🇨🇴 CO · Colômbia · Capítulo 5 de 6

Rock, Pop e Hip-Hop: A Geração que Conectou a Colômbia com o Mundo (1985–presente)

Os anos noventa na Colômbia foram ao mesmo tempo os piores e os mais criativos. O país vivia uma guerra em múltiplas frentes: o narcotráfico dos cartéis de Medellín e Cali em sua fase mais violenta, as guerrilhas das FARC e do ELN operando nos campos, os paramilitares respondendo com seus próprios métodos, e um Estado que parecia sobrecarregado por todos os lados. Medellín era a cidade mais perigosa do mundo naqueles anos. Os colombianos que cresceram naquela década viviam com a violência como pano de fundo constante de suas vidas cotidianas.

11 min de leitura publicado 27/05/2026 5 leituras por DoReSol
Rock, Pop e Hip-Hop: A Geração que Conectou a Colômbia com o Mundo (1985–presente)

Nesse contexto, uma geração de jovens músicos de Bogotá, Cali e Barranquilla fez exatamente o que as gerações anteriores haviam feito nos momentos mais difíceis da história musical latino-americana: criou. Não para escapar da realidade, mas para nomeá-la, para processar o que não podia ser processado de nenhuma outra forma, para provar a si mesmos e aos outros que a Colômbia era também isso — não apenas a violência, mas também as pessoas que viviam dentro dela e encontravam formas de ser.

O Rock Colombiano Antes do Boom: Os Pioneiros

O rock chegou à Colômbia nos anos sessenta como chegou a toda a América Latina: através do rádio, dos discos de vinil importados e da fascinação dos jovens urbanos pelos Beatles, Rolling Stones e Motown. Bogotá, Medellín e Cali tiveram suas próprias bandas de beat e psicodelia nos anos sessenta e setenta, mas sem uma indústria fonográfica local para apoiá-las e com o peso de uma cultura musical que favorecia a cumbia, o vallenato e a salsa, essas bandas existiam à margem.

Os anos oitenta trouxeram o heavy metal — Kraken, em Medellín, foi a primeira banda de metal colombiana a alcançar um público massivo — e com os anos noventa chegou o rock alternativo e o punk que no México e na Argentina já vinham construindo cenas próprias e reconhecíveis há anos. A diferença é que na Colômbia o processo chegou mais tarde e em um contexto social mais extremo: fazer rock em Bogotá em 1992 era também uma declaração política, uma forma de dizer que existia uma Colômbia que não era nem o cartel, nem a guerrilha, nem os noticiários internacionais.

Aterciopelados: a banda que colocou a Colômbia no mapa do rock

Andrea Echeverri e Héctor Buitrago se conheceram em Bogotá no final dos anos oitenta. Ela estudava Belas Artes na Universidade dos Andes. Ele tocava baixo. Juntos, formaram primeiro Delia y los Aminoácidos — que tocava no Bar Barie, o pequeno bar que eles mesmos gerenciavam na capital — e em 1993 reformularam o projeto sob o nome definitivo: Aterciopelados.

O som dos Aterciopelados era inconfundível e era colombiano de uma maneira que nenhuma outra banda de rock em espanhol tinha sido antes: eles pegavam a base do punk e do rock alternativo anglo-saxão — a energia direta, a voz sem adornos, a guitarra como arma de expressão — e a fundiam com elementos do folclore colombiano, ritmos da costa caribenha, cadências andinas, textos que falavam de ecologia, feminismo e memória a partir de uma perspectiva que não vinha de nenhum manual importado, mas da experiência específica de ser colombiana e mulher nos anos noventa.

El Dorado (1995) — seu segundo álbum — foi o disco que os consagrou. "Bolero Falaz", "Florecita Rockera", "Candela", "Colombia Conexión": músicas que misturavam o rock alternativo com ritmos latino-americanos de uma maneira tão natural que a revista Rolling Stone Colômbia os colocou no número um de sua lista das cinquenta melhores músicas colombianas de todos os tempos. A Billboard os classificou em 2026 como a décima melhor banda de rock em espanhol da história — a única colombiana no top 10, acima de bandas mexicanas e argentinas que vinham construindo suas cenas há décadas.

Andrea Echeverri cantou junto com Soda Stereo no MTV Unplugged da banda argentina em 1996 — a aparição que os colocou definitivamente no radar internacional. Ela foi a única artista convidada naquela noite histórica.

Aterciopelados ganharam quatro Grammys Latinos e foram nomeados Guardiões da Paz pela Anistia Internacional. Eles continuam ativos e continuam sendo, mais de trinta anos após sua fundação, a banda de rock mais importante que a Colômbia produziu.

O contexto: rock colombiano sob violência

A cena de rock de Bogotá nos anos noventa não foi apenas musical. Foi também social em um sentido muito concreto: os concertos eram espaços onde os jovens da classe média urbana encontravam uma comunidade que não era a família, a igreja nem o Estado — as três instituições que o conflito armado havia colocado em crise ou sob suspeita. O festival Rock al Parque — criado em Bogotá em 1995 e ao longo dos anos se tornando o maior festival de rock da América Latina em termos de assistência gratuita — foi a expressão institucional desse impulso: a cidade de Bogotá apostando na música como alternativa à violência, como forma de recuperar o espaço público para os jovens que de outra forma não tinham onde estar.

Rock al Parque nasceu durante a prefeitura de Antanas Mockus — o filósofo e matemático que transformou Bogotá nos anos noventa com uma visão inédita da cultura cívica — e se tornou o maior evento gratuito de música na Colômbia, atraindo até cem mil pessoas por edição. É também, junto com o Carnaval de Barranquilla e o Festival Vallenato, um dos eventos musicais mais importantes do país.

Shakira: de Barranquilla para o mundo

Shakira Isabel Mebarak Ripoll nasceu em Barranquilla em 2 de fevereiro de 1977, filha de pai libanês e mãe colombiana. Aos oito anos, já escrevia canções. Aos treze, assinou seu primeiro contrato de gravação com a Sony Music Colômbia. Seus dois primeiros álbuns Magia (1991) e Peligro (1993), gravados quando tinha quatorze e dezesseis anos respectivamente — foram fracassos comerciais que a própria Shakira reconhece como parte de um processo de aprendizado.

A mudança veio em 1995 com Pies Descalzos — o álbum que a estabeleceu no mercado latino-americano com canções como "Estoy Aquí" e "Antología", completamente escritas por ela. Shakira era — e ainda é — uma anomalia na indústria do pop latino: uma artista que escreve todas as suas canções, toca guitarra, tem opiniões firmes sobre seu som, e nunca aceitou a fórmula pré-fabricada que as gravadoras oferecem aos jovens artistas.

¿Dónde Están los Ladrones? (1998) — produzido por Emilio Estefan — foi o disco que a transformou em estrela continental e a preparou para a conquista do mercado anglo-saxão. Com "Ciega, Sordomuda", "Ojos Así" — onde incorporou o canto árabe que aprendeu desde os cinco anos por influência de sua família libanesa — e "Inevitable", Shakira demonstrou que podia ser ao mesmo tempo profundamente colombiana e completamente universal.

Laundry Service (2001) — seu primeiro álbum bilíngue — a levou ao mercado norte-americano com uma velocidade que nenhum artista latino havia alcançado antes. Fijación Oral Vol. 1 (2005) com "La Tortura" ao lado de Alejandro Sanz e "Hips Don't Lie" a consolidou como a artista latina feminina mais reproduzida de todos os tempos no Spotify — um recorde que mantém até hoje.

Shakira não é apenas a artista colombiana mais bem-sucedida da história: é a artista latino-americana que mais discos vendeu na história do gênero, com mais de setenta milhões de álbuns. Sua Fundação Pies Descalzos — criada em 1997 para financiar escolas em áreas vulneráveis da Colômbia — é um dos projetos filantrópicos mais ativos que um artista colombiano manteve por décadas. A ONU a nomeou Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF em 2003.

Carlos Vives: a ponte entre os gêneros

Embora Carlos Vives ocupe o lugar mais destacado na história do vallenato — como documentamos no Capítulo 2 desta série —, seu papel no rock e pop colombiano merece uma menção separada. Vives foi o primeiro artista colombiano a construir uma proposta que misturava os gêneros folclóricos do Caribe com a produção do rock e pop internacionais de uma maneira que o mundo podia absorver sem necessidade de conhecer o contexto colombiano prévio.

Essa abertura — esse gesto de dizer que a cumbia, o vallenato e o porro podiam tocar nas mesmas rádios que Sting, que U2, que os grandes do pop anglo-saxão — foi a chave que abriu a porta para todos os artistas colombianos que vieram depois: Shakira, ChocQuibTown, J Balvin, Maluma. Todos devem a Carlos Vives por ter demonstrado que era possível.

Juanes: rock com consciência

Juan Esteban Aristizábal VásquezJuanes — nasceu em Medellín em 1972. Cresceu no Eixo Cafeeiro, estudou guitarra clássica e nos anos noventa formou a banda de rock Ekhymosis, que foi a primeira banda colombiana a gravar em uma gravadora internacional. Quando se dissolveu em 1998, iniciou uma carreira solo que em 2000 o levou a Los Angeles, onde gravou seu primeiro álbum solo Fíjate Bien com o produtor Gustavo Santaolalla.

Fíjate Bien (2000) ganhou três Grammys Latinos — incluindo Melhor Artista Revelação — e abriu uma carreira que nos vinte anos seguintes acumulou vinte e três Grammys Latinos, tornando-o o artista com mais prêmios nessa cerimônia depois de Carlos Santana. Suas músicas — "A Dios le Pido", "La Camisa Negra", "Me Enamora", "Fotografía" com Nelly Furtado — misturavam o rock em espanhol com elementos do vallenato e da música andina colombiana com uma produção que tocava a qualquer hora em qualquer rádio do continente.

Juanes também usou sua plataforma com uma consistência que poucos artistas de seu nível mantiveram: seus concertos pela paz em zonas de conflito armado colombiano, seu ativismo contra minas terrestres, sua Fundação Mi Sangre — dedicada ao atendimento de vítimas do conflito — o tornaram o artista colombiano de maior perfil político e social de sua geração.

ChocQuibTown: o Pacífico colombiano no mundo

Carlos "Tostao" Valencia, Gloria "Goyo" Martínez e Miguel "Slow" Martínez nasceram e cresceram no departamento de Chocó — a região do Pacífico colombiano, fronteiriça com o Panamá, habitada majoritariamente por comunidades afrocolombianas, uma das mais biodiversas do planeta e ao mesmo tempo uma das mais esquecidas pelo Estado colombiano. Formaram o ChocQuibTown em Cali no ano 2000, depois se mudaram para Bogotá, e começaram a construir um som que ninguém havia feito antes: hip-hop e funk misturados com os ritmos tradicionais do Pacífico colombiano — o currulao, o chigualo, o bunde, o abozao — com letras que falavam do Chocó por dentro, com amor e raiva ao mesmo tempo.

Seu segundo álbum Oro (2010) os lançou ao reconhecimento internacional com o single "De Donde Vengo Yo" — uma canção que é ao mesmo tempo uma celebração da identidade chocoana e uma denúncia das multinacionais e dos políticos corruptos que exploram o ouro e a platina do Pacífico enquanto suas comunidades vivem na pobreza. Ganharam o Grammy Latino de Melhor Canção Alternativa do Ano em 2010 — o primeiro Grammy Latino ganho por artistas originários do Chocó em toda a história do prêmio.

"De Donde Vengo Yo" é uma canção política disfarçada de hino festivo, na mesma linha de "Rebelión" de Joe Arroyo: a dor processada como ritmo, a denúncia transformada em algo que as pessoas dançam sem deixar de entender o que diz. ChocQuibTown fez pelo Pacífico colombiano o que Aterciopelados fez por Bogotá e o que Joe Arroyo fez por Cartagena: devolver a uma região sua própria dignidade em forma de canção.

O Legado: Colômbia como Potência Musical

A geração que descrevemos neste capítulo — Aterciopelados, Shakira, Juanes, ChocQuibTown, Carlos Vives — construiu em duas décadas algo que a Colômbia nunca teve antes: uma identidade musical internacional que ia além de um único gênero. Eles não eram apenas os músicos da cumbia ou do vallenato: eram artistas colombianos que podiam competir em qualquer categoria, em qualquer idioma, em qualquer mercado, sem perder a marca de origem que os tornava reconhecíveis como colombianos.

Essa conquista foi também uma conquista de dignidade em um momento em que a Colômbia era conhecida no mundo principalmente pela violência e pelo narcotráfico. Shakira ganhando Grammys, Juanes lotando estádios na Espanha, Aterciopelados sendo classificados entre as melhores bandas de rock em espanhol da história: essas vitórias não eram apenas musicais. Eram políticas no sentido mais profundo do termo.

Nota editorial: Em 2026, a Billboard publicou sua lista das cinquenta melhores bandas de rock em espanhol da história. Aterciopelados aparecem na 10ª posição — a única banda colombiana no top 10 — com esta descrição: "Sem imaginar, tornaram-se a banda de rock mais influente de seu país, e Echeverri a mulher que mudou o rosto e o som do rock colombiano para sempre." Soda Stereo ocupa o primeiro lugar. Que uma banda colombiana esteja entre as dez melhores de um gênero que a Colômbia adotou décadas depois da Argentina e do México diz tudo sobre o que essa geração de músicos conseguiu.

10 · 1 en DoReSol

Top 10 Álbuns Essenciais do Rock, Pop e Hip-Hop Colombiano

#CanciónArtista
01

El Dorado

Aterciopelados · 1995

1995

Canción3:06
02

Onde Estão os Ladrões?

Shakira

1998

Pendiente
03

Pés Descalços

Shakira

1995

Pendiente
04

Preste Atenção

Juanes

2000

Pendiente
05

Ouro

ChocQuibTown

2010

Pendiente
06

Meu Sangue

Juanes

2004

Pendiente
07

Gozo Poderoso

Aterciopelados

1999

Pendiente
08

Serviço de Lavanderia

Shakira

2001

Pendiente
09

Isso É o Que Há

ChocQuibTown

2011

Pendiente
10

Ekhymosis

Ekhymosis

1995

Pendiente

Próximo e último capítulo — Série Colômbia: Colômbia no Século XXI: J Balvin, Maluma e a conquista global do reggaeton colombiano (2005–presente).

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A série completa

Colômbia

Cumbia, vallenato, salsa colombiana, champeta. A música para dançar e chorar.

Capítulo 5 de 6 6 de 6 publicados
  1. CAP 01

    🇨🇴 Cap 01

    A Cumbia: A Rainha dos Ritmos Caribenhos (Século XVIII–presente)

    A Colômbia é, em termos musicais, um dos países mais diversos do mundo. Sua

    10 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇨🇴 Cap 02

    O Vallenato: O Acordeão que Contou a História de um País (1870–presente)

    O vallenato tem uma paradoxa em seu coração: seu instrumento principal — o acordeão diatônico — é europeu. Foi inventado em Viena em 1829 pelo austríaco Cyrill Demian. Chegou às co

    11 min 27/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇨🇴 Cap 03

    A Música Andina e o Bambuco: A Alma do Interior (Século XIX–presente)

    Quando o mundo pensa em música colombiana, pensa na costa do Caribe: cumbia, vallenato, tambores, o calor do Atlântico. Mas a Colômbia tem outra metade musical que vive no interior

    10 min 27/05/2026 Ler

  4. CAP 04

    🇨🇴 Cap 04

    A Salsa Caleña: A Cidade que Dança Mais Rápido que Ninguém (1960–presente)

    A salsa não nasceu na Colômbia. Nasceu em Nova York nos anos sessenta, na encruzilhada entre a música afro-caribenha — o son cubano, o mambo, a guaracha, o guaguancó — e o jazz e o

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  5. CAP 05 você está aqui

    🇨🇴 Cap 05

    Rock, Pop e Hip-Hop: A Geração que Conectou a Colômbia com o Mundo (1985–presente)

    Os anos noventa na Colômbia foram ao mesmo tempo os piores e os mais criativos. O país vivia uma guerra em múltiplas frentes: o narcotráfico dos cartéis de Medellín e Cali em sua f

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  6. CAP 06

    🇨🇴 Cap 06

    O Século XXI: Medellín, Capital Mundial do Reggaeton (2000–presente)

    Medellín fez com o reggaeton o que Cali fez com a salsa cinquenta anos antes: pegou um gênero que não havia nascido lá, desmontou-o para descobrir o que havia dentro e o remontou c

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