🇪🇸 ES · Espanha · Capítulo 4 de 7
Rock Espanhol: Héroes del Silencio e a Grande Anomalia (1985–2000)
Havia algo estranho nos Héroes del Silencio desde o início, algo que os tornava difíceis de localizar no mapa do rock espanhol. Eles não eram de Madri — vinham de Zaragoza, a capital de Aragão, uma cidade do interior da Espanha que não era conhecida por sua cena musical. Eles não eram herdeiros da Movida — chegaram quando a Movida já começava a se esgotar. Eles não soavam como nenhuma banda espanhola anterior.
E, no entanto, ou precisamente por isso, eles se tornaram a banda de rock em espanhol mais importante da segunda metade do século XX: a única capaz de encher estádios em toda a América Latina, a única que fez do rock espanhol um produto de exportação global, a grande anomalia da música popular espanhola.
Enrique Bunbury — voz e imagem — os descreveu assim: "Talvez a ideia do grupo que éramos não estivesse muito clara, mas éramos uma das grandes anomalias do rock." Ele disse isso com a atitude de quem aceitou que não se encaixar era sua maior força.
Zaragoza, 1984
No final de 1984, Héroes del Silencio foi oficialmente formado, composto por Juan Valdivia (guitarra), Enrique Bunbury (baixo e voz) e Pedro Valdivia (bateria). Com idades variando entre os 17 anos de Bunbury e os 19 de Juan. Todos haviam participado anteriormente em diferentes bandas, mas foi com Héroes del Silencio que entrariam para a história. Em 1985, Joaquín Cardiel no baixo e Pedro Andreu na bateria completaram a formação definitiva.
Seu sucesso começou ao chegar à fase final do Festival de Benidorm. Quatro anos depois, lançaram seu primeiro LP: El Mar No Cesa (1988), gravado nos estúdios Hispavox após assinarem com a EMI.
O Som dos Héroes: Gótico, Duro, Intransigente
O estilo musical de Héroes del Silencio era inconfundível: a guitarra de Juan Valdivia — cortante, com um som que misturava post-punk com rock gótico e hard rock — e a voz de Bunbury — com um registro dramático que podia ir do sussurro ao grito no espaço de um verso — produziam um som que era simultaneamente escuro e acessível, intransigente e massivo.
A produção do álbum Senderos de Traición (1990) ficou a cargo de Phil Manzanera, renomado músico e produtor britânico que anos antes havia feito parte do grupo Roxy Music. Essa colaboração com um produtor de nível internacional foi o sinal de que Héroes del Silencio havia decidido jogar nas mesmas ligas que as bandas que admiravam — The Cult, Bauhaus, Sisters of Mercy — sem concessões ao mercado local.
Senderos de Traición foi o disco que consolidou a popularidade da banda e se tornou um marco na cena do rock em espanhol. O som do álbum é mais elaborado e refinado em comparação com seu álbum de estreia, incorporando elementos de rock alternativo, post-punk e rock gótico.
O Espírito do Vinho: o Cume
Em 1993, com o argentino Alan Boguslavsky incorporado como segundo guitarrista, Héroes del Silencio lançou O Espírito do Vinho — o álbum que trinta anos depois ainda é considerado por muitos críticos como o melhor disco de pop/rock já feito na história da Espanha.
Um álbum duplo repleto de confiança: músicas longas, ambiciosas, que não pedem permissão para tomar o tempo que precisam. Nenhum corte decorativo, nenhuma concessão ao rádio. O Espírito do Vinho é o disco de uma banda que sabe exatamente o que está fazendo e que não tem medo das consequências.
O Espírito do Vinho consolidou ainda mais a carreira da banda e lhes permitiu alcançar um sucesso massivo tanto na Espanha quanto internacionalmente. 20.000 pessoas já haviam assistido ao seu concerto em La Romareda em outubro de 1991. Em 26 de outubro do mesmo ano, eles se apresentaram em Berlim, diante de oito mil pessoas, em um festival enquadrado em uma campanha oficial contra o racismo.
A Separação e Bunbury
Héroes del Silencio se separou em 1996, no auge de sua popularidade, sem que nenhuma causa externa explicasse completamente a decisão. Como os próprios integrantes disseram anos depois: "Não soubemos chegar a acordos."
Em 2007, para celebrar os 20 anos da formação da banda, organizaram uma turnê exclusiva de dez shows em diversas cidades do mundo. Seu último show ocorreu em 27 de outubro de 2007 em Valência, onde 80.000 pessoas ouviram parte de El Mar No Cesa, Senderos de Traición, El Espíritu del Vino e Avalancha. Desde então, não tocaram juntos novamente.
Enrique Bunbury construiu depois uma carreira solo com uma consistência e uma ambição artística que poucos artistas do rock em espanhol mantiveram por tantos anos: desde o primeiro álbum Radical Sonora (1997) até décadas de produções que misturam rock com bolero, flamenco, música caribenha e spoken word.
El Último de la Fila: a poesia rock catalã
Contemporâneos de Héroes, mas completamente diferentes, El Último de la FilaManolo García e Quimi Portet — representavam o rock espanhol em sua versão mais poética e mais próxima do cantor-compositor.
Sua mistura de rock, pop e músicas do mundo — com influências que iam do blues americano à música árabe e ao folclore catalão — produzia canções de uma densidade lírica que nenhuma outra banda de rock espanhol dos anos oitenta igualava. Manolo García é também uma das poucas vozes do rock espanhol que a crítica literária levou a sério como poeta.
"Como um burro amarrado à porta do baile" — — é a canção que melhor captura sua posição: a frustração de quem olha a festa de fora com desejo e ironia simultâneos.
Los Rodríguez: o rock e Buenos Aires em Madrid
Los Rodríguez — o argentino Andrés Calamaro e os espanhóis Ariel Rot, Julián Infante e Daniel Zamudio — foram a banda que demonstrou que o rock argentino e o rock espanhol podiam se misturar sem que nenhum perdesse sua identidade.
Calamaro levou a Madrid a sensibilidade do rock argentino — o desamor sem desculpas, a urgência emocional, a capacidade de misturar o rock com o bolero e a cumbia sem que nada soasse incongruente — e os músicos espanhóis deram-lhe o enraizamento mediterrâneo que precisava para funcionar na Europa.
Seus álbuns Buena Suerte (1992), Sin Documentos (1993), Palabras más, palabras menos (1995) — são o documento mais completo da fusão entre o rock argentino e o espanhol nos anos noventa, e também a explicação de por que Calamaro foi morar em Madrid e nunca se arrependeu totalmente.
Duncan Dhu e o Pop Basco
Do País Basco veio outra das bandas mais queridas do rock espanhol dos anos 80: Duncan DhuMikel Erentxun e Diego Vasallo — cujo pop melódico com influências new wave misturado com a sensibilidade especificamente basca produziu álbuns que o público espanhol do norte adotou com a mesma intensidade que o sul adotou Héroes del Silencio.
"En Algún Lugar" — — é sua canção mais perfeita: a busca pelo lugar onde tudo faz sentido, cantada com a melancolia de quem sabe que esse lugar existe mas não consegue encontrá-lo.
Nota editorial: Héroes del Silencio se separou em 1996, no auge de sua carreira. Em 2007, fizeram dez shows de reunião para 80.000 pessoas em Valência. E desde então, não tocaram juntos novamente. Essa separação — abrupta, inexplicada, mantida por décadas com uma coerência que nenhum contrato poderia ter garantido — também faz parte de sua lenda. As bandas que se separam no auge do sucesso constroem um mito que nenhuma turnê de reunião pode destruir completamente. Héroes del Silencio entenderam, conscientemente ou não, que a permanência do mito valia mais do que a continuação da banda. Isso também é uma decisão artística.
10 · 0 en DoReSol
Top 10 do Rock Espanhol dos anos 80 e 90
O Espírito do Vinho (álbum)
Héroes del Silencio · 1993
O melhor álbum de rock já feito na Espanha, segundo muitos críticos. Ambição total, sem concessões, perfeição sombria.
Nossos Nomes
Héroes del Silencio · 1993
O single de estreia de O Espírito do Vinho. A voz de Bunbury em seu momento mais épico.
A Ferida
Héroes del Silencio · 1993
A faixa mais longa e mais ambiciosa do álbum. O rock espanhol levado a dimensões que ninguém havia tentado antes.
Sem Documentos (álbum)
Los Rodríguez · 1993
O melhor álbum de Los Rodríguez. O cruzamento entre o rock argentino e o espanhol no seu ponto mais perfeito.
Apuesta por el Rock'n'Roll
Héroes del Silencio · 1993
O manifesto. A declaração de princípios do Héroes del Silencio em forma de hino.
Como un Burro Amarrado
El Último de la Fila · 1986
O rock espanhol mais poético. Manolo García como o único cantor de rock que merece ser lido em vez de apenas ouvido.
En Algún Lugar
Duncan Dhu · 1985
O pop basco na sua forma mais perfeita. A busca pelo lugar onde tudo faz sentido descrita com uma economia de palavras brutal.
Senderos de Traición (álbum)
Héroes del Silencio · 1990
O álbum que os consolidou na Espanha e abriu o mercado latino-americano. Pós-punk gótico com vocação massiva.
Minha Pessoa Favorita
Los Rodríguez · 1993
Calamaro escrevendo para a Espanha sem deixar de ser argentino. A canção de amor mais direta de Los Rodríguez.
Quero Mais
Loquillo y los Trogloditas · 1987
O rock mais ibérico — a tradição espanhola do rock dos anos 50 revisitada com a energia dos anos 80. Loquillo como a ponte entre as gerações.
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A série completa
Espanha
Flamenco, copla, movida madrilenha, rock espanhol. O cruzamento entre o cigano e o árabe.
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CAP 01
🇪🇸 Cap 01
As Raízes e o Flamenco: O Duende Nasceu Aqui (Séc. XV–1900)
Antes de a Espanha existir como nação, o território que hoje ocupa foi durante séculos o ponto de encontro — e de conflito — entre três grandes civilizações do mundo mediterrâneo:
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CAP 02
🇪🇸 Cap 02
A Revolução Flamenca: Camarón, Paco de Lucía e o Duende Elétrico (1960–1992)
Quando Paco de Lucía viu Camarón de la Isla pela primeira vez, ele tinha dezessete anos. Paco estava trabalhando em uma gravação em Madri. Camarón, então um jovem cantor de San Fer
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CAP 03
🇪🇸 Cap 03
A Movida Madrilena: A Noite que Durou Dez Anos (1979–1992)
Antes dos anos 80, os espanhóis passaram boa parte do século sob o regime do ditador Francisco Franco. Quarenta anos de ditadura conservadora haviam reprimido a sexualidade, a cult
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🇪🇸 Cap 04
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CAP 05
🇪🇸 Cap 05
Pop Espanhol e Alejandro Sanz: A Voz da América Latina (1990–hoje)
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CAP 06
🇪🇸 Cap 06
A Copla e o Cancioneiro: A Voz da Espanha Profunda (1920–1975)
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CAP 07
🇪🇸 Cap 07
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