🇲🇽 MX · México · Capítulo 7 de 7
O Povo Mexicano do Século XXI: As Raízes e o Mundo (1990–atualidade)
Há uma paradoia na música mexicana do século XXI: os artistas que chegaram mais longe globalmente são aqueles que mais aprofundaram nas raízes de sua própria tradição.
No é a identidade uma barreira, mas um recurso na música popular mexicana do século XXI. Ser profundamente mexicano é a condição de possibilidade para ser genuinamente global.
Maná: o rock latino-americano que durou quarenta anos
Maná — formados em Guadalajara, Jalisco, em 1986 — são a banda de rock latino-americano mais vendida da história: mais de 40 milhões de discos, quatro Grammy Latinos, uma estrela no Paseo de la Fama de Hollywood.
Sua proposta desde o princípio foi direta: rock em espanhol de produção impecável, com influências do pop anglo-saxão e dos ritmos do Caribe, com letras sobre o amor e o compromisso social que não pretendiam ser mais complexas do que precisavam ser para comunicar o que queriam comunicar.
"Rayando el Sol"Escutar — seu primeiro grande hit, e "Vivir Sin Aire"Escutar — são duas das canções mais ouvidas da história do pop em espanhol. A crítica especializada frequentemente os subestimou; o público nunca.
Se comprometimento com causas ambientais — através da fundação Selva Negra — e com os direitos dos migrantes mexicanos nos Estados Unidos o tornaram também artistas com uma dimensão pública que ultrapassava a música. Maná como banda e como instituição cultural do México contemporâneo.
Julieta Venegas: a fronteira como identidade
Julieta Venegas — nascida em Long Beach, Califórnia, em 1970, criada em Tijuana, Baja California — construiu uma das carreiras mais originais do pop latino-americano do século XXI a partir de uma posição geográfica e cultural que determinou sua música: a fronteira entre México e Estados Unidos, entre o pop anglo-saxão e a música mexicana, entre o urbano e o tradicional.
Julieta Venegas é uma figura-chave na história do pop mexicano. Desde seus inícios na banda Tijuana No!, Venegas tem desafiado as convenções e explorado novos caminhos na música. Sua carreira solo, marcada por sucessos como "Limón y Sal" e "Me Voy", a consolidou como uma das artistas mais influentes da América Latina.
Se álbum Sí (2003) — que a consolidou internacionalmente — foi notável pelo uso do acordeão e dos ritmos norteños em um contexto de pop alternativo: a música da fronteira desnorteada de suas conotações folclóricas e reinsertada no vocabulário contemporâneo. O acordeão soava fresco nas mãos de Venegas porque ela o usava sem distância irônica, com a naturalidade de quem cresceu ouvindo-o.
"Me Voy" — — foi seu maior hit internacional: a declaração de independência emocional mais direta do pop mexicano da sua geração, com uma produção que misturava o pop europeu com a sensibilidade específica de alguém que havia crescido na linha divisória entre dois países e dois mundos.
Com seu álbum Sí está no lugar 215 dos melhores álbuns do século XXI segundo Pitchfork — a única artista mexicana naquela lista.
Natalia Lafourcade: a mais premiada
Natalia Lafourcade — nascida em 26 de fevereiro de 1984 em Cidade de México — é a artista mexicana mais premiada da história nos Grammy Latinos e a que levou a música tradicional mexicana ao centro do pop contemporâneo com uma profundidade que nenhum outro artista da sua geração igualou.
Debutou em 2003 com um pop alternativo de raízes rock e foi construindo progressivamente uma obra que se foi aproximando cada vez mais das raízes da música latino-americana: o bolero de Agustín Lara (Mujer Divina, 2012), a música folclórica latino-americana (Musas, 2017), o son jarocho e o huapango.
O ponto de inflexão foi Hasta la Raíz (2015). Natalia Lafourcade escreveu todas as canções do álbum, em colaboração com Leonel García em alguns temas. Hasta la Raíz foi um sucesso crítico e comercial, ganhando múltiplos prêmios, incluindo o Grammy Latino ao Álbum do Ano. O álbum também foi elogiado por sua produção, letras e voz de Natalia.
A canção título — cujo gênero é huapango e neofolk — foi posicionada em 78º lugar entre as 200 canções femininas mais importantes do século XXI pela NPR norte-americana. O huapango — a música da Huasteca que os conservatórios classificavam como folclore — chegou às listas globais da NPR através da voz de uma cantora de Ciudad de México.
Musas (2017) — um homenagem ao folclore latino-americano gravado ao vivo junto a Los Macorinos — foi a confirmação de que Lafourcade não era uma artista de pop que fazia incursões ocasionais na tradição, mas uma artista que encontrara na tradição sua voz mais autêntica.
Ela foi premiada com o prêmio Grammy e Grammy Latino, sendo a mais premiada e a cantora que realizou mais colaborações com grandes ícones musicais como Juan Gabriel, Eugenia León, Café Tacuba, Julieta Venegas, Carlos Rivera, Leonel García, Pepe Aguilar, Miguel Bosé, Gilberto Gil, e Jorge Drexler, entre outros.
Mon Laferte: a nova voz irreverente
Monserrat Bustamante LaferteMon Laferte — nasceu em Viña del Mar, Chile, em 1983, mas construiu sua carreira em Cidade de México, onde chegou sendo desconhecida e onde se tornou uma das figuras mais importantes do pop latinoamericano contemporâneo.
Sua proposta é a mais eclética e a mais irreverente de sua geração: bolero, rock, cumbia, música andina, pop eletrônico — tudo convivendo no mesmo álbum com a coerência de uma artista que sabe exatamente quem é embora não caiba em nenhuma categoria.
Sua atuação nos Latin Grammy 2017 — com o torso descoberto e a frase "En Chile torturan, violan y matan" escrita no peito — foi o momento em que o pop latinoamericano do século XXI demonstrou que podia ser também um ato político de consequências reais.
O pop mexicano na era do streaming
A música popular mexicana do século XXI convive em múltiplas dimensões simultâneas que a tecnologia do streaming tornou ainda mais visíveis. Os corridos tumbados de Peso Pluma quebram recordes globais ao mesmo tempo que Natalia Lafourcade ganha Grammy por seu álbum de folclore. O regional mexicano domina as playlists do Spotify ao mesmo tempo que artistas como Carla Morrison ou Los Ángeles Azules levam sua música de nicho para festivais internacionais.
Los Ángeles Azules — a família Mejía de Iztapalapa, Cidade de México — construíram durante décadas uma carreira de cumbia-chilanera completamente fora do mainstream e se tornaram fenômeno global nos anos 2010 quando artistas jovens como Natalia Lafourcade, Caloncho e Lila Downs começaram a colaborar com eles, apresentando-os a audiências que não os conheciam.
Carla Morrison — cantautora sonorense de voz inconfundível — construiu sua carreira completamente independente, sem selo discográfico, e ganhou o Latin Grammy ao Melhor Álbum de Música Alternativa em 2012. Seu álbum Déjà Vu (2012) é um dos documentos mais honestos do pop mexicano contemporâneo.
Nota editorial: Natalia Lafourcade gravou Musas ao vivo, em fita analógica, junto a Los Macorinos — dois guitarristas de bolero que haviam acompanhado os grandes da música mexicana durante décadas. A decisão técnica — sem edição digital, sem pistas perfeitas, com a respiração e os erros do show — foi uma declaração estética e filosófica: a música mais verdadeira é a que acontece no momento, com os corpos presentes, sem a possibilidade de corrigir o que já passou. Em um momento em que a produção musical digital pode fazer soar qualquer um perfeitamente afinado em qualquer tom, Lafourcade escolheu a imperfeição viva. O resultado foi o álbum mais reconhecido de sua carreira. Há algo nessa paradoja — a busca pela perfeição através da renúncia à correção — que resume toda a melhor música mexicana do século XXI.
10 · 3 en DoReSol
Top 10 do Pop Mexicano do Século XXI
Hasta la Raíz (álbum)
Natalia Lafourcade · 2015
O álbum mexicano mais premiado do século XXI. Grammy Latino ao Álbum do Ano. O huapango nas listas globais da NPR.
Me Voy
Julieta Venegas · 2003
A declaração de independência emocional mais direta do pop mexicano contemporâneo. Acordeón norteño no pop alternativo latino-americano.
Nunca Es Suficiente
Natalia Lafourcade · 2015
A canção de amor não correspondido mais elegante do pop mexicano recente. Natalia Lafourcade em seu momento de maior maturidade composicional.

Rayando El Sol
Maná · 1992
O primeiro grande hit da banda de rock latino-americano mais vendida da história. Guadalajara ao mundo com uma produção impecável.
Vivir Sin Aire
Maná · 1992
Uma das canções mais ouvidas da história do pop em espanhol. Maná em seu momento mais pop e mais universal.

Limón Y Sal
Julieta Venegas · 2006
O hit mais tocado na rádio de Venegas. O amor cotidiano descrito com a economia de palavras de quem sabe que menos é mais.
Musas (álbum)
Natalia Lafourcade · 2017
O homenaje ao folclore latino-americano gravado ao vivo em fita analógica. A tradição viva sem nostalgia.
Amor Enamorado
Los Ángeles Azules · 2019
A cumbia-chilena de Iztapalapa chegando ao mundo graças às colaborações com a nova geração.

Deja Vu
Olivia Rodrigo · 2012
O Grammy ao Melhor Álbum Alternativo de uma artista completamente independente. A voz mais honesta do pop mexicano da sua geração.
Tu Fotografía
Mon Laferte · 2015
A chilena que se tornou mexicana chegando ao pop latino-americano desde o bolero e o rock. Mon Laferte como a artista mais inclasificável da sua geração.
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Pratique estas músicas em Doresol
Cierre da Série México
Com este capítulo encerra a Série Musical México da Doresol: sete artigos, sete gêneros, cinco séculos de história musical comprimidos em uma narrativa que vai desde os teponaztlis pré-hispânicos até os corridos tumbados do século XXI.
México é o país com maior diversidade de gêneros musicais vivos do continente americano. O son jarocho de Veracruz, o huapango da Huasteca, o mariachi de Jalisco, o bolero urbano, a música norteña da fronteira, o rock de Ciudad de México e o pop contemporâneo não são capítulos separados: são o mesmo rio visto desde diferentes margens, a mesma busca de dizer com música o que nenhum outro idioma pode dizer com a mesma precisão.
Próxima série: Espanha.
Encerramento da Série · México
Com este capítulo fechamos a série de 7 partes sobre México. Obrigado por lê-la.
A série completa
México
Mariachi, ranchera, bolero, corrido e o rock chilango. Um país que canta.
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CAP 01
🇲🇽 Cap 01
As Raízes: A Música dos Três Mundos (Pré-hispânico–1800)
Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao território que hoje chamamos de México em 1519, encontraram civilizações que tinham desenvolvido tradições musicais de uma complexida
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CAP 02
🇲🇽 Cap 02
O Mariachi e a Canção Ranchera: A Era de Ouro (1930–1970)
Houve um momento no século XX quando o México decidiu qual seria seu som nacional. Não foi uma decisão de um governo ou de uma academia: foi a convergência da rádio, do cinema, da
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CAP 03
🇲🇽 Cap 03
O Bolero: O Músico-Poeta e o Coração da América Latina (1920–1980)
Há um momento em qualquer bar do México — não o bar de design no centro histórico mas o bar de bairro com mesas de formica e cerveja de barril — quando alguém pede uma canção de Ag
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CAP 04
🇲🇽 Cap 04
O Rock Mexicano: A Cidade como Laboratório (1960–2000)
Durante quase duas décadas, o rock no México foi tecnicamente ilegal. Não no sentido jurídico estrito, mas sim no sentido prático: após o Concierto de Avándaro de 1971 — a Woodstoc
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CAP 05
🇲🇽 Cap 05
A Música Norteña e o Corrido: A Fronteira como Universo (1930–atualidade)
Há uma música no México que a classe média urbana frequentemente ignora ou despreza, que as estações de rádio de Cidade do México programam com relutância, e que, apesar disso, é a
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CAP 06
🇲🇽 Cap 06
Os Dois Gigantes (1960–2021)
Há uma história que resume a relação entre os dois artistas mais importantes da segunda metade do século XX no México. Em 1971, Juan Gabriel e Vicente Fernández foram convidados pa
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🇲🇽 Cap 07
O Povo Mexicano do Século XXI: As Raízes e o Mundo (1990–atualidade)
Há uma paradoia na música mexicana do século XXI: os artistas que chegaram mais longe globalmente são aqueles que mais aprofundaram nas raízes de sua própria tradição.
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