🇧🇷 BR · Brasil · Capítulo 1 de 6
O Samba: O Pulsar de um País (1917–presente)
O samba não nasceu em um estúdio de gravação nem em uma sala de concertos. Nasceu em
o quintal de Tia Ciata, uma curandeira baiana que havia migrado para o Rio de Janeiro e cuja casa no bairro da Pequena África, no centro da cidade, era um dos poucos lugares onde os negros libertos podiam se reunir, tocar e cantar sem que a polícia os dispersasse. Corria a primeira década do século XX, e o samba era ainda uma prática perseguida: as autoridades o consideravam música lasciva, vulgar, incompatível com o projeto de modernização do país.
Suas raízes são antigas e múltiplas. Vêm da samba de roda da Bahia —declarada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO— que por sua vez descende do jongo, do lundu e de outros ritmos afro-brasileiros que os escravizados trouxeram do Congo, de Angola e de outras regiões da África subsaariana. Quando os baianos migraram em massa para o Rio no final do século XIX após a abolição da escravidão em 1888, levaram consigo essa herança musical e a transformaram em contato com a cidade, com o carnaval carioca e com os instrumentos que encontraram disponíveis: o violão de sete cordas, o cavaquinho, o pandeiro, o tamborim.
O resultado foi um ritmo novo: sincopado, coletivo, dançante, profundamente urbano e ao mesmo tempo profundamente africano. Um ritmo que o Brasil nunca pôde ignorar completamente, embora durante décadas tenha tentado.
1917: o primeiro registro
A primeira gravação reconhecida como samba data de 21 de janeiro de 1917. Chama-se Pelo Telefone, é atribuída ao violonista Donga —Ernesto dos Santos— e foi registrada na Biblioteca Nacional do Brasil. A história dessa canção é em si mesma um espelho de como funcionava o samba: era uma criação coletiva, nascida nas rodas de Tia Ciata, que Donga registrou sozinho para o escândalo dos demais participantes. A disputa sobre a autoria nunca foi totalmente resolvida. Tampouco importa muito: o que importa é que Pelo Telefone se tornou o maior sucesso do carnaval carioca de 1917, e que com sua popularidade o termo "samba" começou a circular na mídia e na classe média urbana que até então o havia rejeitado.
As escolas de samba: quando a favela organizou a sua própria epopeia
Na década de vinte nasceu uma instituição que transformaria o samba para sempre: as escolas de samba. A primeira foi Deixa Falar, fundada em 1928 no bairro Estácio. Nos anos seguintes surgiriam aquelas que definiriam a identidade musical do Rio durante o século XX: a Estação Primeira de Mangueira, fundada entre outros por Cartola em 1928; a Portela, surgida do bloco Vai Como Pode por volta do mesmo ano; Salgueiro, Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense. Cada escola tinha o seu bairro, a sua cor, a sua história, a sua comunidade.
O samba-enredo —o samba narrativo que acompanha o desfile de carnaval— surgiu nos anos trinta e transformou o carnaval do Rio em algo que não existia em nenhum outro lugar do mundo: um espetáculo de massas onde a música, a coreografia, as alegorias visuais e a narração histórica se fundiam num evento de vários dias que mobilizava bairros inteiros durante todo o ano. Compor o samba-enredo vencedor era —e continua sendo— a maior honra a que um sambista pode aspirar.
O presidente Getúlio Vargas compreendeu o poder político do samba e nas décadas de trinta e quarenta o promoveu ativamente como símbolo de identidade nacional, o que teve o efeito paradoxal de conferir legitimidade institucional a uma música nascida na resistência e na marginalidade. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, fundada em 1936, levou o samba a todo o país. Nomes como Noel Rosa, Ary Barroso e Carmen Miranda —que o levaria até Hollywood— construíram nessas décadas o cânone da era dourada do gênero.
Cartola: o poeta da Mangueira
Angenor de Oliveira, conhecido como Cartola, é provavelmente o nome mais importante de toda a história do samba. Nasceu em 1908 no Rio de Janeiro, cresceu no Morro da Mangueira —então uma favela em formação— e foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira em 1928. Durante décadas compôs com uma delicadeza poética e uma sofisticação harmônica sem precedentes no gênero. No entanto, sua carreira discográfica foi tardia e acidentada: passou anos no anonimato trabalhando como lavador de carros antes que o movimento de redescoberta do samba dos anos sessenta o devolvesse ao centro da cena.
Gravou seu primeiro álbum homônimo apenas em 1974, aos 65 anos. Seguiu-se um segundo Cartola em 1976 —classificado na 8ª posição da lista histórica da Rolling Stone Brasil— e outros discos até sua morte em 1980. Nesses poucos anos de carreira discográfica formal, deixou uma obra que a crítica equipara à dos grandes da canção popular mundial: letras onde o amor, a melancolia, a beleza do Rio cotidiano e a dignidade dos humildes conviviam com uma música de sutileza extraordinária. "As Rosas Não Falam", "O Mundo é um Moinho", "Acontece" são canções que pertencem ao patrimônio emocional do Brasil.
O redescobrimento dos anos sessenta e setenta
A chegada da bossa nova em 1958 teve um efeito paradoxal sobre o samba tradicional: a princípio pareceu eclipsá-lo, mas seus músicos —muitos de classe média com formação em jazz— começaram a voltar o olhar para as favelas e a descobrir as gerações de sambistas que haviam composto durante décadas sem reconhecimento nem gravações.
O Zicartola, o restaurante que Cartola e sua esposa Zica abriram nos anos sessenta no centro do Rio, tornou-se o ponto de encontro onde a intelectualidade da bossa nova conheceu os mestres do samba de raiz: Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Zé Keti, Paulinho da Viola. Foi um encontro que mudou o curso de ambas as tradições.
Clementina de Jesus merece uma menção especial. Começou sua carreira profissional aos 63 anos, descoberta cantando em uma taberna pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho. Sua voz —profunda, áspera, carregada de todo o peso da tradição afro-brasileira— era como ouvir a África diretamente. Gravou apenas quatro álbuns solo antes de morrer em 1987, mas sua influência sobre gerações de cantores foi imensa.
Paulinho da Viola, nascido em 1942, foi a ponte entre a velha guarda e a modernidade. Criado em um ambiente musical —seu pai era violonista e em sua casa ensaiavam Pixinguinha e Jacob do Bandolim— construiu uma obra que aprofundou a sofisticação harmônica do samba sem jamais abandonar seu espírito. Seu disco Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida (1970) é um dos grandes álbuns da história do gênero.
Nos anos setenta, Beth Carvalho —a madrinha do pagode— e Clara Nunes devolveram o samba às rádios com produções mais acessíveis, mas sem trair a raiz. Martinho da Vila trouxe o samba de partido alto com uma elegância e um humor próprios. A década foi de reconquista: o samba voltava a ser a música do Brasil.
O pagode: o samba se renova a partir dos subúrbios
No início dos anos oitenta, quando o rock brasileiro e a disco music haviam reduzido a presença do samba nos meios de comunicação de massa, um novo movimento emergiu dos subúrbios da zona norte do Rio de Janeiro: o pagode. O grupo Fundo de Quintal foi o seu núcleo criador, incorporando novos instrumentos — o banjo de sete cordas, o tantã — e uma linguagem mais informal e festiva que se conectava com as novas gerações. Beth Carvalho foi a grande difusora do movimento, levando para os seus festivais músicos como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Jovelina Pérola Negra.
O pagode foi o samba dos anos oitenta e noventa: massivo, alegre, às vezes criticado por simplificar a tradição, mas vital para manter o gênero vivo em tempos em que a indústria apontava em outras direções.
O samba hoje: tradição viva
O samba do século XXI convive em múltiplas dimensões simultâneas: as escolas de samba continuam sendo o maior espetáculo popular do planeta durante o carnaval do Rio; o samba de raiz tem um público culto e fiel que lota pequenos bares e teatros; o pagode derivou em variantes mais comerciais, mas de enorme apelo; e uma nova geração de compositores e intérpretes —Teresa Cristina, Diogo Nogueira, Roberta Sá, Seu Jorge— mantém o diálogo entre tradição e contemporaneidade com uma honestidade e qualidade que garantem a continuidade.
O samba é, antes de um gênero musical, uma forma de estar no mundo. Uma filosofia de corpo e comunidade que o Brasil construiu durante séculos a partir de suas margens e que acabou sendo o coração de sua identidade. Nenhum outro país latino-americano tem algo comparável em termos de profundidade histórica, complexidade cultural e vigência simultânea.
Seleção editorial
Top 10 Álbuns Essenciais do Samba
- 1
Cartola
Cartola
1974
- 2
Cartola
Cartola
1976
- 3
Paulinho da Viola
Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida
1970
- 4
Paulinho da Viola
Gente da Antiga
1981
- 5
Conjunto Rosa de Ouro
Rosa de Ouro
1965
- 6
Clementina de Jesus
Clementina, Cadê Você?
1970
- 7
Nelson Cavaquinho
Nelson Cavaquinho
1973
- 8
Beth Carvalho
Como Eu Quero
1976
- 9
Martinho da Vila
Festa de Música
1972
- 10
Velha Guarda da Portela
A Voz do Samba
1970
Próximo capítulo — Série Brasil: A Bossa Nova: quando o Brasil sussurrou e o mundo parou para ouvir (1958–1967).
Sobre esta série · 6 entregas
Brasil.
Samba, bossa nova, MPB, tropicalismo. A cultura musical mais densa do continente.
-
EP 01
O Samba: O Pulsar de um País (1917–presente) DoReSol · 8 min · publicado 26/05/2026
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EP 02
La Bossa Nova: Cuando Brasil Susurró y el Mundo se Detuvo (1958–1967) DoReSol · 8 min
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EP 03
La Tropicália: El Grito Eléctrico Contra la Dictadura (1967–1969) DoReSol · 8 min
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La MPB: La Canción Como Resistencia y Como Identidad (1965–1985) DoReSol · 10 min
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