🇲🇽 MX · México · Capítulo 3 de 7
O Bolero: O Músico-Poeta e o Coração da América Latina (1920–1980)
Há um momento em qualquer bar do México — não o bar de design no centro histórico mas o bar de bairro com mesas de formica e cerveja de barril — quando alguém pede uma canção de Agustín Lara. E quando essa canção toca, algo acontece no ambiente: as conversas diminuem o volume, os copos são colocados mais cuidadosamente na mesa, os homens mais duros do lugar olham para outro lado com uma expressão que poderia ser indiferença ou emoção contida.
Esse momento é o bolero. Não apenas como música, mas como atitude perante a vida: a disposição para tomar o sofrimento do amor a sério, dar-lhe palavras precisas, transformá-lo em algo belo sem por isso torná-lo menos doloroso.
O bolero tem origem cubana — surgiu em Santiago de Cuba no século XIX como derivação do bolero espanhol processado através da sensibilidade crioula caribenha —, mas foi o México quem o levou ao mundo. Através de seus compositores, seus intérpretes e, sobretudo, através da rádio e do cinema, o México exportou o bolero para toda a América Latina e para Espanha com uma eficácia que nenhum outro gênero musical latino-americano havia conseguido antes.
Agustín Lara: o flaco de ouro dos cabarets
Agustín Lara — conhecido como "El Flaco de Oro" ou "El Músico Poeta" — nasceu em Cidade de México no dia 30 de outubro de 1897, embora ele preferisse dizer que nasceu em Tlacotalpan, Veracruz, porque o dado veracruzano lhe dava mais romantismo. Essa pequena falsidade biográfica é em si mesma um dado revelador: Lara entendia que a imagem do artista é também uma obra de arte.
Iniciou sua carreira musical em cabarets e burdeis, onde desenvolveu seu estilo particular misturando o bolero com a canção romântica. A cicatriz que cruzava sua bochecha esquerda — causada, segundo todas suas biografias, por uma mulher ciumenta em um cabaret — era parte da imagem: o compositor que havia vivido o suficiente para saber de quê estava falando quando escrevia sobre o amor e o sofrimento.
Agustín Lara é considerado como o máximo representante do bolero no México. Compôs mais de 700 canções ao longo de sua carreira, incluindo "Granada", "Solamente una vez" e "Piensa en mí", que se tornaram padrões do gênero.
O extraordinário de Lara não era apenas a quantidade, mas a qualidade: canções de uma arquitetura melódica tão precisa e tão generosa que qualquer grande voz podia habitá-las e encontrar nelas sua própria expressão. Pedro Vargas, Toña la Negra, Plácido Domingo, Luis Miguel, Frank Sinatra, Luciano Pavarotti, Elvis Presley — artistas de mundos completamente diferentes encontraram no catálogo de Lara material de primeiro nível.
Granada: a cidade que nunca tinha visto
O caso de "Granada" é talvez a história mais estranha e mais bela de toda a música popular mexicana.
Lara compôs "Granada" sem ter visitado aquela cidade na vida. Le tomaria outros 32 anos fazer isso pela primeira vez. Granada é o hino oficial de Granada desde o 4 de novembro de 1997. No relógio público do município, um carillon interpreta a cada hora o verso inicial da obra de Agustín: "Granada, terra sonhada por mim".
Frank Sinatra e Luciano Pavarotti gravaram seu popular "Granada" e Elvis Presley, assim como Julie London, interpretaram "Solamente una vez". Duas estátuas de Lara foram erguidas na Espanha — uma no bairro de Lavapiés em Madrid e outra na praça do Ángel em Granada. O compositor mexicano que nunca tinha visto Granada tornou-se seu cidadão honorário eterno.
Quando finalmente visitou a cidade, os jornalistas o esperavam. Lara disse-lhes: "Não vim aqui para pisar a terra de Granada, mas para beijá-la com os lábios e o coração."
María Bonita: o amor que tinha nome próprio
A história de Lara não estaria completa sem María Félix — a atriz mais bela e mais poderosa do cinema mexicano, a quem Lara amou com uma devocion que ele mesmo converteu em canção.
"María Bonita" — composta em 1947 durante uma lua de mel em Acapulco — é a canção de amor mais pessoal que Lara escreveu: uma descrição física e emocional de María que é ao mesmo tempo um retrato da mulher idealizada pela cultura mexicana do século XX. María Félix era tudo o que o bolero prometia: beleza devastadora, independência absoluta, a mulher que não precisava de ninguém e precisamente por isso era irresistível para todos.
O casamento Lara-Félix durou pouco — María era muito grande para pertencer a alguém — mas a canção durou para sempre.
Los Panchos: o trio perfeito
O bolero não precisava apenas de um compositor: precisava de uma forma de interpretação que o levasse além do solista acompanhado de piano. Essa forma foi inventada pelos Los Panchos — o trio formado em Cidade de México em 1944 pelo mexicano Chucho Navarro, pelo mexicano Alfredo Gil e pelo puertorriqueño Hernando Avilés.
O formato do trio romântico — três vozes em harmonia, guitarras acústicas, uma textura íntima e perfeitamente equilibrada — foi a forma como o bolero mexicano conquistou a América Latina. Os Panchos venderam milhões de discos na região durante os anos 1940, 1950 e 1960, levando o catálogo de Lara e de outros compositores mexicanos para lugares onde o cinema não chegava.
Sua versão de "Bésame Mucho" — composta por Consuelo Velázquez em 1940, considerada a canção mexicana mais gravada de todos os tempos — é a definição do bolero em seu momento de maior perfeição: três vozes que se equilibram sem competir, uma melodia que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode sussurrar após ouvi-la uma única vez.
Bésame Mucho: a música mais gravada do México
Consuelo Velázquez compôs "Bésame Mucho" em 1940, aos dezesseis anos, sem ter sido beijada nunca — ou isso disse ela, com a malícia de quem sabe que a anécdota é melhor que a explicação musical.
A música foi gravada pelos Beatles em suas primeiras auditions para a EMI em 1962 — a gravação existe e pode ser ouvida — e por artistas de todos os gêneros imagináveis: jazz, pop, bossa nova, heavy metal, música clássica. É, junto com "La Paloma" de Sebastián Yradier, a música de origem latino-americana mais gravada da história.
Que tenha sido composta por uma adolescente mexicana em 1940 e que ainda se ouve em todos os cantos do mundo no século XXI é o melhor argumento possível para a tese de que o bolero mexicano foi a contribuição mais duradoura do México para a música popular global.
O declínio e o retorno
Nos anos sessenta e setenta, o bolero cedeu terreno diante da invasão do rock anglo-saxão, a salsa e as baladas pop. Os jovens de Cidade de México ouviam os Beatles e os Rolling Stones; as rádios mudaram sua programação; os tríos românticos ficaram relegados aos restaurantes e aos hotéis.
Mas o bolero nunca desapareceu totalmente. Nos anos oitenta e noventa, uma nova geração de artistas o redescobriu: Luis Miguel gravou seus álbuns de bolero Romance (1991), Segundo Romance (1994) — e vendeu milhões de cópias, apresentando o catálogo de Lara e dos compositores da era dourada a uma geração que não o havia conhecido diretamente.
E nos anos dois mil, artistas como Café Tacuba reinterpretaram "Piensa en mí" em chave de rock alternativo, completando o círculo: a música que Lara havia escrito setenta anos antes chegava aos netos de quem a havia dançado pela primeira vez.
Nota editorial: Agustín Lara compôs "Granada" sem ter visto Granada, e a cidade espanhola o adotou como seu compositor oficial. Essa paradoxo — o compositor que descrevia com precisão perfeita o que nunca tinha visto — diz algo sobre a natureza do bolero: um gênero baseado na imaginação do amor mais do que na sua experiência direta, na idealização mais do que no retrato. O bolero não descreve o amor tal como é, mas tal como deveria ser, tal como deseja quem canta. E essa distância entre o desejo e a realidade — entre a Granada sonhada e a Granada de pedra — é exatamente onde vive a emoção que fez do bolero imortal.
10 · 6 en DoReSol
Top 10 do Bolero Mexicano
Bésame Mucho
Consuelo Velázquez · 1940
A canção mexicana mais gravada de todos os tempos. Os Beatles a tocaram em suas auditions de teste.
Granada
Agustín Lara · 1932
Composta sem ter visto Granada. Hoje é o hino oficial da cidade. Frank Sinatra e Luciano Pavarotti a gravaram.

Solamente una vez
Luis Miguel · 1994
O bolero mais interpretado de Lara. Frank Sinatra, Pedro Infante e Elvis Presley entre suas versões.

María Bonita
Caetano Veloso · 1994
O retrato musical de María Félix. O amor impossível convertido no bolero mais pessoal de Lara.

Noche de ronda
Luis Miguel · 1997
A melancolia noturna em sua forma mais pura. O bolero como filosofia da noite e do amor perdido.

Sabor a mí
Luis Miguel · 1997
O bolero mexicano em sua versão mais sensorial. A memória do amor descrita com imagens de uma concretude extraordinária.
Piensa en Mí
Agustín Lara · 1936
A música que Pedro Almodóvar escolheu para Tacones Lejanos. Café Tacuba gravou em rock. Lara em sua versão mais íntima.
Perfidia
Alberto Domínguez · 1939
O bolero guatemalteco adotado pelo México. Glenn Miller, Nat King Cole e os Beatles o gravaram.

Sin ti
Luis Miguel · 1950
O trio romântico em seu momento mais perfeito. A harmonia a três vozes que definiu o bolero latino-americano.
Veracruz
Agustín Lara · 1936
O homenagem de Lara à sua terra adotiva. O porto de Veracruz convertido em poema sonoro.
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Bésame Mucho
Consuelo Velázquez

Solamente una vez
Luis Miguel · 1994

Sabor a mí
Luis Miguel · 1997

Noche de ronda
Luis Miguel · 1997
A série completa
México
Mariachi, ranchera, bolero, corrido e o rock chilango. Um país que canta.
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CAP 01
🇲🇽 Cap 01
As Raízes: A Música dos Três Mundos (Pré-hispânico–1800)
Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao território que hoje chamamos de México em 1519, encontraram civilizações que tinham desenvolvido tradições musicais de uma complexida
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CAP 02
🇲🇽 Cap 02
O Mariachi e a Canção Ranchera: A Era de Ouro (1930–1970)
Houve um momento no século XX quando o México decidiu qual seria seu som nacional. Não foi uma decisão de um governo ou de uma academia: foi a convergência da rádio, do cinema, da
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🇲🇽 Cap 03
O Bolero: O Músico-Poeta e o Coração da América Latina (1920–1980)
Há um momento em qualquer bar do México — não o bar de design no centro histórico mas o bar de bairro com mesas de formica e cerveja de barril — quando alguém pede uma canção de Ag
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CAP 04
🇲🇽 Cap 04
O Rock Mexicano: A Cidade como Laboratório (1960–2000)
Durante quase duas décadas, o rock no México foi tecnicamente ilegal. Não no sentido jurídico estrito, mas sim no sentido prático: após o Concierto de Avándaro de 1971 — a Woodstoc
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CAP 05
🇲🇽 Cap 05
A Música Norteña e o Corrido: A Fronteira como Universo (1930–atualidade)
Há uma música no México que a classe média urbana frequentemente ignora ou despreza, que as estações de rádio de Cidade do México programam com relutância, e que, apesar disso, é a
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CAP 06
🇲🇽 Cap 06
Os Dois Gigantes (1960–2021)
Há uma história que resume a relação entre os dois artistas mais importantes da segunda metade do século XX no México. Em 1971, Juan Gabriel e Vicente Fernández foram convidados pa
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CAP 07
🇲🇽 Cap 07
O Povo Mexicano do Século XXI: As Raízes e o Mundo (1990–atualidade)
Há uma paradoia na música mexicana do século XXI: os artistas que chegaram mais longe globalmente são aqueles que mais aprofundaram nas raízes de sua própria tradição.
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