🇮🇹 IT · Itália · Capítulo 4 de 8

A Década de Ouro do Pop: Celentano, Mina e o Som que a Itália Exportou para o Mundo (1958–1980)

Entre 1958 e 1963, a Itália viveu o período de crescimento econômico mais rápido de sua história: o miracolo economico — o milagre econômico — que transformou em menos de uma geração um país agrícola devastado pela guerra na quarta economia industrial do mundo ocidental. As fábricas de Milão e Turim absorveram milhões de trabalhadores vindos do sul. As geladeiras, as máquinas de lavar e as televisões entraram nas casas italianas pela primeira vez. A Vespa e o Fiat 500 colocaram milhões de italianos em movimento.

11 min de leitura publicado 27/05/2026 6 leituras por DoReSol
A Década de Ouro do Pop: Celentano, Mina e o Som que a Itália Exportou para o Mundo (1958–1980)

Com o dinheiro chegou também a necessidade de entretenimento, de uma música que expressasse a energia e o otimismo de um país que estava se reinventando. E essa música surgiu: não a partir da tradição da canzone napoletana nem da solenidade da ópera, mas a partir de uma geração de artistas jovens que tinham ouvido o rock and roll norte-americano, o rhythm & blues, o beat inglês, e que queriam fazer tudo isso — mas em italiano, com a melodia italiana, com as cores do Mediterrâneo.

O resultado foi a musica leggera — a música ligeira — italiana dos anos sessenta e setenta: o período mais fértil, mais criativo e mais influente da canção popular italiana do século XX. As canções escritas nesses vinte anos são o repertório que todo o mundo associa à Itália quando pensa em música italiana moderna: "Azzurro", "Il ragazzo della via Gluck", "La canzone del sole", "Grande grande grande."

Adriano Celentano: O Molleggiato da Via Gluck

Adriano Celentano nasceu em 6 de janeiro de 1938, no número 14 da Via Gluck, em Milão — uma rua na periferia industrial da cidade, numa família emigrada do sul da Itália. Seus pais tinham deixado a Puglia em busca de trabalho nas fábricas do norte. Ele cresceu naquele Milão de bairros operários que, nos anos cinquenta, começava a ser demolido para dar lugar aos novos edifícios do milagre econômico.

Iniciou sua carreira imitando Jerry Lewis e Elvis Presley nos cabarés do centro de Milão — daí seu apelido, Il Molleggiato (o elástico, a mola), pela maneira como se movia no palco com uma energia física que ninguém no pop italiano havia exibido antes. Em 1958, aos dezenove anos, foi o único italiano a participar do primeiro grande festival de rock and roll organizado em Milão, onde competiu — e venceu — contra artistas norte-americanos.

Em 1961 fundou seu próprio selo, Clan Celentano, antecipando em décadas a tendência dos artistas de controlar sua própria produção. Por esse selo lançou, ao longo dos anos sessenta, uma sucessão de sucessos que o tornaram o artista mais versátil e mais imprevisível da música italiana: "24.000 Baci" (1961), que chegou a um milhão de cópias, "Pregherò" — sua versão italiana de "Stand by Me" — e, sobretudo, os dois clássicos que definem sua figura para sempre.

"Il Ragazzo della Via Gluck" (1966) é a canção mais autobiográfica de sua carreira: o garoto da Via Gluck que volta ao seu bairro de infância e o encontra demolido, transformado em edifícios e concreto, sem as árvores e os prados que existiam quando era criança. A canção capturou o sentimento de toda uma geração de italianos que o milagre econômico havia arrancado de suas raízes rurais para transplantá-los nas cidades industriais do norte — e que de repente se viam olhando para trás e percebendo que o que tinham deixado para trás já não existia.

"Azzurro" (1968) — escrita pelo compositor e cantor Paolo Conte, que Celentano contratou para seu selo Clan — é algo completamente diferente: uma canção de verão, de nostalgia luminosa, daquele azul que em italiano tem o nome exato da sensação que o céu de agosto produz sobre o Mediterrâneo. "Azzurro, il pomeriggio è troppo azzurro e lungo per me" — "Azul, a tarde é azul demais e longa demais para mim." A canção tornou-se o hino do verão italiano por excelência e uma das canções mais reconhecíveis da história da música popular italiana.

Celentano nunca foi apenas um cantor: foi também ator em dezenas de filmes — incluindo uma aparição em La Dolce Vita, de Fellini —, diretor de cinema, apresentador de televisão e polemista social que usou seus programas na RAI para criticar a política e a corrupção italiana com uma franqueza que poucos artistas de seu calibre haviam se permitido. Tinha um talento específico para o escândalo produtivo: suas provocações geravam debate e suas canções ficavam.

Mina: A Tigre de Cremona que se tornou invisível

Anna Maria Mazzini nasceu em 25 de março de 1940 em Busto Arsizio — embora tenha crescido em Cremona, a cidade que lhe deu o apelido de La Tigre di Cremona — e herdou a paixão pelo canto de sua avó Amelia, que era cantora de ópera. No verão de 1958, durante as férias, subiu improvisadamente ao palco de La Bussola, o clube mais elegante da Versília, e cantou. Os presentes ficaram sem palavras. A proprietária do local a contratou na hora.

Nos anos seguintes, Mina tornou-se a cantora italiana mais extraordinária do século XX com uma facilidade que deixava perplexos os músicos que trabalhavam com ela: uma voz capaz de passar sem esforço aparente do sussurro mais íntimo à potência de uma soprano de ópera, com uma musicalidade e uma inteligência interpretativa que transformavam qualquer canção — boa ou má, própria ou alheia — em algo completamente seu.

Federico Fellini lhe ofereceu o papel principal em Satyricon e em Il Viaggio di G. Mastorna. Ela recusou ambas as propostas. Francis Ford Coppola a quis como protagonista feminina de O Podrinho no papel que acabou sendo de Diane Keaton. Recusou também essa. Mina nunca explicou suas recusas ao cinema com muitos detalhes — a música era suficiente.

Sua colaboração com a dupla de compositores Mogol e Lucio Battisti produziu algumas das melhores canções do pop italiano dos anos setenta. E em 1972, no programa de televisão Teatro 10, protagonizou ao lado do ator Alberto Lupo o dueto "Parole Parole" — uma cena de quatro minutos em que ele lhe declara amor com frases grandiosas e ela responde com um "parole, parole, parole" que mistura tédio com ternura — que muitos críticos italianos descrevem como "os oito minutos que mudaram a música italiana."

Em 1978, no auge de sua carreira, Mina se retirou dos palcos para sempre. Não deu nenhuma entrevista. Não explicou a decisão com mais detalhes do que o estritamente necessário. Desde então vive na Suíça, grava discos em seu estúdio privado com a mesma regularidade de sempre — sua discografia pós-aposentadoria é mais extensa do que a da maioria dos artistas em atividade — e não aparece em público.

Seus fãs a chamam de La Tigre. Os músicos italianos a tratam como a referência definitiva do que uma cantora pode fazer com uma voz. E a revista Time a incluiu em uma lista dos maiores cantores de todos os tempos. Tem oitenta e cinco anos e continua gravando. Ninguém sabe exatamente onde.

Lucio Battisti e Mogol: a dupla que definiu uma época

Se Celentano foi a energia e Mina foi a voz, Lucio Battisti foi a melancolia luminosa: o compositor e cantor que, junto com seu letrista Mogol — Giulio Rapetti, que sempre assinava com esse pseudônimo — criou entre 1969 e 1980 o catálogo de canções pop mais amado da história italiana.

Battisti nasceu em 1943 em Poggio Bustone, uma pequena cidade na região da Úmbria. Não tinha uma voz convencionalmente bonita — os críticos da época o acusavam de ser "um não-cantor" — mas tinha algo mais valioso: uma forma de interpretar suas próprias canções que fazia cada nota soar como se viesse diretamente da experiência pessoal, sem filtros, sem a distância que a técnica às vezes interpõe entre o cantor e a canção.

A dupla Mogol-Battisti — Mogol colocando as letras, Battisti colocando a música — funcionou durante dez anos com uma produtividade e uma consistência que não tem paralelo na história do pop italiano. As letras de Mogol tinham uma aparente simplicidade que escondia uma complexidade emocional muito precisa: falavam do amor com a honestidade de quem o está vivendo naquele momento, sem metáforas nem adornos literários, com a mesma língua que as pessoas usavam na rua.

"Acqua Azzurra, Acqua Chiara" (1969), "Mi Ritorni in Mente" (1969), "Emozioni" (1970), "Fiori Rosa, Fiori di Pesco" (1970), "La Canzone del Sole" (1971), "I Giardini di Marzo" (1972), "Il Mio Canto Libero" (1972): canções que na Itália têm o mesmo status cultural que os grandes sucessos do rock anglo-americano têm no resto do mundo — não como nostalgia, mas como referência viva, como canções que continuam tocando nas rádios e nos celulares dos jovens italianos que não tinham nascido quando foram gravadas.

Mina dedicou um álbum inteiro às suas canções: Minacantalucio (1975) — "Mina canta Lucio" — é um dos encontros mais extraordinários entre uma voz e um catálogo na história do pop italiano.

Battisti rompeu com Mogol em 1980 e continuou sua carreira com um novo letrista, Pasquale Panella, em uma direção radicalmente experimental que desconcertou seus fãs e que hoje é reconhecida como um dos experimentos mais audaciosos do pop europeu dos anos oitenta e noventa. Morreu em 9 de setembro de 1998, de linfoma, em Milão. Tinha cinquenta e cinco anos. Não havia dado entrevistas em dezesseis anos — a mesma decisão de invisibilidade que Mina havia tomado vinte anos antes. Há algo nos maiores nomes do pop italiano dessa geração — uma resistência ao espetáculo midiático que os tornava mais misteriosos e mais amados ao mesmo tempo.

Al Bano e Romina Power, Gianni Morandi, Rita Pavone

A década de ouro do pop italiano não foi apenas Celentano, Mina e Battisti. Foi também uma geração inteira de artistas que preencheram os anos sessenta e setenta com canções que chegaram a toda a América Latina pelas ondas do rádio e pelos discos que os imigrantes italianos compravam em Buenos Aires, em São Paulo, em Caracas.

Al Bano — Albano Carrisi, nascido em Cellino San Marco, Puglia, em 1943 — chegou a Milão aos dezesseis anos e sem dinheiro para conquistar a música. Conseguiu. Seu duo com Romina Power — a atriz norte-americana filha do ator Tyrone Power, com quem se casou em 1970 — foi um dos fenômenos comerciais mais notáveis do pop italiano internacional: "Felicità" (1982), "Ci sarà" (1984), canções que na Argentina e no Brasil daqueles anos tocavam em todas as rádios com a mesma frequência que os grandes sucessos locais.

Gianni Morandi — o garoto da Emilia-Romagna que em criança vendia o jornal do partido comunista de seu pai e engraxava sapatos no único cinema da cidade — tornou-se o ídolo juvenil mais duradouro do pop italiano: ativo desde os anos sessenta até hoje, com décadas de sucessos, filmes, programas de televisão e uma presença pública que fez dele a figura mais querida e mais imorredoura da cultura popular italiana.

Rita Pavone — nascida em Turim em 1945 — foi a primeira ídola juvenil feminina do pop italiano: uma voz potente num corpo pequeno, uma energia cênica que rivalizava com a dos melhores rockers da época, canções como "Il Ballo del Mattone" e "Cuore" que definiram o som dos primeiros anos sessenta italianos.

O som que viajou para a América Latina

Nenhum outro país da Europa exportou sua música popular para a América Latina com a intensidade com que a Itália o fez nos anos sessenta e setenta. A razão é geográfica e humana ao mesmo tempo: os milhões de emigrantes italianos na Argentina, no Brasil, no Uruguai e na Venezuela haviam criado audiências naturais para a música de sua terra de origem, e essas audiências compravam discos, pediam músicas nas rádios e levavam a música italiana a seus filhos e vizinhos.

Assim, "Azzurro" de Celentano, "Felicità" de Al Bano e Romina, as canções de Battisti e Mogol, os grandes sucessos do Sanremo, tornaram-se tão familiares em Buenos Aires ou em Montevidéu quanto em Milão ou em Roma. A canção italiana dos anos sessenta e setenta faz parte do patrimônio musical da América Latina tanto quanto do patrimônio musical da Itália — e na Argentina em particular, onde a herança italiana é tão profunda que o tango e o rock nacional carregam suas marcas, essa presença é quase constitutiva.

Nota editorial: Mina recusou Fellini, recusou Coppola, recusou o cinema, recusou as entrevistas, recusou os palcos. E mesmo assim é a maior cantora italiana do século XX, a que tem a discografia mais longa, a que foi mais vezes citada por outros músicos como referência definitiva. Há algo nessa escolha — decidir que a música importa e o espetáculo não, que a voz importa e a imagem não — que é ao mesmo tempo uma declaração artística e uma declaração pessoal. A maioria dos artistas precisa ser vista para existir. Mina decidiu que existia mesmo que ninguém a visse. E tinha razão.

10 · 2 en DoReSol

Top 10 Músicas da Época de Ouro do Pop Italiano

#CanciónArtista
01

Azzurro

Adriano Celentano

1968

Pendiente
02

La Canzone del Sole

Lucio Battisti

1971

Pendiente
03

Il Ragazzo della Via Gluck

Adriano Celentano

1966

Pendiente
04

Grande, Grande, Grande

Mina

1972

Pendiente
05

Emozioni

Lucio Battisti · 1970

1970

Álbum
06

Mi ritorni in mente

Lucio Battisti · 1970

1969

Canción3:42
07

Parole Parole

Mina e Alberto Lupo

1972

Pendiente
08

Felicità

Al Bano e Romina Power

1982

Pendiente
09

I Giardini di Marzo

Lucio Battisti

1972

Pendiente
10

Il Cielo in una Stanza

Mina

1960

Pendiente
Abrir en Lyric Video · 1 canción
Compartilhar

A série completa

Itália

Ópera, canção napolitana, cantautores e a nova cena. Dez séculos de canção.

Capítulo 4 de 8 5 de 8 publicados
  1. CAP 01

    🇮🇹 Cap 01

    La Canzone Napoletana: O Som que Nápoles Presenteou ao Mundo (séculos XIII–1950)

    Antes de a Itália existir como nação — antes de Garibaldi unificar a

    10 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇮🇹 Cap 02

    A Ópera: O Teatro Musical que a Itália Inventou e o Mundo Adotou (1600–presente)

    Em 1597, em Florença, um grupo de intelectuais e músicos que se chamavam a si mesmos de Camerata Fiorentina estreou uma composição chamada Dafne — a primeira obra que combinava tex

    10 min 27/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇮🇹 Cap 03

    O Festival de Sanremo: A Máquina que Transformou a Canção Italiana em Fenômeno de Massas (1951–presente)

    A cidade de Sanremo fica na Ligúria, na Riviera italiana, a vinte e cinco quilômetros da fronteira com a França. É uma cidade pequena, de cerca de cinquenta mil habitantes, conheci

    10 min 27/05/2026 Ler

  4. CAP 04 você está aqui

    🇮🇹 Cap 04

    A Década de Ouro do Pop: Celentano, Mina e o Som que a Itália Exportou para o Mundo (1958–1980)

    Entre 1958 e 1963, a Itália viveu o período de crescimento econômico mais rápido de sua história: o miracolo economico — o milagre econômico — que transformou em menos de uma geraç

    11 min 27/05/2026 você está aqui

  5. CAP 05

    🇮🇹 Cap 05

    Os Cantautori: Quando a Canção Italiana se Tornou Literatura (1960–presente)

    Na França existia a *chanson* — Brassens, Brel, Piaf — e na América existia o folk de Bob Dylan e Joan Baez. A Itália olhou para ambas as tradições, as absorveu e produziu algo dif

    11 min 27/05/2026 Ler

  6. CAP 06 Em breve

    🇮🇹 Cap 06

    Las Bandas Sonoras: El Sonido que Italia le Puso al Cine del Mundo (1950–2020)

    Hay una pregunta que los amantes de la música de cine se hacen a veces y que no tiene respuesta fácil: ¿por qué Italia produjo los dos compositores de bandas sonoras más importante

    próximo

  7. CAP 07 Em breve

    🇮🇹 Cap 07

    El Pop Internacional: Bocelli, Pausini, Ramazzotti y la Italia que Conquistó el Mundo (1984–presente)

    Hubo tres momentos en la historia del siglo XX en que la música italiana conquistó audiencias globales masivas. El primero fue la canzone napoletana llevada por los emigrantes y po

    próximo

  8. CAP 08 Em breve

    🇮🇹 Cap 08

    El Siglo XXI: El Rock Romano, el Trap Napolitano y la Italia Musical que Sigue Inventándose (2000–presente)

    El siglo XXI encontró a Italia en una posición que no había ocupado en décadas: siendo simultáneamente guardiana de una tradición musical de quinientos años y laboratorio de género

    próximo

Você também pode gostar

3 artigos escolhidos por similaridade editorial

Link copiado para a área de transferência ✓