🇨🇴 CO · Colômbia · Capítulo 4 de 6
A Salsa Caleña: A Cidade que Dança Mais Rápido que Ninguém (1960–presente)
A salsa não nasceu na Colômbia. Nasceu em Nova York nos anos sessenta, na encruzilhada entre a música afro-caribenha — o son cubano, o mambo, a guaracha, o guaguancó — e o jazz e o rhythm and blues norte-americanos, nos bairros do Bronx e do East Harlem onde os latinos de primeira e segunda geração construíam sua identidade com a música que traziam de Cuba, Porto Rico e Colômbia.
O que a Colômbia — e mais especificamente Cali — fez com essa música é um dos fenômenos culturais mais fascinantes da história musical latino-americana: eles a pegaram, desmontaram, remontaram à sua maneira e a devolveram ao mundo com um estilo tão único e tão diferente do original que hoje Cali é reconhecida globalmente como a Capital Mundial da Salsa, não Nova York.
Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque Cali tinha exatamente as condições necessárias para que isso ocorresse.
As Raízes: O Caribe Chega ao Pacífico
Cali é a terceira maior cidade da Colômbia e a capital do Valle del Cauca, a região ao sul do Eixo Cafeeiro que olha para o Oceano Pacífico. É também a segunda cidade com a maior população afro-colombiana do país, depois de Cartagena. Essa presença afrodescendente — com suas raízes nas comunidades do Pacífico colombiano, que têm tradições musicais tão antigas e próprias quanto as da costa caribenha — é uma das chaves para entender por que a salsa se enraizou em Cali com uma intensidade que não tem equivalente em nenhuma outra cidade do mundo.
Desde os anos trinta e quarenta, Cali já ouvia música caribenha. Os discos de son cubano, mambo e guaguancó chegavam aos portos colombianos e subiam o rio Cauca até o Vale. O rádio os amplificava. Os bairros populares de Cali os absorviam com uma voracidade que os cronistas da época descreviam como quase religiosa: onde quer que soasse um tambor cubano, os caleños começavam a dançar.
Mas o passo decisivo chegou em 1968, quando a banda de Richie Ray e Bobby Cruz — dois porto-riquenhos de Nova York que misturavam salsa dura com elementos de jazz e boogaloo — visitaram a Colômbia pela primeira vez. O concerto em Cali foi um acontecimento. A salsa dura nova-iorquina — mais rápida, mais agressiva, mais urbana que o son cubano que os caleños já conheciam — pegou nos bairros populares com a força de algo que as pessoas estavam esperando sem saber que esperavam.
Os caleños começaram a fazer algo que definiria para sempre o estilo de dança que os distinguiria do mundo: nos agüelulos — os bailes para jovens onde não se servia álcool, organizados nos bairros populares da cidade — começaram a aumentar as rotações dos discos para dançá-los mais rápido. Ao son cubano aumentavam a velocidade até que o corpo tivesse que responder com uma velocidade de pés que nenhuma outra escola de salsa do mundo desenvolveu. Esse gesto aparentemente simples — girar mais rápido o prato do toca-discos — foi a origem técnica da escola caleña: uma salsa dançada com os pés, não com os quadris.
A Escola de Cali: Como Se Dança Diferente
A diferença fundamental entre a salsa de Cali e a salsa dançada em Nova York, Porto Rico ou Cuba não é musical, mas corporal. A salsa de Cali é dançada com os pés. O peso do movimento está no trabalho das pernas — passos curtos, rápidos, sincopados, executados com uma precisão técnica que requer anos de prática — enquanto o torso permanece relativamente quieto e ereto. Na salsa nova-iorquina — que é dançada on 2, com o acento no segundo tempo — o corpo inteiro se move, os quadris marcam o tempo, o movimento é mais ostensivo e mais teatral.
A velocidade é a assinatura de Cali. Um dançarino caleño experiente pode executar sequências de passos em velocidades que dançarinos de outras escolas simplesmente não alcançam. Esse virtuosismo dos pés — que nas competições mais avançadas é combinado com acrobacias e figuras de casal de uma complexidade impressionante — é o que tornou os dançarinos de Cali os mais reconhecidos do mundo e Cali a cidade com mais escolas de dança de salsa por quilômetro quadrado em qualquer lugar do planeta.
Hoje, Cali tem mais de cento e sessenta escolas de dança formalmente registradas em seus bairros. Mais de oitenta orquestras ativas. Mais de cento e quinze salsotecas, clubes e estabelecimentos dedicados exclusivamente à salsa que abrem todos os dias da semana. E mais de três mil e quinhentos melômanos dedicados ao colecionismo de música afro-antillana — provavelmente o maior grupo de colecionadores de salsa concentrados em uma única cidade em qualquer lugar do mundo.
Fruko: o arquiteto do som
Julio Ernesto Estrada RincónFruko — nasceu em Medellín em 1951. Aos dezesseis anos, já era o percussionista principal da Discos Fuentes — a gravadora colombiana mais importante do século XX — e aos dezenove, fundou a orquestra que levaria seu apelido: Fruko y sus Tesos.
Fruko não era de Cali, mas foi o primeiro músico colombiano a construir uma orquestra que soasse como a Fania nova-iorquina, mas com algo diferente: um cheiro do Pacífico, uma maneira de arranjar os ventos que vinha da tradição musical colombiana e não de Cuba ou Porto Rico. Sua orquestra foi a primeira escola da salsa colombiana: por ela passaram os músicos e cantores que definiriam o gênero na Colômbia nas três décadas seguintes.
O mais importante de todos foi Joe Arroyo.
Joe Arroyo: o Centurião da Noite
Álvaro José Arroyo González nasceu em Cartagena em 1 de novembro de 1955. Desde criança, cantava nos bares do bairro Nariño, no porto, com uma voz que os amantes da música de Cartagena descreviam como algo que nunca tinham ouvido antes: um timbre de tenor que parecia conter todos os ritmos do Caribe colombiano ao mesmo tempo. Aos oito anos, já cantava em bares. Aos onze, a família o encontrou se apresentando em um bar adulto e o tirou à força. Continuou cantando.
Chegou a Barranquilla aos quatorze anos, cantou com a Sonora Juventud e com os Hermanos Ospina, e em 1971 entrou para Fruko y sus Tesos — a orquestra que o formou como músico completo. Com Fruko, gravou os primeiros sucessos que o colocaram no mapa nacional. "El Preso" — gravada em 1975 e ainda uma das três maiores canções da salsa colombiana — estabeleceu sua voz como a mais reconhecível do gênero no país.
Em 1981, fundou sua própria orquestra, La Verdad, e começou a fase mais criativa de sua carreira. Em 1986, gravou "Rebelión" — a canção que o tornou imortal.
"Rebelión" é um caso único na história da salsa colombiana. É uma canção de protesto disfarçada de canção de amor: sua letra narra a história de um escravo africano na Cartagena colonial de 1600 que se rebela quando o espanhol bate em sua esposa. O refrão "No le pegue a la negra" — é ao mesmo tempo um slogan político contra o abuso racial e físico, e um convite irresistível para dançar. Arroyo dizia que a canção chegou à sua cabeça completa, de uma só vez, como uma visão. O músico Michi Sarmiento, que fez os arranjos, confirma que Arroyo lhe ditou a canção inteira em uma única noite.
"Rebelión" é a canção sobre a escravidão que metade da América Latina conhece de cor e dança com alegria — uma paradoxo que diz tudo sobre o poder da salsa de transformar a dor em movimento. Joe Arroyo morreu em Barranquilla em 26 de julho de 2011, aos cinquenta e cinco anos. A Colômbia o lamentou por dias.
Grupo Niche e "Cali Pachanguero": o hino
Jairo Varela nasceu em Istmina, Chocó, em 1949. Ele era chocoano — do profundo Pacífico colombiano, não de Cali — mas Cali o adotou como filho próprio desde que fundou o Grupo Niche em 1979 e deu à cidade o maior presente que um músico pode dar a uma cidade: seu hino.
"Cali Pachanguero" — gravada em 1986 — é a canção que define Cali no mundo com a mesma contundência que "New York, New York" define Nova York. É uma celebração da cidade, de sua alegria, de seu modo de viver, da salsa como idioma e como forma de ser. O historiador musical Petrit Baquero a coloca ao lado de "El Preso" de Fruko e "Rebelión" de Joe Arroyo como o trio de canções que formam o cânone absoluto da salsa colombiana.
Varela tinha uma capacidade compositiva extraordinária e uma visão da salsa que — como ele mesmo dizia — não vinha do Caribe, mas do Pacífico. Seus arranjos tinham uma cor específica, uma maneira de tratar os ventos e o piano que soava ao mesmo tempo como salsa nova-iorquina e como algo que só poderia ter nascido na Colômbia. Ele morreu em Cali em 8 de agosto de 2012, aos sessenta e dois anos.
A Orquesta Guayacán — também fundada nos anos oitenta por músicos que passaram pelo Grupo Niche — completou o trio de grandes orquestras caleñas que definiram a salsa colombiana em seu momento de maior criatividade.
A Feira de Cali: quando a cidade inteira dança
Todos os anos, entre 25 e 30 de dezembro, Cali celebra a Feira de Cali — um evento que começou como uma feira de touradas em 1957 e se tornou progressivamente o festival de salsa mais importante do mundo. O ponto alto da Feira é o Salsódromo: um desfile de mais de mil e trezentos dançarinos das melhores escolas da cidade que percorre o centro histórico e reúne até seiscentas mil pessoas nas ruas. É a imagem mais poderosa do que Cali é: uma cidade que, quando celebra, dança.
Em setembro, também se celebra o Festival Mundial de Salsa — a competição internacional de dança mais importante do gênero, onde escolas da Rússia, Itália, Romênia, Estados Unidos e de todo o mundo competem no estilo caleño contra as escolas dos bairros da cidade que inventaram esse estilo.
Andrés Caicedo: o escritor que amava salsa como ninguém
Nenhuma história da salsa caleña está completa sem mencionar Andrés Caicedo — o escritor caleño nascido em 1951 que morreu aos vinte e cinco anos e que em seu romance ¡Que viva la música! (1977) escreveu o documento literário mais honesto sobre o que a salsa significava para os jovens dos bairros populares de Cali nos anos setenta: não entretenimento, mas identidade, não diversão, mas razão de ser. O romance de Caicedo é para a salsa caleña o que Cem Anos de Solidão é para o vallenato: a confirmação de que uma música pode ser tão grande que também precisa de sua literatura.
Caicedo suicidou-se no mesmo dia em que recebeu os primeiros exemplares de seu romance. A frase com que o livro se abre — "Ouçam, vou contar-lhes" — continua sendo o melhor início possível para uma história sobre salsa.
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Top 10 Álbuns Essenciais da Salsa Colombiana
Musa Original
Joe Arroyo e La Verdad
1986
Cali Pachanguero
Grupo Niche
1986
O Prisioneiro e Outros Sucessos
Fruko y sus Tesos
1975
O Melhor de Joe Arroyo
Joe Arroyo
Compilação
Perdemos a Mão
Grupo Niche
1989
Bem-vindos
Orquesta Guayacán
1990
A Rebelião
Joe Arroyo e La Verdad
1988
Nosso Amor Eterno
Grupo Niche
2005
História Musical
Fruko e seus Tesos
Compilação
Você Sofrerá
Joe Arroyo com Fruko e seus Tesos
1975
Nota editorial: O escritor caleño Andrés Caicedo cometeu suicídio em 1977 aos vinte e cinco anos, no mesmo dia em que recebeu os primeiros exemplares de ¡Que viva la música! — seu romance sobre a salsa e os jovens de Cali. É o documento literário mais honesto que existe sobre o que a salsa significa para uma cidade. Qualquer pessoa que queira entender por que Cali é o que é musicalmente deve ler esse livro antes de ouvir qualquer disco.
A série completa
Colômbia
Cumbia, vallenato, salsa colombiana, champeta. A música para dançar e chorar.
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CAP 01
🇨🇴 Cap 01
A Cumbia: A Rainha dos Ritmos Caribenhos (Século XVIII–presente)
A Colômbia é, em termos musicais, um dos países mais diversos do mundo. Sua
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CAP 02
🇨🇴 Cap 02
O Vallenato: O Acordeão que Contou a História de um País (1870–presente)
O vallenato tem uma paradoxa em seu coração: seu instrumento principal — o acordeão diatônico — é europeu. Foi inventado em Viena em 1829 pelo austríaco Cyrill Demian. Chegou às co
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CAP 03
🇨🇴 Cap 03
A Música Andina e o Bambuco: A Alma do Interior (Século XIX–presente)
Quando o mundo pensa em música colombiana, pensa na costa do Caribe: cumbia, vallenato, tambores, o calor do Atlântico. Mas a Colômbia tem outra metade musical que vive no interior
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CAP 04 você está aqui
🇨🇴 Cap 04
A Salsa Caleña: A Cidade que Dança Mais Rápido que Ninguém (1960–presente)
A salsa não nasceu na Colômbia. Nasceu em Nova York nos anos sessenta, na encruzilhada entre a música afro-caribenha — o son cubano, o mambo, a guaracha, o guaguancó — e o jazz e o
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CAP 05
🇨🇴 Cap 05
Rock, Pop e Hip-Hop: A Geração que Conectou a Colômbia com o Mundo (1985–presente)
Os anos noventa na Colômbia foram ao mesmo tempo os piores e os mais criativos. O país vivia uma guerra em múltiplas frentes: o narcotráfico dos cartéis de Medellín e Cali em sua f
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CAP 06
🇨🇴 Cap 06
O Século XXI: Medellín, Capital Mundial do Reggaeton (2000–presente)
Medellín fez com o reggaeton o que Cali fez com a salsa cinquenta anos antes: pegou um gênero que não havia nascido lá, desmontou-o para descobrir o que havia dentro e o remontou c
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