🇮🇹 IT · Itália · Capítulo 7 de 8

O Pop Internacional: Bocelli, Pausini, Ramazzotti e a Itália que Conquistou o Mundo (1984–atualidade)

Houve três momentos na história do século XX em que a música italiana conquistou audiências globais em massa. O primeiro foi a canção napoletana levada pelos imigrantes e por Caruso para a América entre 1880 e 1930. O segundo foi a música leve de Sanremo — Modugno, Mina, Celentano — que chegou toda Europa e América Latina nos anos sessenta e setenta. O terceiro foi a geração de artistas que levou a tradição melódica italiana para os mercados globais do pop nos anos noventa com uma eficácia que nenhuma geração anterior havia alcançado.

9 min de leitura publicado 28/05/2026 3 leituras por DoReSol
O Pop Internacional: Bocelli, Pausini, Ramazzotti e a Itália que Conquistou o Mundo (1984–atualidade)

Aquela terceira onda tem três nomes principais: Eros Ramazzotti, Laura Pausini e Andrea Bocelli. Três artistas nascidos nos anos sessenta e setenta que chegaram à cima nos noventa e que construíram carreiras de três décadas em que a Itália voltou a ser um nome nas listas de popularidade de todo o mundo.

O que os une não é um som compartilhado — os três são muito distintos entre si — mas uma estratégia comum: gravar em múltiplos idiomas, chegar a múltiplos mercados simultaneamente, e levar a melodia italiana — essa maneira específica de construir uma frase musical que sobe e baixa com a graça do quem fala uma língua cantada — a contextos que o rock anglo-americano não suela habituar.

Eros Ramazzotti: A Voz Nariz que Encheu Estádios

Eros Ramazzotti nasceu em 28 de outubro de 1963 em Roma, no bairro de Cinecittà. Era o artista pop italiano dos anos oitenta que não parecia um artista pop italiano dos anos oitenta: sem a suavidade calculada dos ídolos da época, com uma voz nasal e áspera que seus detratores achavam imperfeita e que seus fãs encontravam exatamente por isso irresistível.

Em 1984 venceu o Festival de Sanremo na categoria de artistas novos com "Terra Promessa" — a promessa de terra como metáfora do amor buscado — e daquele impulso não parou mais. "Una Storia Importante" (1985), "Adesso Tu" (1986), "Musica È" (1988): uma sucessão de hits que encheu as rádios italianas e que começou a circular pela Europa com a constância de quem tem algo a dizer e sabe como dizer.

O que o diferenciou do pop italiano da sua geração foi a decisão de gravar em espanhol. "Tutte Storie" (1993)"Todo Historias" na versão espanhola — foi seu primeiro álbum gravado simultaneamente em dois idiomas, e a resposta do público hispânico foi imediata: Espanha, México, Argentina, Colômbia, Venezuela — em todos esses países a voz de Ramazzotti começou a soar nas rádios com a mesma intensidade que na Itália.

Duetos com Tina Turner ("Cose della Vita / Can't Stop Thinking of You", 1997), com Cher, com Luciano Pavarotti, com Andrea Bocelli: Ramazzotti construiu sua carreira também através das parcerias, da estratégia de fazer com que o mainstream anglo-saxão e o pop italiano se encontrassem no mesmo espaço.

Mais de sesenta e cinco milhões de discos vendidos em trinta e cinco anos de carreira o tornaram no artista italiano masculino mais vendido na história do seu país. Um homem com voz nasal que alguém nos oitenta talvez tenha rejeitado em uma audição.

Laura Pausini: De Faenza ao Mundo

No dia 27 de fevereiro de 1993, uma jovem de dezoito anos de Faenza — um povo da Emilia-Romagna — subiu ao palco do Festival de Sanremo na categoria de novos artistas e cantou "La Solitudine": uma balada sobre um garoto chamado Marco que se vai longe separado de sua namorada por sua família, e o sentimento de solidão que ela sente em sua ausência.

Era sua primeira atuação profissional em um palco grande. A música ganhou o festival. E a carreira de Laura Pausini — filha de um cantor e músico que lhe ensinou desde criança cantando em piano-bares — começou com esse impulso e nunca mais parou.

O que diferenciou Pausini dos outros artistas pop italianos da sua geração foi a decisão — ou mais precisamente a abertura da sua gravadora que ela abraçou com entusiasmo — de gravar toda a sua discografia simultaneamente em italiano e em espanhol. A versão em espanhol do seu primeiro álbum foi o disco mais vendido de 1994 na Espanha. "Se Fue" — a versão de "Non c'è" — tornou-se uma das baladas mais ouvidas em toda a América Latina naquele ano.

Trinta anos depois, Pausini continua sendo a artista italiana que tem a relação mais profunda e mais duradoura com o público hispanohablante: não como artista italiana que canta em espanhol, mas como artista que é genuinamente dos dois mundos, que pertence a Faenza e a Cidade de México e a Buenos Aires com a mesma autenticidade.

Mais de setenta milhões de discos vendidos. Um Grammy (Melhor Álbum Pop Latino, 2005). Múltiplos Latin Grammy. Um Globo de Ouro pela música "Io Sì (Seen)" — composta com Diane Warren para o filme La Vita Davanti a Sé de Edoardo Ponti, com Sophia Loren — que também foi indicada ao Oscar como Melhor Canção Original em 2021. 226 discos de platina no mundo.

"La Solitudine" — a música que fala sobre Marco, o garoto que se foi longe — tem hoje trinta e dois anos e continua sendo o padrão italiano mais reproduzido da história do pop daquela década.

Andrea Bocelli: O Tenor Cego de Lajatico

Andrea Bocelli nasceu em 22 de setembro de 1958 em Lajatico, um pequeno povoado da Toscana com menos de quinhentos habitantes. Desde criança tinha problemas de visão — um glaucoma congênito — e, aos doze anos, em um acidente jogando futebol, perdeu a visão completamente.

Estudou piano, flauta e guitarra. Depois estudou direito e trabalhou como advogado. Continuou cantando em piano-bares à noite, como fizera Laura Pausini com seu pai. Em 1992, o rockero Zucchero estava procurando um tenor para gravar uma demo de "Miserere" — uma música que havia escrito pensando em uma colaboração com Luciano Pavarotti. Bocelli gravou a demo. Quando Pavar,otti a ouviu, disse a Zucchero que usasse aquele tenor desconhecido. "Ele tem algo", disse Pavarotti. Essa demo nunca foi lançada, mas a voz de Bocelli começou a circular.

Em 1994, Bocelli ganhou a categoria de novos artistas em Sanremo com "Il Mare Calmo della Sera". No ano seguinte cantou "Con Te Partirò" em outro festival televisivo italiano — uma música escrita por Francesco Sartori com letra de Lucio Quarantotto que era lírica, ambiciosa, com essa melodia que sobe para o céu no refrão com a potência de uma aria de ópera.

Em novembro de 1996, a soprano inglesa Sarah Brightman ouviu a música enquanto jantava em um restaurante e a procurou. Propôs a Bocelli cantar juntos como dueto, com algumas frases adicionadas em inglês — "Time to Say Goodbye" — para a despedida do boxeador alemão Henry Maske. Gravaram a versão orquestrada com a London Symphony Orchestra.

"Time to Say Goodbye" esteve quatorze semanas na posição um da Alemanha e vendeu quase três milhões de cópias apenas nesse país — tornando-se o single mais vendido na história da Alemanha até então. No total vendeu mais de doze milhões de cópias no mundo. Bocelli passou de ser um cantor de festivais italianos para ser a voz mais famosa da música clássica crossover do mundo em um espaço de um ano.

Seu álbum Romanza (1996) foi seu debut internacional. Sacred Arias (1999) tornou-se o álbum mais vendido na história da música clássica por um solista. Em um momento de 1999, Bocelli teve simultaneamente as posições 1, 2 e 3 do chart de álbuns clássicos dos Estados Unidos — um recorde que figura no Guinness Book of Records.

Já vendeu mais de oitenta milhões de discos no total — a maior cifra de qualquer artista de música clássica na história. Durante a pandemia de 2020, cantou sozinho na Catedral de Milão no Dia de Páscoa diante de uma audiência de trinta e cinco milhões de pessoas em streaming simultâneo — um concerto que foi organizado em quatro dias e que se tornou o evento de música clássica mais visto na história da internet.

Zucchero: O Blues que a Itália Não Sabia que Tinha

Nenhuma história do pop italiano internacional dos anos 90 está completa sem Adelmo Fornaciari — Zucchero, o açúcar — o cantor e compositor de Reggio Emilia que construiu uma carreira inteira sobre a paradoja de ser o músico de blues mais bem-sucedido da Itália.

Zucchero levou o soul e o rhythm & blues de Ray Charles e de Otis Redding e os passou pelo filtro do rock italiano e da melodia mediterrânea, produzindo algo que não era exatamente nenhum dos dois, mas que tinha a energia do primeiro e a emotividade do segundo. "Senza una Donna" — que gravou em dueto com Paul Young e que chegou ao top 10 em toda a Europa"Diavolo in Me", "Baila (Sexy Thing)": músicas que tocavam nos estádios com a mesma potência de um concerto de rock.

Pavarotti o viajava como um amigo e um igual — gravaram juntos, compartilharam palcos. Essa aliança entre o rock do blues italiano e a ópera era exatamente o tipo de contradição que Zucchero habitava com naturalidade e que o tornava único.

A tradição que segue

O que Ramazzotti, Pausini, Bocelli e Zucchero demonstraram — cada um à sua maneira — é que a melodia italiana tem uma capacidade de comunicação que transcende a língua. Uma canção em italiano bem construída pode chegar a alguém que não entende nenhuma palavra porque a forma como essa melodia sobe e desce, a maneira como as vogais abertas do italiano preenchem o espaço sonoro, o modo como a emoção se constrói nota a nota — tudo isso fala antes que as palavras.

Essa é a herança de quatro séculos de ópera, de cem e vinte anos de canzone napoletana, de setenta anos de Sanremo: uma tradição de construir melodias com a precisão de quem sabe que a melodia é a coisa mais importante, que se a melodia não chega, não há produção nem colaboração que a salve.

A terceira onda italiana do pop foi a prova de que essa tradição não se havia esgotado. Só estava esperando a geração adequada para voltar a demonstrar seu alcance.

Nota editorial: Quando Sarah Brightman ouviu pela primeira vez "Con te Partirò" estava jantando em um restaurante italiano. A música tocava em segundo plano — como acontece em restaurantes italianos — e ela parou de comer e perguntou quem cantava. Disseram-lhe o nome de um tenor toscano cego e desconhecido que havia ganhado um festival menor. Ela o procurou, propôs o dueto, gravaram juntos com a London Symphony Orchestra e o resultado vendeu doze milhões de cópias. A história da música popular está cheia desse momento: alguém comendo em um restaurante, uma melodia que o detém, tudo o que vem depois. Itália leva quatro séculos produzindo melodias capazes de parar as pessoas em um restaurante.

10 · 4 en DoReSol

Top 10 do Pop Italiano Internacional

#CanciónArtista
01

Time to Say Goodbye (Con te Partirò)

Andrea Bocelli & Sarah Brightman

1996

Pendiente
02

La solitudine

Laura Pausini · 1993

1993

Canción3:57
03

Musica È

Eros Ramazzotti

1988

Pendiente
04

Sacred Arias

Andrea Bocelli

1999

Pendiente
05

Se Fue

Laura Pausini

1994

Pendiente
06

Cose della Vita

Eros Ramazzotti & Tina Turner

1997

Pendiente
07

Senza una donna

Zucchero · 1987

1991

Canción4:27
08

Io Sì (Seen)

Laura Pausini

2020

Pendiente
09

Adesso tu

Eros Ramazzotti · 1997

1986

Canción4:04
10

Il Mare Calmo Della Sera

Andrea Bocelli · Andrea Bocelli

1994

Canción
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Próximo e último capítulo — Série Itália: O Século XXI — Måneskin, o neo-cantautorato, Tiziano Ferro, a cena italiana atual e o rock romano que conquistou o mundo.

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A série completa

Itália

Ópera, canção napolitana, cantautores e a nova cena. Dez séculos de canção.

Capítulo 7 de 8 8 de 8 publicados
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