🇵🇾 PY · Paraguai · Capítulo 6 de 6

A Música Paraguaia Contemporânea: A Geração que Mistura Tudo (2000–atualidade)

Há um antes e um depois na história da música popular paraguaia contemporânea, e esse ponto de inflexão não é um disco nem um artista: é o internet.

10 min de leitura publicado 28/05/2026 31 leituras por DoReSol
A Música Paraguaia Contemporânea: A Geração que Mistura Tudo (2000–atualidade)

Antes das plataformas de streaming e as redes sociais, a cena musical paraguaia existia em grande medida para si mesma: tocava nos circuitos locais, distribuía cassetes e CDs de mão em mão, dependia das poucas rádios que lhe davam espaço, e olhava para Argentina ou Brasil para saber o que estavam fazendo os outros. A pergunta que se faziam os músicos paraguaios desde os anos oitenta era sempre a mesma: como chegar a um público que não sabe que existis?

A resposta chegou com Spotify, YouTube e as redes sociais. De repente, uma banda de Assunção podia acumular reproduções no México, Espanha e Irlanda sem ter pisado esses países. Podia construir uma audiência latino-americana desde a terra colorida do Departamento da Cordilheira ou desde os bairros de uma cidade que o resto do continente ainda tinha dificuldade de localizar no mapa.

A geração de artistas paraguaios que floresceu nos dois mil dez e vinte foi a primeira a ter esse acesso igualitário ao mercado global. E o que fizeram com ele foi extraordinário.

Kchiporros: a banda que colocou o Paraguai no mapa do pop latino-americano

Kchiporros nasceu em 2006 em um bairro de Assunção. Desde o princípio foi difícil de classificar: seu primeiro EP misturava ska, cumbia, reggae, pop e rock com uma naturalidade que deixava os que esperavam encontrar uma identidade clara surpresos e encontravam algo que não se encaixava em nenhuma categoria estabelecida.

Eles o descreviam sem complexos: "somos um bicho raro." No Paraguai de 2006, isso ainda era uma advertência. Na cena latino-americana dos dez, tornou-se sua vantagem.

Seu primeiro álbum Guaraní Cool (2007) — produzido por Martín "La Moska" Lorenzo e Mariano Franceschelli, integrantes de Los Auténticos Decadentes argentinos, que os haviam conhecido em festivais e adotado com entusiasmo — os colocou no radar regional imediatamente. O nome do disco não era uma metáfora: era uma declaração de identidade. A palavra guaraní — a língua, a tradição, a terra colorada do Paraguai profundo — podia ser cool. Podia ir no título de um álbum de ska pop e ninguém precisava se desculpar por isso.

Em 2008, giraram por Espanha — Bilbao, Barcelona, Madrid — representando o Paraguai no Festival Latino Música de las Américas, onde ganharam o prêmio Grupo Revelação. Em 2010, lançaram Kchiporros 3D. Em 2012, Sr. Pombero — o pombero é o duende do folclore guaraní, o ser do monte que cuida dos animais e assusta as crianças desobedientes — e o álbum os transformou em fenômeno massivo dentro do Paraguai. Em 2014, Siente el Movimiento os estabeleceu como a banda mais popular do país na época.

O sétimo álbumTodo el Mundo Está Kaliente! (2025) — foi produzido por Toy Selectah, o DJ e produtor mexicano que trabalhou com Calle 13 e J Balvin, e misturou bolero, glitch e pop latino em uma proposta que continuava inconfundivelmente paraguaia, embora soasse como qualquer coisa menos do que o mundo esperava de Paraguay.

Em vinte anos de carreira, Kchiporros girou por Latinoamérica e Europa, gravou em Buenos Aires com Los Auténticos Decadentes e em México com produtores do topo regional, e demonstrou que uma banda de um bairro de Asunción podia construir uma carreira internacional sem deixar de ser exatamente o que sempre tinha sido: um bicho raro que não pedia permissão a ninguém para misturar tudo.

Salamandra: o rock que nasceu em uma estação de trem abandonada

Em agosto de 2000, na antiga estação do ferroviário de Ypacaraí — o mesmo lago das guaranias, a trinta quilômetros de Assunção — um grupo de jovens começou a ensaiar no prédio abandonado. As salamandras que viviam entre os escombros deram o nome.

Salamandra construiu, a partir desse lugar improvável, uma carreira de mais de vinte e cinco anos que os tornou numa das bandas de rock mais sólidas do Paraguai. Sua música mistura o rock moderno com elementos do folk paraguaio — a cadência da polca, o lirismo da guarania, a melancolia que o guaraní chama ñe'ã — com letras que falam de amor, perda e introspecção com a directa que a música popular paraguaia sempre teve.

Seu primeiro demo, Cianuro (2004), tornou-se involuntariamente o primeiro clássico pirata do rock paraguaio: alguém incluiu-o em um compilatório MP3 que circulou por toda a cena com os cinco temas de Salamandra repetidos duas vezes por erro — fazendo com que a banda aparecesse com dez músicas quando só tinha cinco. Essa circulação involuntária os tornou conhecidos antes mesmo de poderem planejá-lo.

O primeiro disco oficial, Todo en tu Cabeza (2010), os estabeleceu formalmente. El Inconsciente Roba Discos (2017) — produzido por Tito Fargo, que já trabalhou com No Te Va Gustar, Divididos e Héroes del Silencio, com mix de Walter Chacón de Los Fabulosos Cadillacs — os levou ao nível regional. Fizeram shows como teloneros de Guns N' Roses, Garbage e Charly García. Participaram do Festival do Lago Ypacaraí — o lago que inspirou a guarania mais internacional do mundo — fechando um círculo geográfico e simbólico que nenhum outro ato musical paraguaio conseguia traçar.

Ypacaraí se chama hoje, com razão, a Cidade do Rock Pynandí — rock descalço, em guaraní: o rock que caminha na terra sem sapatos.

A música urbana em guaraní: o salto mais improvável

A história mais surpreendente da música paraguaia contemporânea não está no rock nem no pop. Está no que aconteceu quando o guaraní encontrou o trap e o hip-hop.

O guaraní é uma língua de uma musicalidade excepcional: suas palavras são longas, sonoras, cheias de vogais que se encadeiam de uma forma que as torna naturalmente rítmicas. Os rappers e cantores de trap paraguaios que começaram a trabalhar em guaraní a partir de dois mil dez descobriram que a língua se adaptava ao hip-hop com uma facilidade que o espanhol — mais anguloso, mais rápido — nem sempre tinha.

Tekovete — cujo nome em guaraní significa "aquele que vive de verdade" — é a figura mais representativa dessa corrente: um artista que raps em guaraní sobre beats de trap e cumbia, misturando os dois idiomas do país em um mesmo verso com a naturalidade de quem cresceu sendo bilingue sem ter escolhido ser. Seu álbum Cumbia Abducida é o documento mais completo do que acontece quando a língua mais antiga do Paraguai se encontra com os gêneros mais novos do planeta.

Guerrillasoul e Koa Ha'e ("eles mesmos" em guaraní) representam outra vertente da mesma corrente: rap em guaraní com produção contemporânea, letras que falam de identidade, do que significa ser paraguaio no século XXI, da tensão entre modernidade e tradição em um país que tem um pé em cada um desses mundos.

Los Propya Awards: a indústria que se constrói de dentro

Em 2021 nasceu no Paraguai o primeiro sistema formal de reconhecimento à música nacional contemporânea: os Propya Awards — nome que combina propya, do guaraní e o espanhol informal paraguaio, que significa "próprio" — organizados pela Sociedade de Gestão de Productores Fonográficos do Paraguai (SGP), a única entidade no país aprovada pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) para emitir certificações de streaming.

Os prêmios — chamados Arasunu, que em guaraní significa "o som do trovão" — reconhecem desde 2021 os melhores álbuns, músicas, videoclipes e artistas da música nacional em todas as suas categorias: rock, pop, guarania, hip-hop, reggaetón, balada, eletrônica. A cerimônia de 2025 teve três cenários simultâneos, polcas e guaranias junto ao reggaetón e trap, um DJ misturando versão eletrônica de "Mis Noches sin Ti" de Demetrio Ortiz junto aos artistas urbanos mais jovens do país.

Em 2024 a banda Los Verduleros se tornou os primeiros artistas paraguaios a alcançar a certificação Platino da IFPI por reproduções em streaming. O dado parece técnico, mas é histórico: significa que a indústria musical paraguaia já tem o tamanho suficiente para produzir artistas com métricas comparáveis aos padrões internacionais.

A nova geração: a mistura como declaração

O que define a música paraguaia contemporânea dos dois mil e vinte não é um gênero, mas uma atitude: a liberdade de misturar sem desculpas.

A guaraní convive com o trap. A polca convive com o pop eletrônico. O guaraní convive com o espanhol e, às vezes, com o inglês no mesmo verso. Luigi Manzoni — vencedor do Arasunu ao Álbum do Ano nos Propya Awards 2025 — mistura pop, folk e balada com referências guaraníes que seus fãs de vinte anos ouvem como algo completamente natural. Jazmín del Paraguay constrói pop com raízes folclóricas que circula tão confortavelmente no Spotify quanto nas rádios do interior. Próceres de Mayo — com o guitarrista e compositor Omar Ocampos — levam o rock pop progressivo para os palcos de Miami e Nova York.

Nenhum deles sente que tem que escolher entre ser paraguaio e ser contemporâneo. Essa tensão — que definiu as gerações anteriores, que obrigou os músicos dos anos sessenta a imitar o rock anglo-saxão para serem levados a sério e os dos anos setenta a se esconderem sob a ditadura — desapareceu.

O arco completo da série

Essa série começou com o arpa que chegou nas malas dos jesuítas e terminou com um rapper cantando em guaraní sobre beats de trap gravados em Assunção e ouvidos em Madrid e Cidade do México. São quinhentos anos de história musical e o mesmo idioma — o guaraní — atravessando todo o percurso, do purahéi asy dos povos rurais ao freestyle urbano dos bairros da capital.

Paraguai é o país mais silencioso da América Latina nos mapas culturais do continente. E, no entanto, produziu o guitarrista clássico mais grande da história do hemisfério, o gênero musical mais melancólico e mais belo que a região inventou no século XX, os primeiros dois Latin Grammy que o país ganhou, e hoje produz uma nova geração que mistura tudo isso com o mais contemporâneo do planeta, sem que a mistura lhe pareça contraditória.

O silêncio no mapa era uma omissão. A música sempre esteve lá.

Nota editorial: O guaraní tem uma palavra para o som que faz o trovão: arasunu. É a mesma palavra que os Propya Awards escolheram para nomear seus prêmios. Em guaraní, o trovão não é apenas barulho: é o céu falando, o aviso de que algo importante está para acontecer. Que a música contemporânea paraguaia leve esse nome em seus prêmios diz algo sobre como esse povo entende seu próprio arte: não como entretenimento menor, mas como o som de algo que vem.

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Top 10 Artistas e Álbuns da Música Paraguaia Contemporânea

#CanciónArtista
01

Guaraní Cool

Kchiporros

2007

Pendiente
02

Todo el Mundo Está Kaliente!

Kchiporros

2025

Pendiente
03

El Inconsciente Roba Discos

Salamandra

2017

Pendiente
04

Todo en tu Cabeza

Salamandra

2010

Pendiente
05

Cumbia Abducida

Tekovete

2020s

Pendiente
06

Sr. Pombero

Kchiporros

2012

Pendiente
07

Siente el Movimiento

Kchiporros

2014

Pendiente
08

Soldado de Papel

Próceres de Mayo

2025

Pendiente
09

Parte de Crecer

Kchiporros

2020

Pendiente
10

Propya Awards, Ceremonia 2025

Varios

2025

Pendiente

Encerramento da Série Paraguai

Com este capítulo encerra a Série Musical Paraguai da Doresol: seis capítulos que percorrem quinhetos anos de música, desde as Reducciones jesuíticas até os Propya Awards de 2025.

Paraguai é o caso mais extraordinário da música latino-americana: o país que mais tardou em ser ouvido e que, quando finalmente abriu as janelas, mostrou que dentro havia quinhetos anos de coisas para dizer. O arpa paraguaia, a guarania declarada Patrimônio da Humanidade, Barrios Mangoré como o melhor compositor de guitarra clássica de todos os tempos, Berta Rojas com os primeiros Latin Grammy do país, Kchiporros nos festivais do México e da Espanha, Tekovete rapping em guaraní sobre beats de trap.

Tudo isso é Paraguai. O continente tardou em ouvi-lo. Já não tem desculpa.

Próxima série: México.

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Encerramento da Série · Paraguai

Com este capítulo fechamos a série de 6 partes sobre Paraguai. Obrigado por lê-la.

Próxima série · em breve Voltar ao Atlas

A série completa

Paraguai

A polca paraguaia, a guarânia e a harpa india. Música mestiça em guarani e espanhol.

Capítulo 6 de 6 5 de 6 publicados
  1. CAP 01

    🇵🇾 Cap 01

    A Música Tradicional: Três Culturas, Um Só Instrumento (Século XVII–presente)

    O Paraguai é um paradoxo cultural. É o único país da América Latina com dois idiomas

    12 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇵🇾 Cap 02

    Agustín Pío Barrios Mangoré: O Paganini das Selvas (1885–1944)

    Há músicos que são grandes dentro de sua tradição. Há músicos que são grandes dentro de seu instrumento. E há músicos que são grandes de uma maneira que não precisa de adjetivos ne

    13 min 28/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇵🇾 Cap 03

    Berta Rojas: A Guitara que fala Guarani (1966–atualidade)

    Quando Agustín Pío Barrios Mangoré morreu em San Salvador em 1944, não deixou uma escola formal, não deixou uma instituição, e não deixou um método publicado que pudesse transmitir

    10 min 28/05/2026 Ler

  4. CAP 04

    🇵🇾 Cap 04

    A Guarani e suas Grandes Vozes: O Gênero que Falou para um Povo (1925–atualidade)

    A guarania nasceu de uma pergunta incómoda. Em 1925, José Asunción Flores — o jovem da Chacarita que havia chegado à Banda de Polícia de Assunção por um erro de inscrição e se havi

    10 min 28/05/2026 Ler

  5. CAP 05 Em breve

    🇵🇾 Cap 05

    El Rock y el Pop Paraguayo: Crecer Bajo la Tormenta (1960–presente)

    Hacer rock en el Paraguay de los años sesenta, setenta y ochenta era un ejercicio de obstinación pura. No había infraestructura: los instrumentos había que comprarlos en el exterio

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  6. CAP 06 você está aqui

    🇵🇾 Cap 06

    A Música Paraguaia Contemporânea: A Geração que Mistura Tudo (2000–atualidade)

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