🇧🇷 BR · Brasil · Capítulo 4 de 6
MPB: A Canção Como Resistência e Como Identidade (1965–1985)
MPB — Música Popular Brasileira. As três siglas parecem simples, quase administrativas. Mas por trás delas está um dos movimentos culturais mais ricos, politicamente engajados e artisticamente sofisticados da história da América Latina no século XX. Um movimento que nasceu de uma tensão, cresceu sob uma ditadura e sobreviveu graças à obstinação de músicos, poetas e cantores que entenderam que uma canção bem construída pode ser, em certas circunstâncias, um ato de resistência tão eficaz quanto qualquer outro.
O termo tem uma origem precisa. A primeira canção rotulada como MPB —então chamada Música Popular Moderna, MPM— foi "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior em 1965. A partir desse momento, o termo começou a circular para designar algo que não era exatamente a bossa nova —demasiado refinada, demasiado de classe média— nem o samba tradicional —demasiado ligado ao carnaval—, mas uma nova síntese que incorporava ambas as tradições mais tudo o que chegava de fora: o folk norte-americano, a nova canção latino-americana, o rock, o jazz, a música nordestina.
O que unificava esse espaço tão diverso não era o som, mas a atitude: uma seriedade artística e um compromisso com a realidade brasileira que distinguia seus praticantes da música de puro entretenimento.
O contexto: cantar sob vigilância
O Brasil vivia sob a ditadura militar instalada em 1964. O regime tinha um aparato de censura ativo que revisava letras, proibia canções, vigiava artistas e, nos casos mais graves, prendia, torturava e exilava. Os festivais de televisão — o palco onde a MPB havia se consagrado — foram gradualmente controlados e depois suprimidos. As rádios recebiam listas de canções proibidas. Os estúdios de gravação eram visitados por censores.
Nesse contexto, a MPB desenvolveu uma técnica que a distingue de qualquer outra corrente musical do continente: o uso sistemático da metáfora como escudo. As letras de Chico Buarque, Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc são documentos de dupla leitura: na superfície, falam de amor, natureza, vida cotidiana; no fundo, falam de repressão, medo, corpos desaparecidos, exílio, esperança cifrada. Ler essas letras sem conhecer o contexto histórico é como ler um código sem a chave.
A ditadura sabia disso. Os serviços de inteligência fichavam os músicos com detalhe obsessivo. O "inimigo número um" do regime no campo musical, segundo documentos desclassificados, era Chico Buarque de Hollanda.
Chico Buarque: o escritor que usou canções como bisturi
Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro em 1944, filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, autor de Raízes do Brasil, um dos textos fundadores do pensamento social brasileiro. Essa herança intelectual é visível em cada verso que Chico escreveu: seu trabalho não é o de um letrista que adorna melodias, mas o de um escritor que usa a canção como forma literária.
Seu primeiro grande sucesso, "A Banda" (1966), venceu o Festival de Música Popular Brasileira empatada com "Disparada" de Geraldo Vandré. Era uma canção aparentemente inocente, quase infantil, sobre uma banda de música que passa pela rua. O país a adotou como hino de sua própria inocência perdida.
O que veio depois foi muito mais sombrio e maior. Construção (1971) é considerada uma das canções mais perfeitas da música popular em qualquer idioma. A letra narra o último dia de um operário da construção que morre em um acidente, mas a forma como está construída — com adjetivos intercambiáveis que se deslocam de estrofe em estrofe como peças de um quebra-cabeça — faz com que a arbitrariedade da morte ressoe como uma crítica ao sistema que produz essa morte. O álbum homônimo é um monumento.
"Cálice" (escrita em 1973 com Gilberto Gil, publicada apenas em 1978 após cinco anos de censura) é talvez sua obra-prima política. O título soa foneticamente igual a "cale-se" — cale-se — em português. A letra diz "Pai, afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue" — Pai, afasta de mim este cálice / de vinho tinto de sangue. A dupla leitura era tão óbvia que a própria gravadora cortou os microfones quando Chico e Gil tentaram apresentá-la ao vivo em 1973, antes mesmo de a censura oficial atuar.
Para escapar da censura, Chico chegou a criar um heterônimo — Julinho da Adelaide — sob cujo nome publicou canções que sabia que seriam proibidas se aparecessem com seu nome real. Quando a ditadura descobriu o truque, a indignação foi dupla: não apenas pelas letras, mas pelo grau de inteligência que o engano revelava.
Chico sobreviveu à ditadura, continuou escrevendo, ganhou o Prêmio Camões — o mais alto da língua portuguesa — e em 2019 publicou Essa Gente, um álbum que retomava a tradição com a mesma precisão de sempre. É uma das carreiras mais longas e coerentes de toda a música popular contemporânea.
Elis Regina: a voz que era um instrumento
Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre em 1945 e morreu em São Paulo em 19 de janeiro de 1982, aos trinta e seis anos. No estádio onde foi realizado seu velório, cem mil pessoas se reuniram para se despedir dela. Nenhum outro músico brasileiro recebeu tal tributo.
Ela era a melhor cantora do Brasil do século XX. Não no sentido técnico restrito — embora sua técnica fosse impecável — mas no sentido mais amplo: a capacidade de habitar uma canção por dentro, de encontrar em cada palavra o gesto emocional exato, de transformar a interpretação em algo que não se parece com nenhuma outra interpretação. A NPR a incluiu em sua lista das cinquenta melhores vozes da história ao lado de Billie Holiday e Ella Fitzgerald. A primeira brasileira nessa lista.
Ela surgiu dos festivais — venceu o primeiro em 1965 com "Arrastão" — e desde então era o nome que toda a geração de compositores da MPB queria em seus discos. Chico Buarque, Milton Nascimento, João Bosco, Ivan Lins, Belchior: todos passaram por sua voz e saíram transformados. Ela também era uma reveladora: Falso Brilhante (1976) lançou a carreira de Belchior ao incluir "Como Nossos Pais" e "Velha Roupa Colorida" em um momento em que ninguém o conhecia.
Seu álbum Elis & Tom (1974) — gravado em Los Angeles com Tom Jobim em nove dias de fevereiro e março — é um dos discos mais perfeitos da história da música brasileira. O dueto em "Águas de Março" — com Jobim caindo na gargalhada no final, incapaz de conter a emoção do que estavam fazendo — é um momento de pura felicidade que poucas gravações em qualquer idioma alcançaram.
"O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco e Aldir Blanc, 1979) foi seu último grande legado político: o hino não oficial da Campanha pela Anistia, que pedia o retorno dos exilados da ditadura. A imagem do palhaço Carlitos — Charlie Chaplin — caminhando na corda bamba na letra é uma metáfora de todo o Brasil tentando manter o equilíbrio sobre o abismo.
Ela morreu de parada cardíaca provocada pela combinação de cocaína e álcool. Era a mesma intensidade que a fazia grande no palco que a destruiu em privado. O Brasil não se recuperou totalmente.
Milton Nascimento e o Clube da Esquina: Minas Gerais como universo
Se Chico Buarque e Elis Regina representavam o eixo Rio–São Paulo da MPB, Milton Nascimento e o Clube da Esquina representavam algo diferente: a interioridade de Minas Gerais, com sua tradição barroca, sua paisagem de montanhas e cidades coloniais, sua música religiosa, sua melancolia particular.
Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro em 1942, mas cresceu em Três Pontas, Minas Gerais, e foi em Belo Horizonte que ele começou a construir, com um grupo de amigos reunidos no bairro Santa Teresa, a experiência coletiva que acabaria sendo chamada de Clube da Esquina. Os nomes centrais eram Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta e Wagner Tiso, entre outros. Não era exatamente uma banda, mas uma comunidade de criadores com uma linguagem compartilhada: uma mistura de MPB, rock, jazz, música hispano-americana e música erudita barroca que soava como nada do que existia no Brasil naquela época.
O álbum duplo Clube da Esquina (1972) — coautorado com Lô Borges — é para muitos o maior álbum da história da música brasileira. Tem uma profundidade harmônica que dialoga com o jazz de Bill Evans, uma emotividade que vem diretamente do interior mineiro, e letras — de Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Márcio Borges — que carregam a densidade de uma época que não podia ser nomeada diretamente. "Nada Será Como Antes", "Cais", "O Trem Azul", "San Vicente": canções que se tornaram parte do patrimônio emocional coletivo do Brasil.
A voz de Milton — com aquele falsete inconfundível, aquela capacidade de passar do sussurro ao grito sem perder a afinação — foi tão influente fora do Brasil quanto dentro. Wayne Shorter, Herbie Hancock e Pat Metheny gravaram com ele. Paul Simon o citou como uma de suas referências. "Coração de Estudante" tornou-se o hino das manifestações por eleições diretas em 1984 — as Diretas Já — cantado por multidões que pediam o fim da ditadura.
A Geografia Diversa da MPB
Uma das características mais notáveis da MPB foi seu caráter federal: ao contrário da bossa nova — que era quase exclusivamente carioca — a MPB absorveu talentos de todo o território nacional.
Do Ceará vieram Belchior — compositor de uma intensidade verbal avassaladora —, Fagner e Ednardo. De Pernambuco, Alceu Valença. Da Paraíba, Elba Ramalho e Zé Ramalho. Da Bahia, além dos já mencionados tropicalistas, Maria Bethânia — irmã de Caetano Veloso — que construiu uma carreira de intérprete de uma gravidade dramática sem igual. Do Rio Grande do Sul veio Elis, mas também Vitor Ramil, décadas depois.
Essa dispersão geográfica era também uma declaração política: a MPB não pertencia a nenhum centro cultural específico. Pertencia a todo o Brasil, em toda a sua diversidade.
O Retorno: Abertura e Redemocratização
O processo de abertura —a abertura política gradual que levou ao fim da ditadura em 1985— liberou energias que estiveram reprimidas por duas décadas. Os exilados voltaram: Caetano e Gil retornaram de Londres em 1972 e retomaram suas carreiras com uma nova maturidade. Chico Buarque recuperou o uso pleno de seu nome. Os festivais de música voltaram, embora nunca com a mesma força dos anos sessenta.
A MPB dos anos oitenta foi menos urgente politicamente e mais diversificada estilisticamente. Sem a pressão da censura, os artistas podiam explorar sem a necessidade de se esconder. O resultado foi uma cena mais fragmentada, mas igualmente rica, onde conviviam o samba sofisticado de João Bosco, o pop de Ivan Lins, o rock dos Paralamas e dos Titãs, e a continuação das carreiras de Chico, Milton e os demais veteranos.
A MPB havia feito o que precisava fazer: acompanhar o Brasil da escuridão da ditadura até a luz incerta da democracia, sem perder a dignidade no caminho.
10 · 1 en DoReSol
Top 10 Álbuns Essenciais da MPB
Clube da Esquina
Milton Nascimento & Lô Borges
1972

Construção
Chico Buarque · 1971
1971
Elis & Tom
Elis Regina & Tom Jobim
1974
Falso Brilhante
Elis Regina
1976
Clube da Esquina 2
Milton Nascimento
1978
Apesar de Você
Chico Buarque
1978
Essa Mulher
Elis Regina
1979
Acabou Chorare
Novos Baianos
1972
Milton
Milton Nascimento
1976
Personalidade
Maria Bethânia
1986
A série completa
Brasil
Samba, bossa nova, MPB, tropicalismo. A cultura musical mais densa do continente.
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CAP 01
🇧🇷 Cap 01
O Samba: O Pulsar de um País (1917–presente)
O samba não nasceu em um estúdio de gravação nem em uma sala de concertos. Nasceu em
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CAP 02
🇧🇷 Cap 02
A Bossa Nova: Quando o Brasil Sussurrou e o Mundo Parou (1958–1967)
No final dos anos cinquenta, nos apartamentos da zona sul do Rio de Janeiro —Copacabana, Ipanema, Leblon— um grupo de jovens músicos se reunia frequentemente para tocar e ouvir. Nã
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CAP 03
🇧🇷 Cap 03
Tropicália: O Grito Elétrico Contra a Ditadura (1967–1969)
Para entender a Tropicália, é preciso primeiro entender o Brasil de 1964. Em 1º de abril daquele ano, as Forças Armadas realizaram um golpe de Estado que derrubou o presidente João
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🇧🇷 Cap 04
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CAP 05
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O Rock Brasileiro: A Eletricidade que o Brasil Sempre Precisou (1982–presente)
Em 1982, o Brasil não tinha um rock próprio que pudesse competir em energia e originalidade com o que a MPB e a bossa nova haviam construído nas décadas anteriores. Quatro anos dep
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CAP 06
🇧🇷 Cap 06
Manguebeat e Hip-Hop: Quando a Periferia Tomou a Palavra (1991–presente)
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