco escolheu o lado da verdade — e Sanremo escolheu o lado do mercado.

Sanremo como espelho da Itália

Durante as décadas seguintes, o festival continuou a funcionar como o termômetro cultural mais preciso da Itália. Cada edição refletiu o estado do país melhor do que qualquer pesquisa:

Os anos setenta, com o movimento operário e as tensões políticas, viram surgir canções de conteúdo social que o festival nem sempre soube como lidar. Os anos oitenta, com o yuppismo e o consumismo da era Craxi, produziram uma explosão do pop italiano mais brilhante e mais superficial. Al Bano e Romina Power, Toto Cutugno, Fausto Leali: Sanremo como espetáculo familiar televisivo no seu pico de audiência.

Vasco Rossi participou do Sanremo 1983 com "Vita Spericolata" — uma canção sobre viver sem regras, sobre o rock and roll como atitude diante da vida — e terminou em último lugar na sua categoria. A canção se tornou o hino de várias gerações italianas e hoje é considerada uma das melhores canções da história do rock italiano. Zucchero participou em 1985 com "Donne" e também não ganhou. Os dois casos são sempre citados quando se quer demonstrar a distância entre o gosto dos júris do Sanremo e o gosto real do público.

O século XXI e os Måneskin: o círculo fecha-se

Em 2021, numa edição realizada sem público no Teatro Ariston devido às restrições da pandemia, um grupo de rock romano chamado Måneskin — formado por quatro vinte e poucos anos que tinham chegado à fama através do programa X Factor em 2017 — venceu Sanremo com "Zitti e Buoni": glam-rock duro, letras em italiano sem concessões ao pop comercial, uma atuação com uma energia cénica que não se via no Teatro Ariston desde os urlatori dos anos sessenta.

"Zitti e Buoni" — "quietos e bons", uma ironia perfeita para uma canção que faz exatamente o contrário — venceu também o Festival Eurovisão nesse mesmo ano, com 524 pontos. Foi a primeira canção em italiano a entrar no Top 20 do UK Singles Chart em trinta anos. Os Måneskin tornaram-se no primeiro grupo italiano a alcançar audiências globais massivas na era do streaming.

O arco era perfeito: em 1958, Domenico Modugno tinha levado uma canção italiana ao número um da América com "Volare". Em 2021, os Måneskin levaram uma canção em italiano — rock duro, sem filtros, sem tradução — ao número um da Europa.

Sanremo, que tinha nascido num casino para preencher noites de inverno vazias, tinha voltado a ser a plataforma de lançamento da música italiana para o mundo.

Nota editorial: A primeira edição de Sanremo, em 1951, teve quatro cantores. A edição de 2023 contou com vinte e cinco artistas, uma semana inteira de transmissão em horário nobre, e foi o evento televisivo mais visto de Itália nesse ano, com picos de audiência de doze milhões de espectadores simultâneos num país de sessenta milhões de habitantes. Em setenta e dois anos, o festival passou de ser um concurso de salão a ser a medida do que Itália é e do que quer ser. Não existe nenhum outro festival de música no mundo com essa função cultural específica — nem os Grammy, nem a Eurovisão, nem Coachella. Sanremo é o único festival que é ao mesmo tempo mercado, espelho e sacramento.

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Top 10 Canções Essenciais de Sanremo

#CanciónArtista
01

Nel blu dipinto di blu (Volare)

Domenico Modugno

1958

Pendiente
02

Zitti e Buoni

Måneskin

2021

Pendiente
03

Vita Spericolata

Vasco Rossi

1983

Pendiente
04

Ciao Amore Ciao

Luigi Tenco

1967

Pendiente
05

Grande, Grande, Grande

Mina

1972

Pendiente
06

L'Italiano

Toto Cutugno

1983

Pendiente
07

Si può dare di più

Morandi / Ruggeri / Tozzi

1987

Pendiente
08

Grazie dei Fiori

Nilla Pizzi

1951

Pendiente
09

Perdere l'amore

Massimo Ranieri

1988

Pendiente
10

Donne

Zucchero

1985

Pendiente
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Itália

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