🇪🇸 ES · Espanha · Capítulo 3 de 7
A Movida Madrilena: A Noite que Durou Dez Anos (1979–1992)
Antes dos anos 80, os espanhóis passaram boa parte do século sob o regime do ditador Francisco Franco. Quarenta anos de ditadura conservadora haviam reprimido a sexualidade, a cultura, a dissidência política e a liberdade de expressão. Franco morreu em 20 de novembro de 1975, e a transição democrática que se seguiu foi lenta, negociada e às vezes dolorosa.
Mas a cultura não esperou pelos políticos. Antes que os partidos terminassem de acordar a Constituição de 1978, algo já estava acontecendo nos bares e porões do bairro de Malasaña em Madrid que nenhum decreto poderia ordenar e nenhuma repressão poderia deter: a explosão de uma geração que viveu sua adolescência sob a ditadura e sua juventude durante a transição, com quarenta anos de repressão acumulada que precisava ser liberada de uma só vez.
A Movida foi como um big bang estético, uma implosão coletiva de desejo, ousadia e atrevimento que emergiu após a longa noite do franquismo. Foi a adolescência extática de uma nação que acabava de recuperar o direito de sonhar em cores após a ditadura.
A Noite de 9 de Fevereiro de 1979
O concerto em homenagem a Canito — José Enrique Cano Leal, baterista da banda pop Tos, morto em um acidente de trânsito — ocorreu em 9 de fevereiro de 1979, e é frequentemente considerado o evento que consolidou a Movida Madrileña. Participaram Alaska y Los Pegamoides, Mamá, Nacha Pop, Mermelada. Foi no Colégio de Arquitetos de Madrid, diante de um público de iniciados que naquela noite sentiu que estava presenciando algo sem precedentes na Espanha.
Não era apenas um concerto: era o primeiro sinal de que a juventude espanhola não iria herdar a cultura de seus pais, mas iria inventar a sua própria, do zero, com os materiais que encontrasse disponíveis: o punk britânico, o glam de David Bowie, a new wave americana, o pop de ABBA, e acima de tudo isso a sensibilidade especificamente madrilenha — irônica, excessiva, noturna, sem medo do ridículo.
Alaska: a rainha da noite
Olvido Gara JovaAlaska — nasceu na Cidade do México em 1963 e chegou a Madri ainda criança. Quando tinha quinze anos, já estava no palco com Alaska y los Pegamoides, a banda que seria o epicentro sonoro da Movida em sua fase mais pura.
Alaska era tudo o que o franquismo havia proibido: maquiagem excessiva, cores impossíveis, androginia, humor negro, a rejeição de qualquer solenidade. Sua presença no palco era um manifesto em si mesma, antes que uma única nota soasse.
A música da Movida era ousada, fresca e frequentemente irreverente, fundindo gêneros como punk, pop e rock, enquanto abordava questões sociais e questionava as normas estabelecidas.
"A Quién Le Importa" — escrita por Alaska e composta por Nacho Canut e Carlos Berlanga, tornou-se o hino da diferença, da estranheza como orgulho, de quem vive segundo suas próprias regras sem pedir permissão. É também um dos hinos LGBTQ mais poderosos da história do pop em espanhol, embora nunca tenha precisado se declarar como tal.
Mecano: o pop perfeito dos Caminero
Nacho Caminero — e suas irmãs Ana e José María Caminero formaram o Mecano em Madrid em 1981. Eles eram tudo o que Alaska não era: acessíveis, melódicos, perfeitos para o rádio, capazes de criar canções pop com uma simplicidade tão calculada que parecia natural.
Seu catálogo — "Me Colé en una Fiesta", "No me pidas esta noche que no puede ser", "Maquillaje", "Cruz de Navajas", "Hijo de la Luna" — é o repertório da Movida em sua versão mais massiva: as canções que venderam milhões de cópias, que tocaram em todas as rádios, que décadas depois ainda são as que qualquer pessoa na Espanha de certa idade sabe de cor.
Ana Torroja — a voz do Mecano, com seu timbre inimitável entre o sussurro e a declaração — é uma das vozes mais reconhecíveis do pop em espanhol. "Hijo de la Luna"Ouvir — foi sua máxima ambição: uma história mítica contada em três minutos de pop com uma instrumentação de música de câmara que o pop espanhol nunca havia tentado antes.
Radio Futura: a evolução sofisticada
Se Alaska era o punk da Movida e Mecano era o pop, Radio Futura era o seu futuro. Santiago Auserón e seus companheiros começaram na Movida e a superaram: sua trajetória musical foi a mais exigente e a mais interessante de toda a geração, mudando da borda anglo-saxônica para o ritmo tropical sem perder o lirismo.
Radio Futura encarnou a evolução sofisticada da Movida, transcendendo suas origens punk e new wave para se tornarem alquimistas do pop mestiço.
"Escuela de Calor" — — foi seu hit mais dançante e sua declaração mais clara: a cidade no verão, o corpo que quer se mover, a liberdade recuperada com a urgência de quem sabe que chegou tarde. Radio Futura é considerado o melhor grupo espanhol da década de 80 por muitos críticos.
Pedro Almodóvar: o cinema como espelho
A Movida não foi apenas música: foi um fenômeno total que incluiu o cinema de Pedro Almodóvar, com sua estética camp e seu erotismo desinibido.
Pedro Almodóvar — um manchego que havia chegado a Madri nos anos sessenta para encontrar a Movida quando ela chegou — foi o artista que transformou o espírito daquele momento em obras de arte que o mundo podia ver. Seus primeiros filmes Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas do Montão (1980), Labirinto de Paixões (1982) — capturavam a energia dos bares de Malasaña com a mesma intensidade que os concertos de Alaska, mas em um formato que podia viajar para fora da Espanha.
Antes de se tornar diretor, Almodóvar formou uma dupla musical com McNamara e gravou canções como "Vou Ser Mamãe" — a irreverência da Movida em sua forma mais direta e cômica.
O cinema de Almodóvar e a música da Movida se alimentaram mutuamente durante toda uma década, até que o cineasta alcançou a maturidade artística que o levaria a ganhar o Oscar com Tudo Sobre Minha Mãe (1999).
O Fim da Movida: A Ressaca
No final dos anos 80, a Movida Madrileña foi perdendo força à medida que mudanças sociais e econômicas promoviam novas ideias. A comercialização — o mesmo processo que transformou Mecano em um fenômeno de massa — diluiu a energia de um movimento que havia nascido da marginalidade e da urgência.
Fatores como a comercialização e o cansaço do público contribuíram para a dissolução gradual do movimento. O tempo voou até 1986, quando os músicos e cantores que representavam essa era dourada alcançaram o sucesso comercial. Naquele momento, deixou de fazer sentido como fenômeno e se tornou uma marca comum.
As drogas — heroína principalmente — foram o preço que muitos protagonistas da Movida pagaram pela intensidade daqueles anos. Vidas interrompidas, carreiras interrompidas, o lado obscuro da festa que parecia não ter fim.
Mas seu legado permanece: a Movida estabeleceu uma base cultural que facilitou futuras explorações artísticas na Espanha e a partir dos anos 2000 voltou através de livros, documentários, reedições e filmes.
Nota editorial: A Movida Madrileña não teve um manifesto nem um líder. Como disse Almodóvar: "Não éramos uma geração; éramos um movimento artístico; não éramos um grupo com uma ideologia concreta. Éramos simplesmente um punhado de pessoas que coincidiram em um dos momentos mais explosivos do país." Essa falta de programa — a ausência de ideologia, de plano, de intenção de mudar o mundo — foi exatamente o que deu à Movida sua energia. Os movimentos que querem mudar o mundo costumam acabar traídos por suas próprias utopias. A Movida só queria viver. E durante dez anos, fez isso com uma intensidade que a Espanha não conhecia em quarenta anos de ditadura nem conheceria da mesma maneira depois.
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Top 10 da Movida Madrileña
Quem Se Importa
Alaska e Dinarama · 1986
O hino da diferença. A singularidade como orgulho. O mais poderoso hino LGBTQ do pop espanhol sem precisar se declarar como tal.
Filho da Lua
Mecano · 1986
A canção mais ambiciosa do pop espanhol dos anos 80. História mítica, instrumentação de câmara, a voz de Ana Torroja.
Escola de Calor
Radio Futura · 1984
A Movida mais dançante. A cidade de Madrid no verão transformada em ritmo.
Cruz de Navalhas
Mecano · 1986
A história de amor e crime mais cinematográfica do pop espanhol. Mecano em sua máxima ambição narrativa.
Movida en el Oasis
Alaska y los Pegamoides · 1982
O punk pop da Movida em sua forma mais direta. Alaska aos dezessete anos já sendo o que sempre seria.
El Canto del Loco
Radio Futura · 1980
O início. A canção que estabeleceu o vocabulário do Radio Futura antes que a Movida tivesse nome.
Me Colé en una Fiesta
Mecano · 1982
O primeiro grande sucesso de Mecano. O pop mais acessível da Movida em sua versão mais descontraída.
El Rey del Glam
Tino Casal · 1987
O David Bowie da Movida. Tino Casal levando o glam mais longe do que qualquer outro artista espanhol.
Chica de Ayer
Nacha Pop · 1980
A nostalgia da Movida antes de a Movida existir. A canção mais emotiva de um movimento que se proclamava sem sentimentalismos.
A Estátua do Jardim Botânico
Radio Futura · 1983
Radio Futura em seu momento mais poético. Santiago Auserón demonstrando que o rock espanhol também podia ser literatura.
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A série completa
Espanha
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CAP 01
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🇪🇸 Cap 03
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