🇬🇧 GB · Inglaterra · Capítulo 6 de 8
Britpop e Rave: Cool Britannia e a Noite que Nunca Terminou (1988–2000)
No início dos anos noventa, a música popular anglo-saxônica era dominada pelo grunge de Seattle: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden — música sombria, pesada, americana, que olhava para dentro com um desespero que o público global considerava autêntico. Na Inglaterra, uma geração de jovens músicos a ouviu e decidiu que não era a sua praia.
"Se o punk foi para acabar com os hippies, então eu estou acabando com o grunge", declarou Damon Albarn à NME enquanto o Blur apresentava seu álbum Modern Life Is Rubbish. Ele e seus contemporâneos queriam algo mais brilhante e mais pop, que refletisse a cultura britânica.
O que produziram foi o Britpop: um subgênero do rock alternativo nascido no início dos anos 90, liderado por bandas como Oasis, Blur, Suede e Elastica, que se inspirou nas bandas da Invasão Britânica dos anos sessenta — The Kinks, The Who — e nos artistas de glam e punk dos anos setenta.
O Britpop foi também o momento em que a música popular inglesa se tornou um projeto político: a Cool Britannia — a marca cultural com a qual o governo de Tony Blair tentou identificar o novo otimismo da nação — adotou Oasis e Blur como seus símbolos, com resultados que os próprios artistas consideraram desconfortáveis.
Oasis: Os Irmãos que Conquistaram o Mundo
Noel Gallagher e Liam Gallagher cresceram em Burnage, um bairro operário de Manchester. Noel era o compositor e guitarrista, Liam o vocalista. A tensão entre os dois irmãos — constante, explosiva, frequentemente violenta — foi ao mesmo tempo o combustível que tornava o Oasis grandioso e o mecanismo que eventualmente os destruiria.
Definitely Maybe (1994) — o álbum de estreia — foi o disco de estreia que mais rapidamente vendeu na história do Reino Unido até então: a declaração de que o rock poderia voltar a ser grandioso, direto e sem complexos. "Live Forever", "Rock 'n' Roll Star", "Supersonic": canções que prometiam que a vida poderia ser exatamente o que se quisesse que ela fosse, com a convicção de quem acredita nisso plenamente.
(What's the Story) Morning Glory? (1995) foi o passo seguinte e o maior: "Wonderwall", "Don't Look Back in Anger", "Champagne Supernova" — canções que chegaram ao mundo inteiro simultaneamente, cantadas nos estádios com a participação massiva que só os hinos produzem, que trinta anos depois continuam a tocar nas rádios com a mesma naturalidade com que tocaram então.
Os concertos do Oasis em Knebworth em agosto de 1996 — duas noites, duzentas e cinquenta mil pessoas, o maior concerto da história da Grã-Bretanha até então — foram o pico do Britpop como fenômeno cultural: o momento em que parecia que uma banda de Manchester havia ocupado o lugar que os Beatles deixaram vazio vinte e seis anos antes. A rivalidade entre Blur e Oasis, em números, declarou a banda de Manchester como a grande vencedora quando o grupo londrino teve a sua primeira separação em 2003.
O Oasis se dissolveu em agosto de 2009 quando Noel abandonou o grupo minutos antes de um concerto em Paris — sem outra explicação senão a de que já não conseguia continuar trabalhando com seu irmão. Quinze anos depois, em 2024, anunciaram a reunião para a digressão de 2025 — que esgotou os ingressos em minutos e movimentou milhões de pessoas em todo o mundo, demonstrando que o Britpop, como nostalgia, continua sendo tão poderoso quanto quando era presente.
Blur: Os Mais Inteligentes da Sala
Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree eram o Blur — a banda londrina que representava o polo oposto do Oasis no Britpop: onde os Gallagher eram diretos e sem ironia, o Blur era intelectual e pop art; onde o Oasis olhava para os Beatles, o Blur olhava para os Kinks e Syd Barrett.
Parklife (1994) — quatro prémios Brit Awards numa única noite, o maior sucesso da história do prémio — foi a sua declaração: o pop inglês como crónica social da vida quotidiana britânica, com humor, com melancolia e com uma produção que misturava a guitarra indie com os arranjos de cordas e o cabaré.
A "Batalha do Britpop" de agosto de 1995 — quando o Blur e o Oasis lançaram os seus novos singles no mesmo dia, naquilo que foi considerado a primeira grande batalha de paradas desde os Beatles contra os Stones nos anos sessenta — foi o momento mais mediático do movimento: o Blur ganhou a batalha das paradas com "Country House", mas o Oasis ganhou a guerra com Morning Glory.
Albarn reinventou-se após o Britpop com os Gorillaz — a banda virtual que fundou em 1998 com o ilustrador Jamie Hewlett — e construiu uma das carreiras mais criativas da música inglesa do século XXI.
Pulp: O Poeta do Britpop
Jarvis Cocker e Pulp foram a terceira grande força do Britpop — mas a mais especificamente literária e a mais incômoda. Cocker vinha de Sheffield, havia passado quinze anos gravando sem sucesso comercial, e quando o Britpop chegou já estava na casa dos trinta anos com uma visão de mundo complexa demais para se encaixar completamente no otimismo do movimento.
Different Class (1995) — com "Common People" como sua canção central — foi o álbum mais inteligente do Britpop: a descrição da vida da classe trabalhadora inglesa por dentro, com a raiva de quem conhece exatamente a diferença entre querer ser pobre por estética e sê-lo por necessidade.
"Common People" — a história de uma garota grega rica que quer viver como a gente comum, narrada por alguém que de fato é gente comum e sabe exatamente o que isso significa — é a canção politicamente mais afiada do Britpop e uma das melhores canções pop inglesas dos anos noventa.
Cocker ficou internacionalmente famoso em fevereiro de 1996 quando subiu ao palco do Brit Awards durante a apresentação de Michael Jackson — que havia se apresentado com uma cenografia messiânica — e começou a fazer gestos de deboche atrás do artista. Foi detido pela segurança, temporariamente acusado de agredir crianças que faziam parte da apresentação (acusação que foi rapidamente retirada), e transformado em herói nacional pelas mesmas pessoas que adoravam Jackson.
A Cena Rave: A Outra Inglaterra dos Anos Noventa
Enquanto o Britpop dominava as capas da NME, outra Inglaterra vivia a sua própria revolução musical em espaços completamente diferentes: os armazéns abandonados das cidades industriais do norte, os campos abertos nas periferias das cidades, as discotecas de Ibiza.
O rave — a festa ilegal ou semilegal que reunia milhares de pessoas para dançar música eletrónica — tinha nascido em Manchester e em Londres no final dos anos oitenta com o Second Summer of Love de 1988: o verão em que o ecstasy chegou à Inglaterra ao mesmo tempo que o house de Chicago e o techno de Detroit, e em que milhares de jovens descobriram que podiam dançar juntos a noite toda sem as divisões de classe e raça que dividiam o resto das suas vidas.
The Stone Roses — com a sua mistura de guitarra indie e ritmos de dança — e The Happy Mondays — com o carisma descontrolado de Shaun Ryder e a sua mistura de rock e funk de dança — foram os artistas que a imprensa chamou de Madchester: a cena de Manchester que precedeu o Britpop e que o tornou possível ao demonstrar que o rock podia ser dançado sem vergonha.
A editora Factory Records de Tony Wilson — a mesma que havia lançado os Joy Division — produziu essa cena com a mesma visão com que havia produzido o pós-punk: confiando em artistas que mais ninguém teria contratado, com contratos que davam o controlo criativo total ao artista, perdendo dinheiro com a mesma elegância com que o ganhava.
O clube The Haçienda — financiado pelos New Order com os royalties de "Blue Monday" — foi o espaço físico onde o acid house e o rave chegaram a Manchester: uma sala de concertos convertida em discoteca de dança eletrónica que durante dez anos foi o lugar mais importante da música de dança na Europa.
Radiohead: Além do Britpop
Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Phil SelwayRadiohead — recusaram-se sistematicamente a ser classificados dentro do Britpop, embora cronologicamente fizessem parte dessa geração.
The Bends (1995) e OK Computer (1997) — o segundo eleito repetidamente como o melhor álbum dos anos noventa em pesquisas da crítica — foram a sua alternativa: um rock que olhava para a ansiedade da modernidade tecnológica, para o isolamento do indivíduo na sociedade da informação, com uma complexidade musical e lírica que o Britpop não tinha nem queria ter.
"Paranoid Android" — seis minutos de mudanças de tempo e de humor que iam do sussurro ao apocalipse — foi a sua declaração de independência do Britpop: a prova de que o rock inglês podia ser contemporâneo sem precisar da Union Jack nem da nostalgia dos anos sessenta.
Kid A (2000) — em que o Radiohead abandonou completamente a guitarra pela electrónica experimental — foi o ponto de chegada: o grupo de rock inglês mais importante dos anos noventa declarando que o rock havia terminado e que o que viria a seguir era outra coisa.
Nota editorial: A "Batalha do Britpop" de agosto de 1995 — Oasis contra Blur, lançando os seus singles no mesmo dia — foi em grande medida uma construção da imprensa musical inglesa, que os próprios artistas alimentaram com declarações cada vez mais hostis. O que a imprensa apresentou como uma guerra ideológica entre o norte operário (Oasis) e o sul intelectual (Blur) era também — e talvez principalmente — um exercício de marketing extraordinariamente eficaz que beneficiou ambas as bandas. Damon Albarn reconheceu-o décadas depois: "Acho que podemos dizer oficialmente que o Oasis ganhou a batalha, a guerra, a campanha, tudo." O que ninguém menciona é que o Blur vendeu mais discos nos anos seguintes. E que os Gorillaz — a banda pós-Britpop de Albarn — tiveram mais sucesso comercial global do que qualquer projeto a solo dos Gallagher. As guerras do pop raramente têm vencedores claros. Têm narrativas que a memória simplifica.
10 · 3 en DoReSol
Top 10 do Britpop e do Rave Britânico

Wonderwall
Oasis · 1995
A música mais tocada no violão na história do pop britânico. O Britpop na sua versão mais acessível e universal. Trinta anos depois, ainda é a música que qualquer pessoa com três acordes tenta tocar.
Common People
Pulp · 1995
A música mais inteligente do Britpop. A classe social como experiência vivida e não como postura estética. Jarvis Cocker dizendo à Inglaterra da Cool Britannia exatamente o que ela não queria ouvir.
OK Computer (álbum)
Radiohead · 1997
O melhor álbum dos anos noventa segundo a maioria das listas da crítica. A ansiedade da modernidade tecnológica no rock. Radiohead sendo o contrapeso intelectual do Britpop dentro da mesma geração.
Don't Look Back in Anger
Oasis · 1995
O hino. A canção que duzentas e cinquenta mil pessoas cantaram em Knebworth em 1996. A promessa de que o passado pode ser deixado para trás com a mesma convicção com que se abraça o presente.
Parklife (álbum)
Blur · 1994
Quatro Brit Awards numa única noite. A crónica social do quotidiano britânico em forma de pop. Damon Albarn sendo o Kinks dos anos noventa sem querer sê-lo completamente.
I Am the Resurrection
The Stone Roses · 1989
O Madchester antes do Britpop. A guitarra indie e o groove dançante na mesma canção. A semente de tudo o que a cena de Manchester produziria nos anos seguintes.

Blue Monday
New Order · 1983
O single em formato de doze polegadas mais vendido da história. Os Joy Division transformados em New Order, encontrando na música eletrónica de dança o idioma que os sobrevivia. A ponte entre o pós-punk e o rave.
Definitely Maybe (álbum)
Oasis · 1994
O álbum de estreia que vendeu mais rapidamente na história do Reino Unido. A promessa de que o rock poderia voltar a ser grandioso. Os irmãos Gallagher antes de a grandiosidade se tornar um problema.

Creep
Radiohead · 1992
A música que o Radiohead passou anos renegando por ter se tornado popular demais. O hino do outsider que conectou com uma geração que não se encaixava no otimismo do Britpop.
Different Class (álbum)
Pulp · 1995
O álbum mais literário do Britpop. Jarvis Cocker construindo um mundo de personagens da classe trabalhadora com a precisão de um romancista. O Britpop visto de baixo em vez de cima.
A série completa
Inglaterra
British invasion, glam, punk, britpop, eletrônica. Uma ilha que exporta som.
-
CAP 01
🇬🇧 Cap 01
As Raízes: A Ilha que Cantou antes de Saber que Cantava (séculos XIII–1950)
Antes dos Beatles, antes do punk, antes que o mundo soubesse que havia algo
-
CAP 02
🇬🇧 Cap 02
O Skiffle e o Beat: O Fogo que Acendeu os Beatles (1954–1963)
Em 1955, a guitarra elétrica era um instrumento caro, difícil de conseguir e associado aos músicos profissionais. Para um adolescente inglês da classe trabalhadora em Birmingham, L
-
CAP 03
🇬🇧 Cap 03
A Invasão Britânica: Quando Liverpool e Londres Mudaram o Mundo (1963–1970)
No início de 1964, o rock and roll americano estava em crise. Elvis Presley tinha partido para o serviço militar, Chuck Berry tinha ido para a prisão, Little Richard tinha se torna
-
CAP 04
🇬🇧 Cap 04
O Glam e o Prog: O Rock que se Vestiu de Teatro (1970–1979)
Os anos sessenta tinham terminado com um gosto amargo: Altamont, a morte de Jimi Hendrix e Janis Joplin, a dissolução dos Beatles, o fim do otimismo hippie. O rock de 1970 buscava
-
CAP 05
🇬🇧 Cap 05
O Punk e o Pós-Punk: A Destruição Criativa (1976–1985)
O verão de 1976 na Inglaterra foi o mais quente do século XX até aquele momento: semanas sem chuva, a grama amarela, o país em crise econômica com inflação de 25% e desemprego mass
-
CAP 06 você está aqui
🇬🇧 Cap 06
Britpop e Rave: Cool Britannia e a Noite que Nunca Terminou (1988–2000)
No início dos anos noventa, a música popular anglo-saxônica era dominada pelo grunge de Seattle: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden — música sombria, pesada, americana, que olhava par
-
CAP 07
🇬🇧 Cap 07
O Grime e a Nova Cena Urbana: Os Bairros do Leste de Londres que Mudaram a Música (2000–hoje)
Em 2001, um adolescente de dezesseis anos chamado **Dylan Mills** em Poplar, no leste de Londres, gravou seu primeiro single em um computador da escola. O resultado — "I Luv U" — c
-
CAP 08
🇬🇧 Cap 08
O Século XXI: A Ilha que Continuou Produzindo (2000–hoje)
Ser músico inglês no século XXI significa carregar uma herança que nenhum outro país possui: os Beatles, os Rolling Stones, David Bowie, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen, os Sex Pis
Você também pode gostar
3 artigos escolhidos por similaridade editorial