🇨🇴 CO · Colômbia · Capítulo 6 de 6

O Século XXI: Medellín, Capital Mundial do Reggaeton (2000–presente)

Medellín fez com o reggaeton o que Cali fez com a salsa cinquenta anos antes: pegou um gênero que não havia nascido lá, desmontou-o para descobrir o que havia dentro e o remontou com um selo tão próprio que acabou sendo mais influente nesse gênero do que os lugares onde o gênero havia nascido.

10 min de leitura publicado 27/05/2026 5 leituras por DoReSol
O Século XXI: Medellín, Capital Mundial do Reggaeton (2000–presente)

O reggaeton nasceu em Porto Rico nos anos noventa, na encruzilhada entre o rap em espanhol e as faixas de reggae jamaicano, nos bairros de San Juan e Ponce onde músicos como Daddy Yankee, Don Omar e Tego Calderón construíram o som que definiria a música popular latina do século XXI. Chegou a Medellín no final dos anos noventa através dos mesmos canais pelos quais toda música nova chegava às cidades latino-americanas antes da internet: a pirataria, os downloads iniciais, o rádio de nicho que se atrevia a tocar o que as grandes emissoras ainda não tocavam.

O que aconteceu em Medellín com esse material foi o mesmo processo que havia ocorrido em Cali com a Fania e na Colômbia com o vallenato e a cumbia: a cidade colocou seu selo. O reggaeton paisa — como é chamado em Antioquia — não é o reggaeton de Porto Rico nem o reggaeton adaptado de Porto Rico. É outra coisa: mais globalizado, mais profissional em sua produção, com letras mais universais do que as de seus antecessores caribenhos, com um som que — como descreveu um analista musical com uma frase que ficou — "é como um café com leite: forte, mas suave o suficiente para tocar em qualquer casa dos Estados Unidos."

Esse café com leite conquistou o mundo.

O Contexto: Medellín Após Escobar

Para entender por que o reggaeton floresceu em Medellín com tanta intensidade, é preciso entender o que era Medellín nos anos 2000. A cidade havia sido durante os anos oitenta e início dos noventa o epicentro do tráfico de drogas mais violento da história moderna: o cartel de Pablo Escobar transformou suas comunas em campos de batalha e seu nome em sinônimo global de violência. Após a morte de Escobar em 1993 e o desmantelamento do cartel, a cidade embarcou em um dos processos de transformação urbana mais acelerados e documentados do mundo: o metrô, os teleféricos, os parques biblioteca nas comunas mais pobres, a política de urbanismo social que levou arquitetura de qualidade aos bairros que o conflito havia esquecido.

Essa transformação não foi apenas física: foi também cultural. Uma geração de jovens que havia crescido sob a violência e que havia visto como a cidade decidia que queria ser outra coisa encontrou na música um espaço onde essa nova identidade podia ser construída e projetada. O reggaeton paisa — com suas letras sobre amor, festa e sextas-feiras entre amigos, sem tiros nem gemidos, sem a escuridão que havia marcado a primeira fase do gênero em Porto Rico — foi a expressão sonora dessa nova Medellín que queria dançar em vez de chorar.

Como disse o produtor Shako, um dos pioneiros do gênero na cidade: "Conseguimos que o público percebesse que o reggaeton colombiano podia funcionar." Essa frase parece modesta até que se entenda o que significava dizê-la em 2008, quando Medellín ainda lutava para que o mundo a visse de outra maneira.

J Balvin: o primeiro a romper o mundo

José Álvaro Osorio BalvínJ Balvin — nasceu em Medellín em 7 de maio de 1985. Cresceu em uma família que passou da estabilidade econômica para as dificuldades quando o negócio de seu pai faliu. Aos quatorze anos, começou a fazer rimas e improvisações de hip-hop. Estudou sete semestres de Relações Internacionais na EAFIT de Medellín antes de decidir que a música era o seu caminho. Aos dezessete anos, viajou para os Estados Unidos — primeiro para Oklahoma, depois para Nova York — para aprender inglês e se imergir no ambiente musical urbano norte-americano.

Voltou para Medellín, começou a trabalhar no circuito de festas e clubes da cidade, e durante anos construiu uma carreira local que não decolava. Os primeiros grandes sucessos vieram com "6AM" e "Ay Vamos" entre 2012 e 2014. O ponto de virada global foi "Ginza" (2015): a canção permaneceu vinte e duas semanas consecutivas no número um do Billboard Hot Latin Songs — um recorde Guinness — e chegou ao top 10 na maioria dos mercados latino-americanos e no mercado europeu.

Com "Mi Gente" (2017) — produzida junto com Willy William e remixada por Beyoncé, que a transformou em um fenômeno global de outra magnitude — J Balvin se tornou o primeiro artista latino a alcançar o número um do Spotify Global 50. Em 2018, foi o artista mais ouvido em todo o mundo nessa plataforma, acima de qualquer artista anglo-saxão.

Balvin falou com uma franqueza incomum no mundo pop sobre suas crises de depressão e ansiedade — um gesto que, no contexto do reggaeton, onde a imagem de dureza e sucesso é quase obrigatória, teve o peso de uma declaração política. Sua carreira não é apenas musical: é também a história de um jovem de Medellín que levou uma década para que o mundo o ouvisse e, quando o ouviu, não encontrou o que esperava encontrar, mas algo mais interessante e mais honesto.

Maluma: o paisa que lotou o Madison Square Garden

Juan Luis Londoño AriasMaluma — nasceu em Medellín em 28 de janeiro de 1994, nove anos depois de J Balvin na mesma cidade. Quando criança, queria ser jogador de futebol profissional: chegou a jogar nas divisões de base do Atlético Nacional de Medellín. Um tio lhe deu de presente de aniversário de dezesseis anos uma sessão de gravação em um estúdio. O resultado — uma canção que gravou por diversão — acabou mudando o plano.

Seu álbum de estreia Magia (2012) chegou quando ele tinha dezoito anos. Pretty Boy, Dirty Boy (2015) foi o disco que o lançou internacionalmente com "Borró Cassette", "El Perdedor" e "Sin Contrato". Em 2017, gravou "Chantaje" com Shakira — um encontro de duas gerações da música colombiana em uma única canção — que se tornou um dos maiores sucessos de ambas as carreiras.

Em 2018, ele se tornou o artista colombiano mais jovem a lotar o Madison Square Garden em Nova York — quinze mil pessoas — com sua F.A.M.E. Tour. Seu single "Hawái" (2020) — remixado por The Weeknd — foi o primeiro a alcançar o número um no Billboard Global Excl. U.S. chart: o primeiro número um global de um artista colombiano na história dessa lista. Naquele ano, também colaborou com Madonna em "Medellín" — a canção que levou o nome da cidade ao público da cantora mais vendida da história do pop — e se juntou ao concerto virtual One World: Together at Home organizado por Lady Gaga durante a pandemia.

Karol G: A Bichota Que Conquistou o Mundo

Carolina Giraldo NavarroKarol G — nasceu em Medellín em 14 de fevereiro de 1991. Ela é a artista feminina que mais completamente demonstrou que o reggaeton colombiano não é um fenômeno masculino: sua carreira construiu uma posição no gênero que não tinha precedente para uma mulher latino-americana, com uma autonomia artística e uma capacidade de reinvenção que seus contemporâneos masculinos nem sempre demonstraram.

Seu álbum Mañana Será Bonito (2023) foi o primeiro álbum em espanhol de uma artista feminina a estrear no número um da Billboard 200 — a lista de álbuns mais importantes do mercado norte-americano. Não o número um latino: o número um de todos os gêneros, em todos os idiomas. Esse marco foi o mais significativo que qualquer artista colombiano havia alcançado antes, incluindo Shakira.

A história de Karol G em Medellín faz parte da mesma genealogia que J Balvin e Maluma: todos cresceram na mesma cidade, todos se conhecem e se respeitam, e todos contribuíram para construir a cena que nenhum deles poderia ter construído sozinho. O reggaeton paisa é um fenômeno coletivo tanto quanto individual.

Os Produtores: Os Nomes por Trás do Som

Por trás de cada artista, há produtores que construíram o som específico do reggaeton paisa. Sky Rompiendo — Édgar Martínez, nascido em Medellín — é o produtor colombiano de maior reconhecimento internacional: seus créditos incluem trabalhos com J Balvin, Travis Scott, The Weeknd e Pharrell Williams. Ovy on the Drums — Ovy Mendoza — foi o arquiteto sonoro das primeiras etapas de Karol G. The Rudeboyz — a dupla de produtores Kevin e Chan — construíram os hits da era Maluma-Karol G. Esses nomes aparecem nas tags de músicas que acumularam bilhões de reproduções globais, mas raramente nas manchetes. Eles são a razão técnica de por que o reggaeton paisa soa diferente.

A Nova Geração: Feid, Blessd e Ryan Castro

Após J Balvin, Maluma e Karol G, Medellín produziu uma terceira geração de artistas que trouxe o reggaeton de volta às suas raízes mais locais — as esquinas do bairro Antioquia, El Poblado, Envigado — com uma estética mais crua e mais especificamente paisa. Feid — Ferxxo — construiu uma carreira com dezenas de milhões de ouvintes mensais com um som mais escuro e mais íntimo. Blessd e Ryan Castro completaram o quadro de uma geração que já não precisa provar que o reggaeton de Medellín pode funcionar: só precisa decidir o que quer dizer com a plataforma que seus antecessores construíram.

Colômbia como Potência Global: O Mapa Completo

O que a Colômbia alcançou na música entre 1993 e 2025 não tem precedentes na história musical de qualquer outro país latino-americano de tamanho comparável. Em trinta anos, a Colômbia passou de ser conhecida no mundo principalmente pela violência para ser conhecida principalmente por sua música. Isso não é uma coincidência: é o resultado de gerações sucessivas de artistas que encontraram na canção o idioma com que podiam dizer ao mundo que a Colômbia era também — e acima de tudo — isso.

Shakira vendendo setenta milhões de álbuns. J Balvin sendo o artista mais ouvido do mundo no Spotify. Karol G estreando no número um da Billboard

espanhol da Billboard. Carlos Vives criando o primeiro Grammy Latino da Colômbia. ChocQuibTown levando o Pacífico colombiano ao mundo. E abaixo de todos eles, a cumbia de Totó la Momposina, o vallenato de Escalona, o bambuco de Villamil, a salsa de Joe Arroyo e Jairo Varela: a música colombiana como o sistema mais complexo e mais rico que a América Latina produziu em qualquer território comparável.

  1. Juanes com vinte e três Grammys Latinos. Aterciopelados no top 10 do rock em

Nota Editorial: Em 2023, Mañana Será Bonito de Karol G se tornou o primeiro álbum em espanhol de uma artista feminina a estrear no número um da Billboard 200 — a lista mais importante da indústria fonográfica norte-americana. Esse marco coroou três décadas de conquista musical colombiana que começaram quando Shakira lançou Pies Descalzos em 1995 e Carlos Vives ganhou o primeiro Grammy Latino da Colômbia. O arco completo — de Barranquilla a Medellín, do vallenato ao reggaeton, da costa caribenha às comunas de Antioquia — é a história mais extraordinária de exportação cultural que a Colômbia já protagonizou em toda a sua história.

10 · 1 en DoReSol

Top 10 Álbuns e Projetos Essenciais da Colômbia no Século XXI

#CanciónArtista
01

Energia

J Balvin

2016

Pendiente
02

Amanhã Será Bonito

Karol G

2023

Pendiente
03

Pretty Boy, Dirty Boy

Maluma

2015

Pendiente
04

Vibras

J Balvin · 2018

2018

Álbum
05

F.A.M.E.

Maluma

2018

Pendiente
06

Papi Juancho

Maluma

2020

Pendiente
07

Cores

J Balvin

2020

Pendiente
08

A Última Turnê do Mundo

Bad Bunny feat. J Balvin (OASIS)

2019

Pendiente
09

Ferxxocalipse

Feid

2023

Pendiente
10

A Vida é Uma

Karol G

2021

Pendiente

Encerramento da Série Colômbia

Com este capítulo, encerra-se a Série Musical Colômbia de Doresol: seis artigos, seis gêneros, quatro séculos de história musical que vão desde os tambores africanos da costa caribenha até o reggaeton das comunas de Medellín.

A Colômbia é, junto com Cuba e Brasil, o país latino-americano com maior diversidade e profundidade musical por unidade de superfície. A cumbia, mãe dos ritmos, o vallenato que García Márquez chamou de seu romance, o bambuco que é a alma silenciosa do interior, a salsa caleña que reinventou um gênero até torná-lo seu, o rock que nomeou a violência para sobreviver, e o reggaeton que transformou o trauma em festa global: seis gêneros que são também seis formas diferentes de ser colombiano, seis respostas diferentes à mesma pergunta de como se vive em um país de tanta beleza e complexidade.

A próxima série: México.

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Encerramento da Série · Colômbia

Com este capítulo fechamos a série de 6 partes sobre Colômbia. Obrigado por lê-la.

Próxima série · em breve Voltar ao Atlas

A série completa

Colômbia

Cumbia, vallenato, salsa colombiana, champeta. A música para dançar e chorar.

Capítulo 6 de 6 6 de 6 publicados
  1. CAP 01

    🇨🇴 Cap 01

    A Cumbia: A Rainha dos Ritmos Caribenhos (Século XVIII–presente)

    A Colômbia é, em termos musicais, um dos países mais diversos do mundo. Sua

    10 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇨🇴 Cap 02

    O Vallenato: O Acordeão que Contou a História de um País (1870–presente)

    O vallenato tem uma paradoxa em seu coração: seu instrumento principal — o acordeão diatônico — é europeu. Foi inventado em Viena em 1829 pelo austríaco Cyrill Demian. Chegou às co

    11 min 27/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇨🇴 Cap 03

    A Música Andina e o Bambuco: A Alma do Interior (Século XIX–presente)

    Quando o mundo pensa em música colombiana, pensa na costa do Caribe: cumbia, vallenato, tambores, o calor do Atlântico. Mas a Colômbia tem outra metade musical que vive no interior

    10 min 27/05/2026 Ler

  4. CAP 04

    🇨🇴 Cap 04

    A Salsa Caleña: A Cidade que Dança Mais Rápido que Ninguém (1960–presente)

    A salsa não nasceu na Colômbia. Nasceu em Nova York nos anos sessenta, na encruzilhada entre a música afro-caribenha — o son cubano, o mambo, a guaracha, o guaguancó — e o jazz e o

    10 min 27/05/2026 Ler

  5. CAP 05

    🇨🇴 Cap 05

    Rock, Pop e Hip-Hop: A Geração que Conectou a Colômbia com o Mundo (1985–presente)

    Os anos noventa na Colômbia foram ao mesmo tempo os piores e os mais criativos. O país vivia uma guerra em múltiplas frentes: o narcotráfico dos cartéis de Medellín e Cali em sua f

    11 min 27/05/2026 Ler

  6. CAP 06 você está aqui

    🇨🇴 Cap 06

    O Século XXI: Medellín, Capital Mundial do Reggaeton (2000–presente)

    Medellín fez com o reggaeton o que Cali fez com a salsa cinquenta anos antes: pegou um gênero que não havia nascido lá, desmontou-o para descobrir o que havia dentro e o remontou c

    10 min 27/05/2026 você está aqui

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