🇦🇺 AU · Austrália · Capítulo 3 de 7
O Rock Australiano Primeira Era: O Trovão do Sul (1973–1980)
Nos anos setenta, a Austrália tinha um sistema de entretenimento noturno único no mundo de língua inglesa: os **pubs** — bares australianos licenciados para apresentar música ao vivo — eram obrigados por lei a fechar às dez da noite na maioria dos estados. Essa restrição absurda produziu uma consequência que ninguém havia previsto: para atrair clientes antes do fechamento, os pubs competiam ferozmente para ter a melhor banda ao vivo do bairro.
O resultado foi um circuito de música ao vivo de uma densidade sem igual em qualquer outro país: centenas de bandas tocando em centenas de pubs todas as noites, para públicos que não tinham ido especificamente para ouvir música, mas encontravam a música como parte do ambiente. Para sobreviver nesse circuito, era preciso ser bom desde a primeira nota — não havia tempo para aquecer, não havia paciência para um público que podia ir embora a qualquer momento.
Esse ambiente brutal e democrático — o pub rock australiano — foi a escola que formou os artistas mais importantes do rock australiano dos anos setenta. AC/DC aprendeu a tocar nesses pubs. Cold Chisel aprendeu nesses pubs. Rose Tattoo, The Angels, Lobby Lloyd: todos passaram pelo mesmo sistema de tentativa e erro diante de públicos que pagavam sua cerveja e não deviam nada a ninguém.
The Easybeats: A Origem de Tudo
Antes de AC/DC, antes do pub rock, a música rock australiana teve seu momento fundacional com The Easybeats — o grupo formado em Sydney em 1964 por imigrantes recém-chegados à Austrália: holandeses, escoceses, ingleses que se encontraram nos albergues de imigrantes de Villawood e formaram uma banda com os instrumentos que conseguiram.
Seu single "Friday on My Mind" (1966) foi o primeiro grande sucesso do rock australiano nas paradas internacionais — chegou ao Top 10 no Reino Unido e foi a primeira canção australiana a tocar massivamente nas rádios de todo o mundo anglófono.
Entre os membros dos The Easybeats estava George Young — o irmão mais velho de Malcolm e Angus Young, que anos depois de a banda se dissolver trabalharia como produtor dos primeiros álbuns do AC/DC ao lado de seu parceiro Harry Vanda. O círculo familiar que conecta The Easybeats com AC/DC é um dos mais importantes da história do rock australiano.
AC/DC: O Trovão de Sydney
A história do AC/DC começou nos clubes noturnos enfumaçados de Sydney em 1973, quando os dois irmãos Angus e Malcolm Young decidiram lançar uma banda.
O nome surgiu quase por acaso, tirado de uma máquina de costura (corrente alternada/corrente contínua), e a estética — com o uniforme escolar de Angus — nasceu como uma piada doméstica que acabaria se tornando uma marca registrada.
Malcolm Young (1953-2017) e Angus Young (nascido em 1955) eram filhos de imigrantes escoceses em Sydney. Malcolm era o guitarrista rítmico — o motor invisível da banda, cujo trabalho de ritmo era a base sobre a qual tudo o mais era construído. Angus era o guitarrista solo: o garoto em uniforme escolar que corria pelo palco tocando solos com uma energia que fazia com que as plateias dos pubs australianos esquecessem temporariamente suas cervejas.
A formação se estabilizou com Bon ScottRonald Belford Scott — como vocalista. Scott era um músico de Perth que havia passado por várias bandas sem chegar a lugar nenhum, e que encontrou no AC/DC o espaço exato para o que tinha a oferecer: uma voz que não era tecnicamente perfeita, mas que tinha uma personalidade e uma presença que nenhuma perfeição técnica poderia substituir. Rouca, urgente, com humor e raiva ao mesmo tempo.
Em 1975, eles gravaram seu álbum de estreia High Voltage, com Malcolm e Angus como guitarristas, Bon Scott como cantor, Mark Evans no baixo e Phil Rudd na bateria. O álbum foi lançado apenas na Austrália.
A conquista internacional veio gradualmente: turnês no Reino Unido em 1976, onde o público dos clubes londrinos respondeu com a mesma energia que os australianos, seguidas de turnês americanas onde o hard rock encontrou seu público natural.
O assalto ao sucesso mundial foi consumado em 1979 com o lançamento de Highway to Hell, um dos álbuns mais emblemáticos da história do rock, que os catapultou para a fama nos Estados Unidos e solidificou seu status de superestrelas internacionais. A faixa-título se tornaria um hino do rock do final dos anos setenta.
Bon Scott: A Noite de 19 de Fevereiro
No auge de seu sucesso — com "Highway to Hell" tocando nas rádios de todo o mundo e uma turnê americana que os havia elevado ao nível das maiores bandas de rock — a tragédia chegou sem aviso.
Em 19 de fevereiro de 1980, o vocalista Bon Scott faleceu por intoxicação alcoólica. Ele tinha 33 anos.
A banda esteve à beira da dissolução. Malcolm e Angus passaram semanas sem saber se fazia sentido continuar. O que decidiram — buscar um novo vocalista e gravar um álbum em homenagem a Bon Scott — foi uma das decisões mais corajosas e produtivas na história do rock.
Brian Johnson — ex-vocalista do grupo inglês Geordie — foi o escolhido. E o álbum que gravaram com ele —
Back in Black (1980) — tornou-se o terceiro álbum mais vendido na história da música, com mais de 50 milhões de unidades vendidas no mundo.
A capa completamente preta — como o luto por Bon Scott — e as doze músicas que a seguiram demonstraram que o AC/DC não só podia sobreviver sem seu vocalista original, mas também podia produzir sua obra-prima na dor de sua perda. "Hells Bells", "You Shook Me All Night Long", "Back in Black": músicas que definem o hard rock em sua forma mais pura e eficiente.
Cold Chisel: A Voz da Austrália Real
Enquanto o AC/DC construía sua carreira internacional, outra banda australiana construía a carreira de rock mais completamente local do país: Cold Chisel, formada em Adelaide em 1973, com o pianista e compositor Don Walker e o vocalista Jimmy Barnes.
Jimmy Barnes — nascido James Dixon Swan em Glasgow, Escócia, imigrou para a Austrália quando criança — tinha uma voz que era para o rock australiano o que Bon Scott era para o hard rock internacional: tecnicamente imperfeita, emocionalmente devastadora, completamente irresistível.
Cold Chisel foi o grupo mais querido da Austrália branca da classe trabalhadora — o equivalente australiano de Bruce Springsteen para seus fãs americanos: canções sobre a vida real de pessoas reais em cidades reais, tocadas com a energia do pub rock e escritas com a precisão de alguém que sabe exatamente do que está falando.
Eles nunca tiveram o sucesso internacional do AC/DC — suas letras eram demasiado especificamente australianas, demasiado cheias de referências locais, para viajar bem — mas na Austrália foram durante uma década a banda mais importante do país.
Rose Tattoo: O Rock Mais Duro do Pub
Rose Tattoo — formada em Sydney em 1976 — representou a faceta mais crua e mais sombria do pub rock australiano: o hard rock levado aos limites do que uma audiência de pub podia suportar, com Angry Anderson como vocalista — pequeno, tatuado, com uma energia de palco que fazia o palco parecer pequeno demais para contê-lo.
Suas músicas — "Rock 'n' Roll Outlaw", "Bad Boy for Love" — são documentos do pub rock em seu estado mais puro: sem concessões ao mercado, sem produção para suavizar as arestas, sem intenção de alcançar além do público que já te ama.
Nota editorial: Angus Young tem noventa e um Grammys e tocou nos maiores estádios do mundo. Em 1973, tocava em pubs de Sydney para audiências que pagavam um dólar australiano para entrar e que não deviam nada a ninguém. O uniforme escolar — o casaco azul, os calções, as meias brancas — ele usou pela primeira vez porque era a única coisa limpa que tinha para tocar. Continuou a usá-lo durante cinquenta anos porque funcionava: ninguém esquecia o homem no uniforme escolar correndo pelo palco tocando o riff mais poderoso do hard rock. A marca mais reconhecível do rock australiano nasceu de não ter roupas limpas. Isso também é Austrália.
10 · 2 en DoReSol
Top 10 do Rock Australiano Primeira Era
Back in Black (álbum)
AC/DC · 1980
O terceiro álbum mais vendido da história. A homenagem a Bon Scott que provou que o AC/DC poderia sobreviver à sua própria tragédia. Cinquenta milhões de cópias vendidas. O hard rock australiano conquistando o mundo a partir da dor.

Highway to Hell
AC/DC · 1979
O hino do rock do final dos anos setenta. A última gravação de Bon Scott antes de sua morte. O momento em que o AC/DC passou de fenômeno local a fenômeno global.

You Shook Me All Night Long
AC/DC · 1980
O single de Back in Black mais ouvido na história da banda. Brian Johnson provando desde a primeira música que poderia ocupar o lugar que Bon Scott havia deixado.
Friday on My Mind
The Easybeats · 1966
O primeiro grande sucesso do rock australiano nas paradas internacionais. George Young — o irmão mais velho que abriria caminho para o AC/DC — em seu momento mais brilhante.
Flame Trees
Cold Chisel · 1984
A canção mais querida do Cold Chisel. A nostalgia da cidade provincial australiana na linguagem do rock — especificamente australiana, universalmente emocionante.
Khe Sanh
Cold Chisel · 1978
A canção sobre os soldados australianos no Vietnã que se tornou um hino da classe trabalhadora australiana. Don Walker escrevendo com a precisão de um romancista sobre a experiência daqueles que retornam da guerra sem conseguir retornar completamente.
Rock 'n' Roll Outlaw
Rose Tattoo · 1978
O pub rock em sua forma mais crua. Angry Anderson e Rose Tattoo sendo tudo o que o rock dos anos setenta prometia ser sem a produção que o suavizasse.
Let There Be Rock
AC/DC · 1977
O manifesto do hard rock australiano. AC/DC declarando a religião do rock com a seriedade de quem realmente acredita. A música que Angus Young citou em seu discurso de introdução ao Rock and Roll Hall of Fame.
T.N.T.
AC/DC · 1975
O primeiro grande clássico do AC/DC. A energia do pub rock de Sydney destilada em três minutos de hard rock que definem o som da banda desde o início.
Working Class Man
Jimmy Barnes · 1985
O hino da classe trabalhadora australiana. Jimmy Barnes — o imigrante escocês que se tornou a voz mais reconhecível do rock australiano — cantando sobre as pessoas que Cold Chisel descreveu durante uma década.
A série completa
Austrália
Pub rock, didgeridoo, indie de Melbourne e o som aborígene. Um continente musical à parte.
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CAP 01
🇦🇺 Cap 01
A Música Aborígene: A Tradição Musical mais Antiga do Mundo (65.000 anos–hoje)
Quando os cientistas falam sobre a cultura humana mais antiga que sobreviveu
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CAP 02
🇦🇺 Cap 02
As Raízes Coloniais e o Folk: A Canção que Construiu uma Nação (1788–1960)
Em 26 de janeiro de 1788, onze navios ancoraram na baía de Sydney Cove com 1.487 pessoas a bordo: marinheiros, soldados, funcionários e 775 condenados deportados da Grã-Bretanha. E
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🇦🇺 Cap 03
O Rock Australiano Primeira Era: O Trovão do Sul (1973–1980)
Nos anos setenta, a Austrália tinha um sistema de entretenimento noturno único no mundo de língua inglesa: os **pubs** — bares australianos licenciados para apresentar música ao vi
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CAP 04
🇦🇺 Cap 04
O Rock Australiano Segunda Era: A Geração que Conquistou o Mundo (1980–1995)
Em 1988, duas bandas australianas estavam no centro do rock internacional ao mesmo tempo — e representavam duas filosofias completamente opostas sobre como ser australiano no mundo
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CAP 05
🇦🇺 Cap 05
Pop Australiano: A Fábrica de Ícones do Pacífico Sul (1970–2000)
A Austrália tem uma tradição específica no pop internacional que nenhum outro país do mundo de língua inglesa replicou com tanta consistência: a artista feminina que começa como um
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CAP 06
🇦🇺 Cap 06
A Cena Contemporânea: O Indie Australiano que Conquistou o Mundo (2000–hoje)
No início dos anos 2000, a Austrália tinha algo que nenhum outro país de língua inglesa tinha na mesma medida: uma rádio pública independente que atuava como árbitro do gosto music
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CAP 07
🇦🇺 Cap 07
As Vozes Indígenas Modernas: O Canto que Não Silenciou (1964–hoje)
Durante os primeiros cento e cinquenta anos de colonização europeia, a música aborígene australiana foi sistematicamente suprimida: as cerimônias eram proibidas, as crianças eram a
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