🇨🇴 CO · Colômbia · Capítulo 3 de 6
A Música Andina e o Bambuco: A Alma do Interior (Século XIX–presente)
Quando o mundo pensa em música colombiana, pensa na costa do Caribe: cumbia, vallenato, tambores, o calor do Atlântico. Mas a Colômbia tem outra metade musical que vive no interior, nos Andes, e que durante décadas foi a alma oficial da nação antes que a costa assumisse o protagonismo internacional que tem hoje.
Essa música do interior é genericamente chamada de música andina colombiana, e encontra no bambuco sua expressão mais completa e reconhecida: o ritmo que a Colômbia declarou sua dança nacional, aquele que aparece nos festivais folclóricos de Huila e Tolima, aquele que os músicos clássicos arranjaram para orquestra, aquele que os trovadores camponeses de Boyacá e Cundinamarca conhecem desde crianças como a língua de sua própria identidade.
É uma música que o mundo inteiro não dançou, nem ganhou prêmios Grammy, nem apareceu em capas de revistas internacionais. Mas é a música mais profundamente colombiana do interior do país: aquela que permaneceu quando todas as influências externas foram filtradas e o que sobrou não poderia vir de nenhum outro lugar.
A região e seus instrumentos
A região andina colombiana abrange os departamentos de Antioquia, Boyacá, Caldas, Cauca, Cundinamarca, Huila, Nariño, Quindío, Risaralda, Tolima e Valle del Cauca. É uma área montanhosa, de clima temperado, de vilas caiadas, de páramos e cafezais. Sua geografia produz uma sonoridade distinta da costa: mais recolhida, mais melancólica, com mais silêncio entre as notas.
Os instrumentos que a definem são de corda: o tiple, pequeno instrumento de doze cordas divididas em quatro ordens, que é o instrumento mais característico do interior colombiano — produto do engenho dos artesãos crioulos que tomaram a guitarra espanhola e a transformaram em algo próprio —; a bandola, instrumento de dezesseis cordas com corpo semelhante ao de um alaúde, tocado com plectro e que produz um som brilhante e penetrante; e o violão como base harmônica. Essa trindade — bandola, tiple e violão — forma o conjunto de cordas andino, o formato instrumental mais representativo da região.
A esses instrumentos somam-se a guacharaca em algumas vertentes, as flautas de cana nas tradições mais antigas, e a voz — de solistas, duos ou trios — que no bambuco e no pasillo adquire uma cadência particular, lenta e ornamentada, que não se parece com nenhuma outra maneira de cantar na Colômbia.
O Bambuco: O Ritmo Nacional
O bambuco é oficialmente o ritmo nacional da Colômbia. Essa designação não é apenas protocolar: o bambuco tem no interior colombiano o mesmo peso simbólico que o tango na Argentina ou o fado em Portugal. É a forma musical que resume a identidade do camponês andino colombiano: sua melancolia, seu humor, seu amor pela terra, sua forma particular de estar no mundo.
Sua origem é triétnica, como a cumbia, mas com proporções diferentes. A raiz indígena contribui com as escalas pentatônicas e uma certa concepção de tempo musical que não se encaixa perfeitamente no compasso europeu. A raiz africana contribui com a polirritmia — o bambuco tem a característica técnica de combinar simultaneamente dois compassos diferentes, o 6/8 e o 3/4, o que produz essa sensação de tensão entre o um e o três que é sua assinatura rítmica inconfundível. E a raiz espanhola contribui com a estrutura poética de verso e refrão, a ornamentação melódica e os instrumentos de corda.
Esse 6/8 contra 3/4 é o que torna o bambuco tão difícil de dançar para quem não o conhece e tão natural para quem cresceu com ele: o corpo tem que sustentar dois pulsos diferentes ao mesmo tempo, e quando consegue, a sensação é de uma graça particular que não tem equivalente em nenhum outro gênero colombiano.
O bambuco tem várias vertentes regionais: o bambuco sanjuanero do Huila — que é dançado no Festival Folclórico de Neiva todo mês de junho —, o bambuco caucano, o bambuco patiano do Vale do Patía com forte presença afrodescendente, e o bambuco festivo do Eixo Cafeeiro. Cada um com seu próprio caráter, mas todos reconhecíveis como variações da mesma forma essencial.
Os Outros Ritmos Andinos
O bambuco é o mais conhecido, mas a música andina colombiana é um sistema complexo de gêneros inter-relacionados, cada um com seu próprio caráter expressivo.
O pasillo é o mais refinado e o mais ligado à tradição dos salões do século XIX. Derivado da valsa europeia, mas colombianizado até se tornar irreconhecível em sua origem, tem um tempo ternário elegante e uma melancolia específica que o transformou na música das cidades andinas durante a República. Bogotá, Medellín, Manizales: o pasillo foi a trilha sonora das tertúlias e dos velórios do interior urbano colombiano por mais de um século.
A guabina é o gênero mais popular e mais festivo do altiplano cundiboyacense. Com um ritmo rápido e alegre, letras de duplo sentido e uma vocação para a celebração coletiva que contrasta com a gravidade do bambuco, a guabina é a música das festas do Oriente da Colômbia.
O torbellino é o mais antigo e o mais indígena de todos: um ritmo ternário de tempo rápido que em suas versões mais tradicionais conecta diretamente com os rituais pré-colombianos da região e que tem no tiple e na flauta de cana seus instrumentos fundamentais.
O sanjuanero — especialmente o do Huila — mistura bambuco e pasillo em uma dança de casais que é a mais espetacular visual e coreograficamente do folclore andino colombiano, e que se tornou a imagem mais reconhecida do Festival Folclórico Nacional do Huila.
Pedro Morales Pino: o primeiro codificador
Pedro Morales Pino nasceu em Cartago, Valle del Cauca, em 1863 e morreu em Bogotá em 1926. Foi o primeiro músico a sistematizar e codificar a música andina colombiana: o primeiro a arranjar o bambuco e o pasillo para conjuntos instrumentais formais, a transcrever essas músicas para a pauta, a levá-las aos teatros de Bogotá com uma produção que as tornasse reconhecíveis como arte com direito próprio.
Seu instrumento era a bandola, e seu conjunto — o formato de bandola, tiple e violão que ainda hoje é o padrão do conjunto andino colombiano — foi sua criação mais duradoura. Morales Pino tocou na Europa, onde a música andina colombiana foi recebida com curiosidade e interesse por audiências que nunca tinham ouvido nada semelhante. Ele é o pai do bambuco como forma artística consciente de si mesma.
Jorge Villamil: o médico que compôs um continente
Jorge Augusto Villamil Cordovez nasceu em El Cedral, uma fazenda de café perto de Neiva, Huila, em 6 de junho de 1929. Aprendeu a tocar o tiple aos quatro anos de idade. Estudou medicina na Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá e se especializou em cirurgia ortopédica. Exerceu sua profissão por décadas. Paralelamente, compôs mais de quinhentas canções que hoje formam o cânone mais importante da música andina colombiana do século XX.
Villamil foi um cronista de sua região com a mesma vocação documental que Escalona tinha para o vallenato e que José Barros tinha para a cumbia. Seus bambucos e pasillos falam de Huila, do rio Magdalena em sua nascente, dos páramos, dos camponeses de sua terra, com uma precisão geográfica e afetiva que os transforma em documentos tanto quanto em canções. "El Barcino", "Llamaradas", "Espumas" e o bambuco "Fiesta en Corraleja" são algumas de suas peças mais amadas.
Morreu em 28 de fevereiro de 2010, aos oitenta anos. A Colômbia o despediu como o patriarca da música do interior.
A carranga: quando o camponês encontrou sua própria voz
Em 1977, um estudante de medicina veterinária da Universidade Nacional da Colômbia chamado Jorge Luis Velosa Ruiz — nascido em Ráquira, Boyacá, em 1949 — fundou Los Carrangueros de Ráquira e começou a gravar canções em um gênero que ele chamou de carranga: uma mistura de rumba criolla, vallenato guitarreado e música camponesa boyacense, tocada com requinto, guitarra, tiple e guacharaca, com letras que falavam da vida cotidiana do camponês do altiplano cundiboyacense com um humor, uma ternura e uma precisão que nenhum outro músico do interior colombiano havia alcançado antes.
A carranga não existia antes de Velosa. Ele a inventou a partir de saberes ancestrais que sim existiam: as coplas, as melodias, as histórias orais dos camponeses de Boyacá e Cundinamarca. O que Velosa fez foi pegar esse saber acumulado nas montanhas e transformá-lo em música gravável, em canções com estrutura, em arte que o camponês podia reconhecer como sua sem sentir vergonha.
O primeiro álbum, Los Carrangueros de Ráquira (1981), contém "La Cucharita" — a história de uma colher de osso dada como presente de amizade que se perde — que se tornou a canção mais popular da carranga e uma das mais queridas do folclore colombiano. É uma canção sobre nada: sobre uma colher. E ao mesmo tempo é uma canção sobre tudo: sobre a cotidianidade camponesa, sobre os objetos que têm valor pelo que representam, sobre a cultura dos que não têm nada e valorizam o pouco que têm.
Velosa definiu a carranga como "canto, pregão e sonho. Pensamento, palavra e obra. Um amor cotidiano pela vida e suas querências e um compromisso com a arte popular." Essa definição é também a definição de toda a música andina colombiana em seu melhor momento.
Dado editorial: Duas rãs endêmicas colombianas levam nomes científicos em homenagem a Jorge Velosa. Uma delas foi batizada Eleutherodactylus carranguerorum. Provavelmente é a homenagem mais singular que a biologia colombiana já fez a um músico.
A carranga encontrou nos anos oitenta e noventa uma popularidade que superou amplamente o âmbito dos intelectuais e dos festivais folclóricos: chegou às aldeias, às praças de mercado, aos ônibus intermunicipais do altiplano, às festas de vila em Boyacá, Cundinamarca e Santander. Velosa levou Los Carrangueros ao Madison Square Garden de Nova York. Em 2011, gravou Carranga Sinfónica com orquestras do país, levando os sons do campo colombiano ao formato mais acadêmico possível sem perder um grama de sua essência.
O Festival Folclórico e o Bambuco no Século XXI
Todo ano, em junho, a cidade de Neiva — capital do Huila, um departamento às margens do alto Magdalena — celebra o Festival Folclórico e o Concurso Nacional de Bambuco. É o evento mais importante da música andina colombiana: uma semana de competições de interpretação, composição e dança onde o bambuco e o sanjuanero do Huila são os protagonistas absolutos.
O festival existe desde 1960 e sobreviveu a décadas de conflito armado, crise econômica e à invasão de gêneros urbanos mais comerciais, porque a cultura rural do Huila e do Tolima tem uma relação com sua música que não é de entretenimento, mas de identidade: o bambuco é parte do que significa ser de lá, e abandoná-lo seria abandonar a si mesmo.
Esse é o legado mais profundo de toda a música andina colombiana: não é uma música que se ouve, mas uma música que se é. E enquanto a Colômbia continuar sendo também esse país de montanhas, de camponeses, de rios que nascem nos páramos e descem cantando em direção ao calor do Caribe, essa música continuará tendo razão de existir.
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Top 10 Álbuns e Gravações Essenciais da Música Andina Colombiana
Los Carrangueros de Ráquira
Jorge Velosa e Los Carrangueros
1981
Pa' los Pies y el Corazón
Velosa e Los Carrangueros
1984
Bambucos e Pasillos de Morales Pino
Pedro Morales Pino
Compilação
Llamaradas
Jorge Villamil
Compilação
Antologia do Bambuco
Vários artistas
Anos 1980
Caranga Sinfônica
Velosa e Los Carrangueros
2011
O Sanjuanero do Huila
Conjunto Folclórico Nacional
Compilação
Guabinas e Torbellinos
Vários artistas
Compilação
Marcando Caveira
Velosa e Los Carrangueros
1996
Assim Canta a Colômbia
Vários artistas
Compilação
A série completa
Colômbia
Cumbia, vallenato, salsa colombiana, champeta. A música para dançar e chorar.
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CAP 01
🇨🇴 Cap 01
A Cumbia: A Rainha dos Ritmos Caribenhos (Século XVIII–presente)
A Colômbia é, em termos musicais, um dos países mais diversos do mundo. Sua
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CAP 02
🇨🇴 Cap 02
O Vallenato: O Acordeão que Contou a História de um País (1870–presente)
O vallenato tem uma paradoxa em seu coração: seu instrumento principal — o acordeão diatônico — é europeu. Foi inventado em Viena em 1829 pelo austríaco Cyrill Demian. Chegou às co
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CAP 03 você está aqui
🇨🇴 Cap 03
A Música Andina e o Bambuco: A Alma do Interior (Século XIX–presente)
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CAP 04
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