🇵🇾 PY · Paraguai · Capítulo 3 de 6

Berta Rojas: A Guitara que fala Guarani (1966–atualidade)

Quando Agustín Pío Barrios Mangoré morreu em San Salvador em 1944, não deixou uma escola formal, não deixou uma instituição, e não deixou um método publicado que pudesse transmitir sua maneira de tocar. Deixou partituras dispersas, gravações em discos de 78 RPM conhecidas por poucos, e a memória dos seus discípulos salvadoreños — os doze Mangoreanos — que mantiveram viva a chama por décadas em um país que não era o seu.

10 min de leitura publicado 28/05/2026 27 leituras por DoReSol
Berta Rojas: A Guitara que fala Guarani (1966–atualidade)

No Paraguai, o país que havia produzido o maior guitarrista da América Latina, estava apenas a arder. A Guerra da Tríplice Aliança havia devastado o país no século XIX. A ditadura de Alfredo Stroessner — que durou de 1954 a 1989 — havia produzido décadas de isolamento cultural que dificultavam a formação de músicos com projeção internacional. O nome de Barrios circulava nos conservatórios locais, mas sem a ressonância que merecia.

Foi uma mulher nascida em Assunção em 1966 quem fechou esse círculo: quem tomou a herança de Barrios, estudou-a com a profundidade necessária, levou-a aos palcos de todo o mundo e devolveu-a ao país que a havia produzido com os dois primeiros Grammy Latin da história paraguaia nas mãos.

Asunción, 1966: a menina que começou com a guitarra

Berta Rojas nasceu em 23 de setembro de 1966 em Asunción. A cidade que, naquela época, ainda vivia sob a ditadura de Stroessner era, no entanto, uma cidade musical: a guarania tocava nas rádios, o arpa paraguaia era ubíqua nas festas populares, e nos conservatórios — o principal deles fundado em 1909 — ensinava-se a tradição clássica europeia com uma seriedade que a modéstia do país tendia a ocultar.

Berta começou com a guitarra antes do piano. Não foi por uma decisão pedagógica, mas por uma razão mais simples: seu irmão mais velho a ensinou primeiro a tocar a guitarra, e esse instrumento a cativou de uma forma que nenhum outro conseguiu substituir desde então. "Acredito que todos os que transitamos pelo mundo do arte sentimos uma sensação de pertencimento que nos dá força", diria décadas depois. "Para mim, o chão é minha identidade como paraguaia, como latino-americana. Daí tiro a savia, a força para crescer."

A formação formal chegou depois: estudos em Assunção, depois no exterior. Em 1998 obteve seu Mestrado em Música no Berklee College of Music de Boston — a instituição mais influente da música popular e jazz no mundo — e em 2000 o Diploma de Pós-graduação na mesma instituição. Hoje é professora associada do Berklee, um dos poucos guitarristas clássicos latino-americanos a ter esse cargo em uma universidade anglo-saxônica desse nível. Esse percurso — das ruas de Assunção pelos corredores do Berklee — define a trajetória de alguém que nunca viu uma contradição entre suas raízes paraguaias e a ambição de tocar nos melhores palcos do mundo.

Washington D.C.: a base de operações do embaixador

A partir dos anos noventa, Berta Rojas construiu sua carreira a partir de Washington D.C., a cidade que escolheu como base de operações para suas turnês internacionais. Era uma escolha estrategicamente inteligente: Washington concentra as instituições culturais mais importantes dos Estados Unidos — o Kennedy Center, o Smithsonian, a Library of Congress — e tem a densidade diplomática que facilita as conexões que uma carreira internacional precisa.

Desde lá girou por América Latina, Europa, Ásia e o Pacífico, levando aos cenários de Manila, Milão, Madrid, Tóquio, Buenos Aires e dezenas de outras cidades uma proposta que era tão claramente paraguaia como universalmente compreensível. O Washington Post a descreveu como "guitarrista extraordinária." O Classical Guitar Magazine a chamou de "Embaixadora da guitarra clássica" — um título que suas próprias palavras confirmam: em cada concerto, em cada entrevista, em cada aula magna, Berta fala de Paraguai com a especificidade de quem sabe que seu país não pode falar por si mesmo se seus artistas não o fazem.

Intimate Barrios: o álbum que mudou a conversa

Em 2008 Berta publicou Intimate Barrios, o disco que redefiniu como se interpreta a música de Barrios Mangoré no século XXI. Não era o primeiro a dedicar-lhe um álbum completo — John Williams já o fizera em 1977 com o disco que iniciou o redescobrimento internacional de Barrios — mas era o mais próximo do espírito original de sua música.

O crítico da revista Classical Guitar formulou isso com precisão: "Para uma gravação mais próxima ao espírito das próprias interpretações de Barrios, seria preferível o Intimate Barrios de Berta Rojas" — uma observação que implica que o disco de Williams, por mais brilhante que seja tecnicamente, tem uma frialdade nórdica que a paraguaia substitui com a calorosa proximidade de quem cresceu ouvindo essa música como parte de sua cultura, não como objeto de estudo exótico.

Intimate Barrios foi gravado em San Juan Bautista — a cidade natal de Barrios, em Misiones — como um gesto de restituição geográfica e emocional. "Como se a música estivesse aprisionada em paredes de adobe e encontrasse liberdade em suas mãos", escreveu um crítico que a ouviu tocar na Casona Mangoré, a casa onde o compositor nasceu e viveu sua infância.

Tras as Huellas de Mangoré: quatro anos seguindo o caminho

Em 2011, Berta Rojas iniciou o projeto mais ambicioso de sua carreira: a turnê "Tras as Huellas de Mangoré", com o saxofonista cubano Paquito D'Rivera como convidado estrela. Durante quatro anos, o dueto percorreu vinte países da América Latina e o Caribe seguindo literalmente o itinerário que Barrios havia percorrido entre 1910 e 1944: Argentina, Uruguai, Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia, Cuba, México, América Central.

A turnê terminou onde tinha que terminar: no Theatro Nacional de El Salvador, na capital do país onde Barrios havia passado seus últimos anos, onde seus restos descansam no Cemitério Geral. Foi um fechamento circular que tinha a exatidão dos gestos que só são possíveis quando se planejam com décadas de conhecimento e com afeto genuíno pelo sujeito que se homenageia.

O álbum que resultou dessa colaboraçãoDía y Medio / A Day and a Half (2012) — foi indicado ao Latin Grammy na categoria Melhor Álbum Instrumental: a primeira indicação de Berta nessa categoria.

Uma carreira construída sobre a diversidade

O que define Berta Rojas como artista — e a distingue dos guitarristas clássicos que se especializam em um único repertório — é a amplitude de sua curiosidade musical. Ela gravou tango com a Camerata Bariloche (História do Tango, 2015, indicado ao Latin Grammy). Ela gravou música brasileira com Gilberto Gil, Toquinho e Ivan Lins (Felicidade, 2017). Ela gravou um disco com instrumentos fabricados com materiais reciclados como declaração ambiental (Salsa Roja, 2014, indicado ao Latin Grammy).

Em cada um desses projetos a guitarra clássica é o centro, mas o repertório se expande para territórios que o purismo acadêmico nem sempre permite: o tango argentino, o choro brasileiro, a música folclórica latino-americana, as composições de compositores contemporâneos que escrevem especificamente para ela.

Essa amplitude não é ecletismo sem raízes, mas o contrário: é a consequência natural de uma identidade paraguaia que sempre foi síntese. O Paraguay que produziu Barrios é o mesmo que produziu a guarania e o arpa e o bilingüismo guaraní-espanhol. Berta Rojas é, nesse sentido, a artista mais paraguaia de sua geração: capaz de conter tradições múltiplas sem que nenhuma anule as outras.

Legado: os dois primeiros Latin Grammy do Paraguai

Em novembro de 2022, na cerimônia dos Latin Grammy realizada em Las Vegas, Berta Rojas subiu ao palco duas vezes na mesma noite. Seu álbum Legado ganhou o Latin Grammy ao Melhor Álbum de Música Clássica. A composição "Anido's Portrait: Chacarera" — escrita pelo compositor brasileño Sergio Assad especialmente para ela, como homenagem à guitarrista argentina María Luisa Anido — ganhou o Latin Grammy à Melhor Obra/Composição Clássica Contemporânea.

Eram os dois primeiros Latin Grammy da história paraguaia. Em qualquer categoria.

Agradecendo, Berta falou em guaraní: "Aguyje" — agradecimento. E depois disse o que, naquele momento, era o mais importante: "Se eu estou hoje aqui é porque antes houve mulheres pioneiras da guitarra clássica que abriram caminho, em tempos em que não era visto bem que uma mulher andasse pelo mundo com uma guitarra. Hoje muitas meninas no mundo se dedicam a essa profissão. Eu fui uma delas."

Os trofeos, anunciou no mesmo dia, ficariam no Paraguai. "Esse Grammy eu entreguei para minha terra. Eu quero que esse Grammy fique em casa."

No ano anterior, o governo paraguaio lhe concedeu a Ordem Nacional do Mérito em Grau de Grande Cruz — a distinção mais alta que o Estado paraguaio pode conceder a um cidadão. Berklee College of Music a tem como professora associada. O Conservatório Giuseppe Verdi de Milão lhe entregou em 2022 o prêmio Guitarra de Ouro: Uma Vida Dedica à Guitarra na sua 27ª edição.

A professora

Berta Rojas não é apenas uma concertista. É também uma das pedagogas de guitarra clássica mais ativas do continente. Em 2009 criou o Barrios World Wide Web Competition, o primeiro concurso online de guitarra clássica da história — uma inovação que em 2009 era genuinamente pioneira e que hoje, na era das competições digitais, parece óbvia apenas porque alguém a pensou antes. Foi Diretora Artística do Festival Iberoamericano de Guitarra no Museu Smithsonian de Washington D.C. durante três edições.

No Paraguai mesmo impulsionou a Gira de Colegios que a levou por quase quarenta cidades do país, cem e seis instituições educacionais e mais de cinquenta mil crianças e adolescentes que pela primeira vez ouviram guitarra clássica ao vivo tocada por alguém do próprio país. Esse projeto — chegar às crianças antes que decidam que a música clássica não é para elas — é talvez a obra mais importante de sua carreira, embora não tenha nome nos catálogos discográficos nem apareça nas resenhas do Washington Post.

Nota editorial: Em 2015, durante a turnê de Historia do Tango, a guitarra de Berta Rojas foi roubada. Era seu instrumento de concerto, o companheiro de décadas de trabalho, irreplaceável no sentido mais literal. A recuperaram meses depois, em circunstâncias que ela descreve como quase milagrosas. A primeira peça que tocou quando teve de volta nas mãos foi La Catedral de Barrios. Não porque alguém lhe pediu, mas porque precisava saber que ainda podia. Há poucos gestos mais eloquentes sobre a relação entre um músico e seu instrumento, e entre uma guitarrista e o compositor que define sua identidade.

Discografia Essencial de Berta Rojas

8 · 0 en DoReSol

Discografia Essencial de Berta Rojas

#CanciónArtista
01

Legado

2022

Dois Grammy Latins: Melhor Álbum de Música Clássica e Melhor Composição Contemporânea. O primeiro Grammy da história paraguaia. Homenagem às pioneras da guitarra clássica feminina.

Pendiente
02

Intimate Barrios

2008

A interpretação de Barrios mais próxima do espírito original do compositor. Gravado em San Juan Bautista, cidade natal de Mangoré. O documento mais pessoal de sua relação com essa música.

Pendiente
03

Felicidade

2017

Brasil desde a guitarra paraguaia. Com Gilberto Gil, Toquinho e Ivan Lins. A conversa mais rica entre duas tradições musicais do mesmo continente.

Pendiente
04

Día y Medio / A Day and a Half

2012

Com Paquito D'Rivera, ao final da turnê "Tras las Huellas de Mangoré". Indicado ao Latin Grammy. O documento de quatro anos percorrendo os passos de Barrios.

Pendiente
05

História do Tango

2015

Com a Camerata Bariloche. O tango argentino em guitarra clássica paraguaia. Indicado ao Latin Grammy. A identidade latino-americana como projeto comum.

Pendiente
06

Terruño

A terra paraguaia como tema. Sua declaração mais direta de identidade, composta e tocada desde as raízes.

Pendiente
07

Cielo Abierto

2006

Seu debut no selo On Music Recordings. A primeira apresentação formal de sua proposta ao mundo.

Pendiente
08

Alma y Corazón

2007

Dúo com o guitarrista brasileño Carlos Barbosa-Lima. Duas tradições guitarrísticas do continente em diálogo.

Pendiente
Compartilhar

A série completa

Paraguai

A polca paraguaia, a guarânia e a harpa india. Música mestiça em guarani e espanhol.

Capítulo 3 de 6 5 de 6 publicados
  1. CAP 01

    🇵🇾 Cap 01

    A Música Tradicional: Três Culturas, Um Só Instrumento (Século XVII–presente)

    O Paraguai é um paradoxo cultural. É o único país da América Latina com dois idiomas

    12 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇵🇾 Cap 02

    Agustín Pío Barrios Mangoré: O Paganini das Selvas (1885–1944)

    Há músicos que são grandes dentro de sua tradição. Há músicos que são grandes dentro de seu instrumento. E há músicos que são grandes de uma maneira que não precisa de adjetivos ne

    13 min 28/05/2026 Ler

  3. CAP 03 você está aqui

    🇵🇾 Cap 03

    Berta Rojas: A Guitara que fala Guarani (1966–atualidade)

    Quando Agustín Pío Barrios Mangoré morreu em San Salvador em 1944, não deixou uma escola formal, não deixou uma instituição, e não deixou um método publicado que pudesse transmitir

    10 min 28/05/2026 você está aqui

  4. CAP 04

    🇵🇾 Cap 04

    A Guarani e suas Grandes Vozes: O Gênero que Falou para um Povo (1925–atualidade)

    A guarania nasceu de uma pergunta incómoda. Em 1925, José Asunción Flores — o jovem da Chacarita que havia chegado à Banda de Polícia de Assunção por um erro de inscrição e se havi

    10 min 28/05/2026 Ler

  5. CAP 05 Em breve

    🇵🇾 Cap 05

    El Rock y el Pop Paraguayo: Crecer Bajo la Tormenta (1960–presente)

    Hacer rock en el Paraguay de los años sesenta, setenta y ochenta era un ejercicio de obstinación pura. No había infraestructura: los instrumentos había que comprarlos en el exterio

    próximo

  6. CAP 06

    🇵🇾 Cap 06

    A Música Paraguaia Contemporânea: A Geração que Mistura Tudo (2000–atualidade)

    Há um antes e um depois na história da música popular paraguaia contemporânea, e esse ponto de inflexão não é um disco nem um artista: é o internet.

    10 min 28/05/2026 Ler

Você também pode gostar

3 artigos escolhidos por similaridade editorial

Link copiado para a área de transferência ✓