🇮🇹 IT · Itália · Capítulo 2 de 8

A Ópera: O Teatro Musical que a Itália Inventou e o Mundo Adotou (1600–presente)

Em 1597, em Florença, um grupo de intelectuais e músicos que se chamavam a si mesmos de Camerata Fiorentina estreou uma composição chamada Dafne — a primeira obra que combinava texto dramático com música contínua cantada em uma história que se desenrolava no tempo como uma peça de teatro. Eles a tinham inventado querendo recuperar o teatro grego antigo, que segundo eles tinha música que acompanhava as palavras. O que criaram, sem pretender totalmente, foi algo completamente novo: a ópera.

10 min de leitura publicado 27/05/2026 104 leituras por DoReSol
A Ópera: O Teatro Musical que a Itália Inventou e o Mundo Adotou (1600–presente)

A Itália já produzia música religiosa e profana de alta qualidade há séculos, com escolas de composição que irradiavam de Veneza, Roma, Nápoles e Florença. Mas a ópera foi outra coisa: um teatro total onde a música não acompanhava a narrativa, mas era a narrativa, onde as emoções mais extremas encontravam na voz humana — treinada até os limites do possível — sua expressão mais direta e mais poderosa.

Nos quatro séculos que se seguiram, a Itália aperfeiçoou essa invenção até transformá-la na forma de arte musical mais influente da civilização ocidental. Os grandes compositores de ópera do século XIX e do início do século XX — Rossini, Bellini, Donizetti, Verdi, Puccini — são figuras cuja influência se estende além da música clássica para alcançar o cinema, o teatro musical e a cultura popular de todo o mundo.

O bel canto: a voz como instrumento supremo

O primeiro grande período da ópera italiana — que vai do início do século XIX até meados do mesmo — é definido pelo conceito do bel canto: o "belo canto", a técnica vocal que coloca a beleza do som acima de tudo, exigindo do cantor agilidade, pureza de timbre, controle perfeito do fiato e a capacidade de ornar a melodia com trinados e floreios que demonstram o domínio absoluto da voz.

O mestre do bel canto foi Gioachino Rossini (1792–1868) — nascido em Pesaro, morto em Paris, tendo vivido em toda parte. Rossini escreveu trinta e nove óperas em menos de vinte anos, com uma velocidade que seus contemporâneos achavam ao mesmo tempo assombrosa e suspeita. Il Barbiere di Siviglia (1816) — "O Barbeiro de Sevilha" — é sua obra-prima cômica: duas horas de intrigas amorosas, disfarces, árias impossíveis e a energia imparável de quem escreve música porque não consegue fazer outra coisa. Sua abertura — uma das mais reconhecidas da história — começa com calma e acelera até se tornar uma corrida que o ouvinte não consegue resistir.

Rossini se aposentou aos trinta e sete anos — quando sua fama era total e seu gênio estava no auge — e nunca explicou completamente por quê. Viveu mais quarenta anos sem escrever óperas, cozinhando, recebendo visitas, sendo o homem mais famoso da Europa. É o único músico na história que escolheu o silêncio no cume.

Vincenzo Bellini (1801–1835) foi o oposto de Rossini em temperamento: trabalhava devagar, com uma meticulosidade dolorosa, e morreu aos trinta e três anos deixando dez óperas que incluem alguns dos momentos mais sublimemente belos de toda a tradição operística. Norma (1831) — com a ária "Casta Diva" — é para muitos a obra máxima do bel canto: uma melodia que sobe com tal inevitabilidade que parece que sempre existiu e o compositor apenas precisou descobri-la. Chopin quis que tocassem Norma em seu funeral.

Gaetano Donizetti (1797–1848) foi o mais prolífico dos três: setenta óperas, várias das quais são pilares permanentes do repertório. Lucia di Lammermoor (1835) elevou a ária da loucura a uma forma de arte própria: a soprano que mergulha na demência após a traição e o assassinato, cantando com uma voz que se fragmenta e se dobra sobre si mesma com a mesma arquitetura da mente que se rompe. L'elisir d'amore (1832) foi seu polo oposto: comédia leve, com "Una furtiva lagrima" — a ária do amor que não ousa se declarar — como uma das melodias mais perfeitas do repertório.

Verdi: a ópera como nação

Giuseppe Verdi nasceu a 10 de outubro de 1813 em Roncole, perto de Parma, numa família humilde. Seu pai era taverneiro. Estudou música em Busseto e depois tentou ingressar no Conservatório de Milão: foi rejeitado. Essa recusa o marcou para sempre — o compositor mais importante da Itália do século XIX não podia estudar no Conservatório da Itália.

Começou bem, com algumas óperas que tiveram sucesso moderado. Depois veio a tragédia: sua esposa e seus dois filhos morreram no espaço de dois anos. Verdi, arrasado, prometeu não voltar a escrever óperas. O diretor da La Scala, Bartolomeo Merelli, literalmente colocou o libreto de Nabucco em suas mãos.

Nabucco (1842) foi o momento em que a carreira de Verdi realmente começou — e também o momento em que a ópera italiana se tornou política. A história do rei babilônico e dos escravos hebreus em cativeiro ressoou de imediato junto ao público do norte da Itália, que vivia sob ocupação austríaca. O "Va, pensiero, sull'ali dorate" — o coro dos escravos que imploram para voltar à sua terra, com o pensiero voando "em asas douradas" — tornou-se o hino do movimento de unificação italiana, o Risorgimento.

Os austríacos viam surgir nos muros das cidades a inscrição "VIVA VERDI" e pensavam que era uma homenagem ao compositor. Era também um acrônimo político: Vittorio Emanuele Re D'Italia — o candidato ao trono de uma Itália unificada. Verdi, que não se considerava político, havia escrito sem o pretender o grito de guerra de um movimento de libertação nacional.

A trilogia de seus anos de maior potência compositiva — Rigoletto (1851), Il Trovatore (1853), La Traviata (1853) — representou o salto definitivo em direção à maturidade dramática. Rigoletto — a história do bufão que tenta proteger sua filha e fracassa de maneira devastadora — trouxe-lhe problemas com a censura austríaca, que não tolerava que um rei fosse retratado como um libertino assassino. Verdi mudou o cenário: o rei tornou-se duque, o Duque de Mântua, cuja "La donna è mobile" — a canção do mulherengo que diz que as mulheres são volúveis — tornou-se uma das melodias mais reconhecíveis de toda a ópera.

La Traviata — baseada em A Dama das Camélias de Alexandre Dumas filho — escandalizou o público da estreia em Veneza: uma cortesã como protagonista romântica, uma história de amor destruída pelos convencionalismos sociais. Hoje é uma das óperas mais encenadas do mundo.

Aida (1871) foi a encomenda de sua vida: o Quediva do Egito pediu-lhe uma ópera para a inauguração do Teatro de Ópera do Cairo — embora na realidade tenha estreado lá depois, quando o teatro abriu com Rigoletto. A Grande Marcha de Aida tornou-se o emblema do espetáculo operístico monumental: elefantes, escravos, trompetes de fama instantânea, a emoção do poder visual a serviço da música.

Verdi morreu em 27 de janeiro de 1901, em Milão. Ele havia pedido que o funeral fosse realizado em silêncio. Mas quando seu cortejo passou pelas ruas de Milão, as pessoas que lotavam as calçadas começaram a cantar espontaneamente "Va, pensiero." A polícia não conseguia deter cem mil pessoas cantando em voz baixa o coro dos escravos.

Puccini: o compositor do povo

Se Verdi foi o compositor da nação italiana, Giacomo Puccini (1858–1924) foi o compositor do povo do mundo inteiro. Nascido em Lucca, na Toscana, numa família com cinco gerações de músicos, Puccini herdou a tradição, mas a conduziu para um território completamente novo: o verismo, o realismo emocional, a ópera que não fala de reis e escravos, mas de pessoas comuns que vivem, amam e morrem no mundo contemporâneo.

Numa década extraordinária que vai de 1893 a 1904, Puccini escreveu quatro óperas que, por si só, seriam suficientes para consolidar a reputação de qualquer compositor: Manon Lescaut, La Bohème, Tosca e Madama Butterfly.

La Bohème (1896) — estreada em Turim sob a batuta de Arturo Toscanini, que tinha vinte e nove anos — conta a história de um grupo de jovens artistas pobres em Paris e o amor entre o poeta Rodolfo e Mimì, que morre de tuberculose. É a ópera mais encenada do mundo por razões que vão além da música: fala da juventude, da pobreza sem dramatismo, do amor que chega quando não se tem nada, da morte que chega quando se começa a ter tudo. George Bernard Shaw escreveu sobre Puccini: "Parece mais o herdeiro de Verdi do que qualquer um dos seus rivais."

Tosca (1900) é a ópera mais violenta do repertório padrão: assassinato, tortura, chantagem, dupla traição, salto no vazio das muralhas do Castelo Sant'Angelo. A soprano Tosca é a personagem mais dramática da ópera italiana: uma mulher que mata para proteger o homem que ama e que descobre tarde demais ter sido traída pela mesma pessoa que queria salvar.

Madama Butterfly (1904) — a história de Cio-Cio-San, a jovem japonesa que espera durante anos pelo oficial americano que a abandonou e que a destrói quando regressa com a sua esposa americana — foi um fracasso estrondoso na sua estreia na La Scala. Puccini reviu-a e reapresentou-a três meses depois em Brescia: foi um triunfo absoluto. A distância entre o fracasso e o sucesso da mesma obra foi de oitenta e nove dias.

A sua obra final, Turandot, ficou inacabada quando Puccini morreu de cancro na garganta em Bruxelas a 29 de novembro de 1924, aos sessenta e cinco anos. O seu discípulo Alfredo Catalani completou-a e foi estreada na La Scala em 1926 por Toscanini, que no momento em que a música de Puccini terminava e a de Catalani começava, parou a orquestra, virou-se para o público e disse: "Aqui o Maestro pousou a sua pena." A ária "Nessun Dorma" de Turandot — "Nessun dorma, nessun dorma" — tornou-se, quando Luciano Pavarotti a cantou na cerimônia de abertura do Mundial de Futebol Itália 90 perante milhões de espectadores em todo o mundo, a ária de ópera mais famosa do século XX.

La Scala: o templo

Nenhuma história da ópera italiana está completa sem o Teatro alla Scala de Milão, fundado em 1778, que foi durante dois séculos o palco mais importante do mundo operístico e que hoje continua sendo o medidor por excelência do prestígio de um cantor ou de um regente.

Verdi estreou ali algumas de suas óperas. Toscanini o dirigiu durante anos e o transformou em sinônimo de excelência absoluta. Maria Callas — a soprano greco-americana cuja carreira nos anos cinquenta redefiniu o que uma cantora de ópera podia fazer com uma voz e com um papel — realizou ali algumas de suas atuações mais lendárias. O nome "La Scala" no mundo da ópera tem a mesma ressonância que "o Louvre" no mundo da arte ou "o MoMA" no mundo da arte contemporânea.

O legado: quatro séculos de influência

A ópera italiana inventou o conceito da "estrela" — o artista cuja presença no cartaz vende os ingressos independentemente do título — séculos antes de Hollywood aperfeiçoá-lo. Inventou o conceito da "ária" — a peça autônoma dentro de uma obra maior que pode existir por si só fora do contexto — que o pop e o musical adotaram sem saber. Inventou a ideia de que a emoção humana pode e deve ser exagerada na música porque o exagero é a verdade da arte e não a sua falsificação.

Essa herança é direta: sem Verdi não há Richard Wagner. Sem Puccini não há Andrew Lloyd Webber. Sem o bel canto não há o conceito de "the voice" que define o pop do século XX de Frank Sinatra a Mariah Carey. A ópera italiana é a mãe de quase tudo o que o século XX considerou música popular séria.

Nota editorial: Quando Verdi morreu em 1901, havia pedido um enterro silencioso. No primeiro cortejo, as pessoas nas calçadas começaram a cantarolar "Va, pensiero" sem nenhum acordo prévio, sem que ninguém o organizasse, porque aquela canção era de todos. Trinta dias depois ele foi definitivamente transferido para seu túmulo na Casa de Repouso para Músicos que ele mesmo havia fundado em Milão para músicos idosos sem meios de subsistência. Nessa segunda transferência, duzentas mil pessoas acompanharam o cortejo pelas ruas de Milão cantando "Va, pensiero." Não havia ninguém regendo. A cidade simplesmente sabia a canção.

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Top 10 das Óperas Italianas

#CanciónArtista
01

La Bohème

Puccini

1896

Pendiente
02

Rigoletto

Verdi

1851

Pendiente
03

La Traviata

Verdi

1853

Pendiente
04

Tosca

Puccini

1900

Pendiente
05

Nabucco

Verdi

1842

Pendiente
06

Madama Butterfly

Puccini

1904

Pendiente
07

Il Barbiere di Siviglia

Rossini

1816

Pendiente
08

Norma

Bellini

1831

Pendiente
09

Turandot

Puccini

1926

Pendiente
10

Lucia di Lammermoor

Donizetti

1835

Pendiente
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