🇪🇸 ES · Espanha · Capítulo 6 de 7
A Copla e o Cancioneiro: A Voz da Espanha Profunda (1920–1975)
O poeta Manuel Machado escreveu o que poderia ser o melhor epitáfio para a copla espanhola: "Até que o povo as cante, as coplas não são coplas, e quando o povo as canta, ninguém mais sabe quem é o autor." A copla existe nesse espaço: entre a autoria individual e a propriedade coletiva, entre a criação de um poeta e o patrimônio de um povo que a torna sua a ponto de esquecer que alguém a escreveu.
A copla espanhola — também chamada de canção espanhola, canção andaluza, tonadilla — é a forma de canção popular mais especificamente espanhola que existe. Derivada da copla poética, das tonadillas do século XVIII, dos couplets do século XIX e do flamenco, alcançou seu auge nos anos trinta, quarenta e cinquenta do século XX: a época mais sombria da história espanhola recente, os anos da Guerra Civil e do pós-guerra franquista.
Essa coincidência entre o momento de maior repressão política e o momento de maior esplendor da copla não é acidental: a copla foi durante esses anos a única forma de música popular que o regime franquista tolerava — e até promovia — como expressão de uma identidade nacional conservadora. E dentro desses limites, os melhores compositores e cantores de copla encontraram maneiras de dizer o que o regime não queria que fosse dito: o amor proibido, o corpo feminino como território de desejo, a solidão da mulher em uma sociedade que a confinava.
O Triângulo dos Compositores
O gênero floresceu nas décadas de 1930 e 1940, epitomizado pelos compositores Antonio Quintero, Rafael de León e Manuel Quiroga: o triângulo que escreveu a maioria das maiores coplas daquela época.
Rafael de León — sevilhano, aristocrata, homossexual em uma época em que a homossexualidade era ilegal, poeta de uma delicadeza e profundidade que colocavam a copla na mesma família que o flamenco mais puro — foi o letrista mais importante do gênero. Suas letras são obras de arte literária autônoma que sobrevivem perfeitamente na página sem precisar da música para serem belas.
A equação era perfeita: Quintero e Quiroga forneciam a estrutura dramática e a melodia, León fornecia a poesia, e as cantoras forneciam o corpo e a voz que faziam com que tudo isso chegasse ao coração de quem ouvia.
Concha Piquer: a Grande Senhora da Copla
María de la Concepción Piquer LópezConcha Piquer — nasceu em 13 de dezembro de 1906 em Valência, Espanha. Era conhecida como "A Grande Senhora da Copla." Aos quatorze anos, fez sua estreia no palco em Nova York e, mais tarde, apareceu ao lado de Eddie Cantor, Al Jolson, e Fred e Adele Astaire.
Ela voltou para a Espanha e construiu uma carreira que a tornou a figura mais importante da copla espanhola por três décadas. Sua voz — com um timbre inconfundível, capaz de expressar o drama que fazia com que as canções mais simples adquirissem uma profundidade emocional extraordinária — era o instrumento perfeito para as letras de León.
"Tatuaje" — é sua canção mais emblemática e uma das maiores de toda a música popular espanhola: a mulher que procura o marinheiro que tatuou seu nome na pele, perguntando por ele em cada porto, sabendo que não o encontrará. A tragédia do amor impossível em três minutos de música perfeita.
Lola Flores: o duende em corpo de mulher
Se Concha Piquer era a elegância, Lola FloresLa Faraona — era a energia transbordante, o excesso como forma artística, o flamenco e a copla e o bailarino e a atriz tudo ao mesmo tempo.
Nascida em Jerez de la Frontera em 1923, Lola Flores construiu uma carreira que excedia a copla e o flamenco para se tornar um personagem da cultura espanhola com uma dimensão que nenhuma análise musical pode capturar completamente. Era excesso como programa estético: o vestido mais chamativo, a voz mais poderosa, o gesto mais teatral. E dentro desse excesso, uma autenticidade que o público reconhecia como genuína porque vinha de alguém que não podia ser de outra maneira.
"La Faraona" foi a artista mais popular da Espanha durante décadas, e sua morte em 1995 produziu um luto que poucas figuras do espetáculo espanhol geraram antes ou depois.
Rocío Jurado: a última grande
A última grande figura da copla clássica foi Rocío Jurado — nascida em Chipiona, Cádiz, em 1944 — que construiu sua carreira quando o gênero já começava a ceder espaço ao pop e o manteve vivo com a força de sua voz e a convicção de sua interpretação.
Sua voz — um instrumento de uma potência e amplitude que poucos cantores de qualquer gênero igualaram na história da música espanhola — fazia com que canções que em outras vozes poderiam soar antiquadas soassem como feitas especificamente para aquele momento, para aquela noite, para aquele público.
Ela morreu em 2006, e sua morte fechou uma era: a da copla em sua forma clássica, o gênero que havia sobrevivido à ditadura e à transição e que chegou ao século XXI como algo que os jovens respeitavam, mas que já não praticavam.
Antonio Machín: o cubano que se tornou espanhol
Uma das figuras mais peculiares do cancioneiro espanhol do século XX não era espanhola, mas sim cubana.
Antonio Abad Lugo Machín nasceu em 11 de fevereiro de 1903 em Sagua la Grande, Cuba. Sua versão de "El Manisero", gravada em Nova York em 1930 com a orquestra de Don Azpiazú, foi o primeiro disco a vender um milhão de cópias para um artista cubano. Ele chegou à Espanha nos anos quarenta, fugindo do racismo que limitava sua carreira na América, e ficou para sempre.
Na Espanha, encontrou um público que o adotou como seu — ou mais do que isso: como o representante de uma ideia do bolero e da música cubana que o público espanhol sentia mais próxima do que qualquer outra música latino-americana. Machín morreu em Madri em 1977 e foi enterrado no cemitério de San Fernando em Sevilha, a cidade andaluza que sentia como sua. O cubano que deixou Cuba em busca da dignidade que seu país não lhe dava encontrou na Espanha uma segunda pátria musical.
O Couplet: O Antepassado Irreverente
Antes da copla, havia o couplet — o gênero de variedades do final do século XIX e início do XX que misturava a tonadilla espanhola com a canção francesa e que era, em seu auge, o gênero mais sexual e irreverente da música popular espanhola.
Raquel Meller — nascida em Tarazona, Zaragoza, em 1888 — foi a primeira grande figura do couplet e da copla, uma artista que se apresentou no Olympia de Paris, foi fotografada por Man Ray e representou a Espanha no Carnegie Hall de Nova York em 1926 diante de uma audiência que a aclamou como a maior artista espanhola viva.
O couplet foi o precedente que tornou a copla possível: a forma que demonstrou que a canção popular espanhola podia ser arte, que podia ter a mesma densidade emocional que o flamenco e a mesma acessibilidade que o cabaré. Sem o couplet, a copla não teria tido o vocabulário para dizer o que disse.
Nota Editorial: Durante os anos do franquismo, a copla foi a música que o regime tolerava como símbolo de uma identidade nacional conservadora. E dentro desses limites impostos pelo regime, os melhores compositores de copla — Rafael de León, um homossexual aristocrático em uma Espanha onde a homossexualidade era crime — encontraram maneiras de dizer o que não podia ser dito diretamente. O amor proibido, o desejo feminino, a solidão da mulher confinada — tudo isso estava nas letras da copla, disfarçado de drama e melodrama, mas perfeitamente legível para quem queria lê-lo. A copla foi simultaneamente o instrumento da ideologia franquista e a subversão dessa mesma ideologia. Essa ambiguidade — a arte que serve ao poder e ao mesmo tempo o derruba — é a marca da melhor música em condições de opressão.
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Top 10 da Copla e do Cancioneiro Espanhol
Tatuagem
Concha Piquer · 1941
A copla espanhola em sua forma mais perfeita. A mulher que procura o marinheiro em cada porto do mundo. Três minutos de drama absoluto.
Lola Flores (canção e artista)
Lola Flores · 1940s–1990s
La Faraona como personagem cultural total. O excesso como programa estético. A artista mais popular da Espanha durante meio século.
Como uma Onda
Rocío Jurado · 1980
A última grande da copla. Uma voz de uma potência que fazia o gênero soar como se nunca tivesse existido antes.
O Vendedor de Amendoim
Antonio Machín · 1930
O primeiro milhão de discos vendidos por um artista cubano. O bolero habanero na Espanha como uma canção adotada.
Viva España
Manolo Escobar · 1973
O hino mais involuntariamente irônico da Espanha tardofranquista. Manolo Escobar como o emblema de tudo o que a Movida queria destruir — e que, no entanto, sobreviveu.
No te Mires en el Río
Concha Piquer · 1944
A copla da vaidade e suas consequências. Rafael de León em sua versão mais moralizante e mais poética ao mesmo tempo.
Qué Sabe el Cuervo
Miguel de Molina · 1939
O cantor de copla mais perseguido do franquismo. Miguel de Molina exilado, sua voz proibida, sua arte imortal.
El Negro Zumbón
Raquel Meller · 1925
A grande dama do cuplé. A música espanhola chegando ao Carnegie Hall antes que alguém pensasse que poderia.
Adão e Eva
Sara Montiel · 1959
A atriz que virou cantora. Sara Montiel como a ponte entre a copla clássica e o bolero latino-americano.
Ay Pena, Penita, Pena
Lola Flores · 1952
A canção que melhor captura o espírito de Lola Flores. A tristeza andaluza transformada em dança, o drama transformado em festa.
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A série completa
Espanha
Flamenco, copla, movida madrilenha, rock espanhol. O cruzamento entre o cigano e o árabe.
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CAP 01
🇪🇸 Cap 01
As Raízes e o Flamenco: O Duende Nasceu Aqui (Séc. XV–1900)
Antes de a Espanha existir como nação, o território que hoje ocupa foi durante séculos o ponto de encontro — e de conflito — entre três grandes civilizações do mundo mediterrâneo:
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CAP 02
🇪🇸 Cap 02
A Revolução Flamenca: Camarón, Paco de Lucía e o Duende Elétrico (1960–1992)
Quando Paco de Lucía viu Camarón de la Isla pela primeira vez, ele tinha dezessete anos. Paco estava trabalhando em uma gravação em Madri. Camarón, então um jovem cantor de San Fer
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CAP 03
🇪🇸 Cap 03
A Movida Madrilena: A Noite que Durou Dez Anos (1979–1992)
Antes dos anos 80, os espanhóis passaram boa parte do século sob o regime do ditador Francisco Franco. Quarenta anos de ditadura conservadora haviam reprimido a sexualidade, a cult
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CAP 04
🇪🇸 Cap 04
Rock Espanhol: Héroes del Silencio e a Grande Anomalia (1985–2000)
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CAP 05
🇪🇸 Cap 05
Pop Espanhol e Alejandro Sanz: A Voz da América Latina (1990–hoje)
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🇪🇸 Cap 06
A Copla e o Cancioneiro: A Voz da Espanha Profunda (1920–1975)
O poeta Manuel Machado escreveu o que poderia ser o melhor epitáfio para a copla espanhola: "Até que o povo as cante, as coplas não são coplas, e quando o povo as canta, ninguém ma
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CAP 07
🇪🇸 Cap 07
A Canção de Autor: Serrat, a Nova Cançó e a Resistência Poética (1960–presente)
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