🇲🇽 MX · México · Capítulo 5 de 7
A Música Norteña e o Corrido: A Fronteira como Universo (1930–atualidade)
Há uma música no México que a classe média urbana frequentemente ignora ou despreza, que as estações de rádio de Cidade do México programam com relutância, e que, apesar disso, é a que mais milhões de pessoas ouvem no país e na comunidade mexicana nos Estados Unidos. É música norteña: acordeão, sexteto de baixo, corrido, polka de Sinaloa, narcocorrido.
É também, se ouvida sem preconceito, uma das tradições musicais mais ricas e honestas da música popular latino-americana: uma épica popular que documentou durante mais de um século as vidas, sonhos, crimes e tragédias da gente que vive na fronteira mais desigual do mundo.
O corrido: a crônica cantada
O corrido — derivado do romance espanhol colonial — é o gênero literário-musical mais antigo do México que ainda é praticado de forma viva. É uma narrativa em verso, cantada, que conta uma história de um acontecimento real ou fictício: uma batalha, um crime, um amor, uma façanha, uma injustiça.
Durante a Revolução Mexicana (1910–1920), o corrido foi o jornal do povo: as canções sobre Pancho Villa, Emiliano Zapata, a Adelita e as batalhas do norte viajavam mais rápido que os jornais e chegavam a lugares onde nenhum papel escrito chegava nunca. O corrido era a memória coletiva do povo que não sabia ler.
Depois da Revolução, o corrido sobreviveu como gênero popular nas regiões do norte — Sinaloa, Sonora, Chihuahua, Tamaulipas — onde a proximidade com a fronteira e com os Estados Unidos criava histórias de um tipo específico: contrabandistas, migrantes, vaqueiros, amores impossíveis entre dois mundos.
A música norteña: o acordeão que chegou da Alemanha
O instrumento central da música norteña — o acordeão de botões — chegou ao México no século XIX com os imigrantes alemães e checos que se estabeleceram no norte do país, especialmente no Nuevo León e Tamaulipas. Os mexicanos do norte o adoptaram, o misturaram com o corrido e a polka europeia, e criaram um gênero que não se parece com nenhuma das suas fontes originais.
O bajo sexto — uma guitarra de doze cordas que fornece o acompanhamento harmônico e rítmico — completou a formação básica do conjunto norteño: acordeão, bajo sexto, e voz. Com esses três elementos, a música norteña construiu um universo sonoro que sobreviveu por mais de um século sem necessitar de grandes mudanças.
Los Tigres del Norte: os chefes dos chefes
A banda mais importante da música norteña — e possivelmente de toda a música regional mexicana — surgiu de Rosa Morada, um pequeno povoado do estado de Sinaloa com o nome poético de "la rosa morada". Os quatro irmãos Hernández — Hernán, Luis, Jorge e Eduardo — aprenderam suas primeiras canções de músicos maiores do seu povo sem partituras, sem discos, sem acesso à rádio. Era os anos sessenta e os irmãos Hernández começavam a tocar informalmente como grupo local.
Surgidos em 1968 em Rosa Morada, se mudaram para Califórnia no início dos setenta, onde foram descobertos por Art Walker, um inglês dono de uma pequena gravadora, Fama Records, que produziu suas primeiras gravações.
Em 1973 conseguiram seu primeiro sucesso com seu quinto álbum, Contrabando y traición. Desde então gravaram mais de cinquenta discos, dos quais vendem 30 milhões de cópias.
Contrabando y Traición: o nascimento do narcocorrido moderno
No ano de 1972, um corrido escrito por Ángel González contou a história de Camelia la Texana e Emilio Varela — um casal envolvido no tráfico de drogas cuja história termina em traição e morte. A versão dos Los Tigres del Norte foi definitiva: a música é vista como responsável pela popularidade subsequente do narcocorrido e pela revitalização do próprio corrido no México.
"Contrabando y Traición" não glorificava o tráfico de drogas — descrevia-o com a mesma lógica épica com que o corrido revolucionário havia descrito as batalhas de Villa e Zapata. O narco era o novo bandido da fronteira, e o corrido era a forma natural de contar sua história.
Jorge Hernández explicou assim: "o corrido que nós cantamos é uma corrente musical que vem a formar parte da nossa cultura e pues é simplesmente uma história real musicalizada."
La Jaula de Oro: o hino do migrante
Se "Contrabando y Traición" foi a música que os tornou famosos, "La Jaula de Oro" (1986) foi um corrido que abordou a vida dos imigrantes nos Estados Unidos.
A música aborda a problemática que existe nas famílias de imigrantes a partir da segunda geração, "quando os filhos já não querem ser mexicanos porque vivem em outro país, muda sua forma de pensar, na escola começam a aprender o inglês e, embora falem o espanhol em casa, é lá que surgem uma série de problemáticas a que ninguém dava atenção."
"La Jaula de Oro" — — é o hino dos milhões de mexicanos que vivem nos Estados Unidos com documentos ou sem eles, que construíram sua vida do outro lado da fronteira e que às vezes sentem que a prosperidade material que encontraram é também uma jaula: o preço de estar longe de sua terra, de ver seus filhos crescerem falando inglês, de saber que já não pertencem completamente a nenhum dos dois lados.
Cancões como "La Jaula de Oro", "El Emigrante", "Golpes en el Corazón" ou "La Mesa del Rincón" capturam a dor da separação familiar, a discriminação, a luta pelo sonho americano e a resiliência cotidiana.
O narcocorrido: o debate que não termina
O narcocorrido — o corrido que narra histórias do tráfico de drogas, seus personagens, seus crimes e seu código de honra — é o gênero mais controverso da música mexicana e um dos mais ouvidos.
Seus defensores argumentam que é a tradição do corrido aplicada à realidade contemporânea: como o corrido revolucionário narrava as façanhas de Villa sem necessariamente aprovar moralmente, o narcocorrido narra as façanhas do narcotraficante sem aprovar o narcotraficante. É crônica, não propaganda.
Seus críticos argumentam que glorifica a violência, romantiza o crime organizado e oferece aos jovens dos bairros pobres um modelo de sucesso baseado no crime.
O debate é genuíno e não tem resolução simples. O que sim é claro é que o narcocorrido é um fenômeno cultural de uma complexidade que nenhuma proibição conseguiu suprimir: vários estados mexicanos tentaram proibir sua difusão em rádios e espaços públicos, com o mesmo resultado que todas as proibições musicais na história — aumentar seu apelo entre o público que se sentia representado por ele.
Os corridos tumbados: a nova geração
Nos anos 2010 e 2020, uma nova geração de artistasNatanael Cano, Junior H, Peso Pluma — tomou a tradição do corrido e a misturou com o trap americano, o autotune e a estética do rap contemporâneo para criar os corridos tumbados: um gênero que é ao mesmo tempo completamente novo e completamente enraizado na tradição do norte do México.
Sua influência abriu caminho ao levar o norteño das festas familiares para estádios mundiais, fusionando-o com influências externas sem trair suas raízes, estabelecendo as bases para os corridos tumbados e bélicos ao demonstrar que o gênero pode ser transgressor, dinâmico e global.
Peso PlumaHassan Emilio Kabande Laija — se tornou em 2023 o artista mexicano mais ouvido do mundo no Spotify, com corridos tumbados que misturavam o acordeão norteño com a produção do trap e letras que continham a tradição narrativa do corrido clássico. Sua colaboração com Bad Bunny em "La Zona" e com artistas de todo o espectro do pop latino levou a música norteña a lugares onde nunca tinha chegado.
Nota editorial: Os Tigres do Norte aprenderam suas primeiras canções sem partituras, sem discos, sem acesso à rádio, em uma fazenda de Sinaloa nos anos 60. Cinquenta anos depois, com mais de 70 álbuns, 30 milhões de cópias vendidas, 7 Grammys e 11 Latin Grammys, conquistaram o Hollywood Bowl, Europa, Ásia e América Latina, inclusive com uma rua em Nova York com seu nome. Aquela trajetória — de Rosa Morada ao Hollywood Bowl — é a história do corrido mesmo: uma música que nasceu nos margens para falar dos margens e que terminou sendo a música mais ouvida pela comunidade mexicana no mundo. O corrido não precisou de permissão para chegar onde chegou. Os margens, quando têm suficiente verdade, acabam se tornando centros.
10 · 1 en DoReSol
Top 10 da Música Norteña e o Corrido
La Jaula de Oro
Los Tigres del Norte · 1984
O hino do migrante mexicano nos Estados Unidos. A segunda geração que já não quer ser mexicana, descrita com uma precisão que nenhum sociólogo igualou.
Contrabando y Traición
Los Tigres del Norte · 1972
A música que criou o narcocorrido moderno. Camelia la Texana como o personagem mais icônico de toda a narrativa do corrido contemporâneo.
Jefe de Jefes
Los Tigres del Norte · 1997
O hino do liderazgo em código de fronteira. O encerramento do século XX com um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos.
La Banda del Carro Rojo
Los Tigres del Norte · 1973
O segundo grande narcocorrido dos Tigres. A banda do carro vermelho como imagem que ficou para sempre no imaginário popular.
El Sinaloense
Banda Sinaloense tradicional · S. XX
Hino do estado de Sinaloa. A banda de vento do norte em sua forma mais festiva e irresistível.
Pa' Todo el Año
Ramón Ayala · 1972
O rei do acordeão em sua canção mais universal. Ramón Ayala como o músico que definiu o som do acordeão norteño moderno.
Ella y Yo
Peso Pluma ft. Natanael Cano · 2022
O corrido tumbado que levou o norteño ao trap global. A nova geração tomando a tradição e levando-a para onde os Tigres nunca puderam chegar.
El Rey de la Carretera
Los Bukis · 1990
Los Bukis como o ponte entre o norteño e o pop romântico. A música do norte chegando à classe média urbana.

Amor Eterno
Rocío Dúrcal · 1984
A espanhola que se tornou a rainha da música ranchera. Juan Gabriel como compositor, Dúrcal como intérprete: a combinação perfeita.
La Puerta Negra
Los Tigres del Norte · 1978
O corrido de amor em sua versão mais dramática. Os Tigres demonstrando que o gênero não é apenas narco: é toda a experiência humana da fronteira.
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A série completa
México
Mariachi, ranchera, bolero, corrido e o rock chilango. Um país que canta.
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CAP 01
🇲🇽 Cap 01
As Raízes: A Música dos Três Mundos (Pré-hispânico–1800)
Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao território que hoje chamamos de México em 1519, encontraram civilizações que tinham desenvolvido tradições musicais de uma complexida
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CAP 02
🇲🇽 Cap 02
O Mariachi e a Canção Ranchera: A Era de Ouro (1930–1970)
Houve um momento no século XX quando o México decidiu qual seria seu som nacional. Não foi uma decisão de um governo ou de uma academia: foi a convergência da rádio, do cinema, da
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CAP 03
🇲🇽 Cap 03
O Bolero: O Músico-Poeta e o Coração da América Latina (1920–1980)
Há um momento em qualquer bar do México — não o bar de design no centro histórico mas o bar de bairro com mesas de formica e cerveja de barril — quando alguém pede uma canção de Ag
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CAP 04
🇲🇽 Cap 04
O Rock Mexicano: A Cidade como Laboratório (1960–2000)
Durante quase duas décadas, o rock no México foi tecnicamente ilegal. Não no sentido jurídico estrito, mas sim no sentido prático: após o Concierto de Avándaro de 1971 — a Woodstoc
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🇲🇽 Cap 05
A Música Norteña e o Corrido: A Fronteira como Universo (1930–atualidade)
Há uma música no México que a classe média urbana frequentemente ignora ou despreza, que as estações de rádio de Cidade do México programam com relutância, e que, apesar disso, é a
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CAP 06
🇲🇽 Cap 06
Os Dois Gigantes (1960–2021)
Há uma história que resume a relação entre os dois artistas mais importantes da segunda metade do século XX no México. Em 1971, Juan Gabriel e Vicente Fernández foram convidados pa
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CAP 07
🇲🇽 Cap 07
O Povo Mexicano do Século XXI: As Raízes e o Mundo (1990–atualidade)
Há uma paradoia na música mexicana do século XXI: os artistas que chegaram mais longe globalmente são aqueles que mais aprofundaram nas raízes de sua própria tradição.
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