🇨🇱 CL · Chile · Capítulo 6 de 6

O Século XXI: A Música Chilena que Fala ao Mundo (2000–hoje)

Em 18 de outubro de 2019, estudantes do ensino médio em Santiago começaram a pular massivamente as catracas do metrô para protestar contra um aumento de trinta pesos na tarifa. O que começou como evasão estudantil se transformou em poucas horas na maior mobilização social no Chile desde o fim da ditadura: milhões de pessoas nas ruas de todo o país, barricadas, assembleias, panelaços, o grito coletivo de uma geração que exigia que as promessas do modelo econômico chileno fossem finalmente cumpridas.

10 min de leitura publicado 27/05/2026 11 leituras por DoReSol
O Século XXI: A Música Chilena que Fala ao Mundo (2000–hoje)

E nessas ruas, exatamente as mesmas músicas que tocaram trinta anos antes foram ouvidas: "O Direito de Viver em Paz" de Víctor Jara, "A Dança dos Que Sobram" de Los Prisioneros. Mas também foram ouvidas músicas novas — de artistas que passaram a primeira parte do século XXI construindo uma cena musical chilena completamente diferente de tudo o que existia antes, mais pessoal, mais híbrida, mais global e ao mesmo tempo mais profundamente local do que nunca.

Esse é o Chile musical do século XXI: o país que carrega o peso de Violeta Parra e Víctor Jara em cada nota que escreve, e que ao mesmo tempo produz artistas que lotam Coachella e os Grammy Latinos e o Madison Square Garden sem deixar de ser completamente chilenos.

Mon Laferte: A Artista Chilena Mais Importante do Século XXI

Norma Monserrat Bustamante Laferte nasceu em 2 de maio de 1983 em Viña del Mar. Sua infância foi difícil — marcada por carências, instabilidade familiar e a busca constante por um lugar próprio — e a música foi desde o início o espaço onde essa busca fazia sentido. Aos vinte anos, participou do reality musical chileno Rojo e lançou seu primeiro disco, que foi um sucesso local. Mas o que o Chile via nela não era o que ela queria ser.

Em 2007, tomou a decisão que mudou sua carreira: foi para o México. Em 2007, decidiu começar um novo capítulo em sua carreira musical e se mudou do Chile para a Cidade do México. O que encontrou lá foi o espaço para se reinventar completamente: deixou o nome pelo qual era conhecida, adotou Mon Laferte como nova identidade, e começou a construir uma música que misturava bolero, ranchera, rock, folk chileno e pop alternativo com uma personalidade artística que não se parecia com nada que existia na cena latina daquele momento.

Em 2015, Mon Laferte revolucionou a música hispano-americana com o lançamento do single "Tu falta de querer." Desde então, vendeu mais de 1,5 milhão de discos e se consolidou como a artista chilena mais vendida do século XXI.

Seu álbum La Trenza (2017) foi sua obra-prima até aquele momento: com um novo som influenciado pelo folclore mexicano e chileno, seu single "Amárrame" com Juanes estreou nos postos mais altos das paradas latino-americanas e obteve cinco indicações ao Grammy Latino.

Norma (2018) — gravado nos estúdios Capitol de Los Angeles em uma única tomada, com salsa, mambo e bachata gravados ao vivo — lhe rendeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Alternativa. E na cerimônia de entrega, fez o que nenhum artista chileno havia feito antes naquele palco: descobriu o peito com a mensagem gravada sobre seus seios em letras maiúsculas: "No Chile torturam, estupram e matam" — em uma imagem que deu a volta ao mundo durante a explosão social de outubro de 2019.

É o gesto de Violeta Parra atualizado: a artista chilena usando o palco mais global disponível para dizer o que seu país precisa que o mundo ouça. A tradição não desaparece — se reinventa em cada geração com a linguagem que essa geração tem disponível.

Gepe: O Posfolclore como Projeto de Vida

Daniel RiverosGepe — nasceu em Santiago em 1983 e desde o início dos anos 2000 construiu o projeto mais coerente de síntese entre o folclore chileno e a música independente contemporânea que a cena chilena produziu no século XXI.

Suas canções tomam a cueca, a tonada, o bolero chileno e os processa através de filtros de pop indie, eletrônica, tropicalia brasileira e psicodelia latino-americana — sem que nenhum ingrediente domine os outros, sem que o resultado soe como um experimento. Gepe soa natural porque a síntese é genuína: não é um músico pop que adiciona folclore para soar autêntico, mas alguém que cresceu com todas essas músicas ao mesmo tempo e que as combina com a mesma naturalidade com que se fala misturando palavras de diferentes tradições porque todas são igualmente suas.

Seus álbunsGP (2006), Hungría (2010), Audiovisión (2012), Frio (2016) — construíram uma trajetória de artesanato musical paciente e consistente que o tornou a referência central da cena indie chilena do período. O musicólogo Juan Pablo González descreveu a tendência de artistas como Gepe como "posfolclore": as raízes como opção pessoal mais do que coletiva, gerando redes sociais de opções pessoais que encontram na música sua manifestação mais eficaz para tecer comunidade a partir da margem e da divergência.

Camila Moreno: A Raiva Transformada em Arte

Camila Moreno surgiu em 2009 com "Millones" — uma canção sobre a injustiça econômica que foi indicada ao Grammy Latino e a estabeleceu como uma das vozes mais honestas da nova canção chilena. Mas o que ela fez com essa base nos anos seguintes foi mais interessante do que qualquer sucesso inicial: uma evolução artística constante que a levou do folk acústico à eletrônica experimental, da canção de autor ao cyberpunk, sempre com as letras mais politicamente diretas e mais artisticamente ambiciosas de sua geração.

Em 2016, sua canção "Fiera de Amor" tornou-se um hino feminista, ressoando em marchas e manifestações por toda a América Latina. Durante o levante de 2019, canções como "Hombre" e "Quememos el reino" alcançaram níveis de impacto que suas primeiras composições não haviam atingido.

Camila Moreno é a prova de que a tradição de Violeta Parra — a artista que usa o folclore como ponto de partida e o leva onde a urgência do presente exige — ainda está viva e continua sendo necessária no Chile do século XXI.

Alex Anwandter: O Pop como Ato Político

Alex Anwandter construiu na primeira metade dos anos 2010 o projeto mais explicitamente político do pop chileno contemporâneo: canções com uma síntese perfeita entre o synth-pop dos anos 80 e a crítica social, com uma honestidade sobre a identidade sexual — ele é abertamente gay em um país onde isso ainda é um ato de visibilidade com consequências — que conectou diretamente com uma geração que se reconhecia em sua música.

Seu álbum Rebeldes (2014) — inteiramente autoproduzido — é um dos discos mais importantes do pop independente chileno: canções que soam como pop brilhante na primeira audição e que na segunda audição revelam uma camada de raiva política e dor pessoal que a primeira audição mal deixava adivinhar.

O Estouro Social e a Música

O dia 18 de outubro de 2019 também foi um momento de definição para a música chilena contemporânea. 28 artistas — entre eles Francisca Valenzuela, Cami, Gepe, Camila Moreno, Mon Laferte, Denisse Malebrán, Pedropiedra, Nano Stern, Javiera Parra e Manuel García — assinaram um comunicado coletivo repudiando a militarização das ruas e a violação dos direitos humanos.

Era a mesma imagem que a história chilena já havia produzido antes — os artistas ao lado do povo nos momentos de maior urgência — mas com uma nova geração, com novos instrumentos e com o mundo inteiro assistindo através das redes sociais. A linha que une Violeta Parra a Mon Laferte não é metafórica: é uma tradição viva que cada geração de artistas chilenos tem que decidir se continua ou não, e a geração do século XXI decidiu continuar com a mesma clareza que as anteriores.

Javiera Parra: O Legado como Conversa

Javiera Parra — neta de Violeta, filha de Ángel — é talvez o símbolo mais literal dessa continuidade: uma artista que carrega o sobrenome mais carregado da história musical chilena e que o transformou não em um peso, mas em uma conversa. Suas canções falam de Violeta com a intimidade de quem conhece sua avó através das canções antes que através das lembranças, e com a liberdade de quem sabe que a melhor homenagem não é a imitação, mas a continuação.

A Nova Cena: Sem Fronteiras de Gênero

A música chilena do século XXI também produz artistas que não se encaixam em nenhuma categoria estabelecida: Pedropiedra com sua mistura de hip-hop e canção de autor, Nano Stern com seu folk de raízes múltiplas, Francisca Valenzuela com seu pop de precisão artesanal, Princess Alba com seu pop urbano feminista, Manuel García com sua canção de autor de raiz latino-americana.

O que os une não é o gênero, mas a atitude: a convicção de que o Chile tem algo específico a dizer ao mundo e que esse específico vale exatamente o mesmo que o que vem de fora. Uma convicção que Violeta Parra formulou primeiro, que Víctor Jara levou às suas consequências mais radicais, e que cada geração de artistas chilenos tem que voltar a demonstrar com seu próprio trabalho.

Nota editorial: Mon Laferte mostrou o peito no Grammy Latino de 2019 com a mensagem "No Chile torturam, estupram e matam" enquanto o mundo assistia à cerimônia na televisão. No dia seguinte, lançou "Plata ta tá". Era exatamente o que Violeta Parra teria feito se tivesse acesso a essa plataforma: usar o maior palco disponível para dizer o que o poder preferiria que não fosse dito, sem pedir permissão, sem se desculpar, com a convicção de que a arte que não toma partido nos momentos que importam não é arte, mas decoração. A tradição mais profunda da música chilena não é um estilo musical, mas uma atitude em relação ao mundo: a recusa a cantar como se nada estivesse acontecendo quando tudo está acontecendo. Essa atitude tem setenta anos de história no Chile e mostra, em 2019 como em 1967 como em 1973, que não envelheceu.

10 · 0 en DoReSol

Top 10 da Música Chilena do Século XXI

#CanciónArtista
01

Sua Falta de Querer

Mon Laferte · 2015

A canção que relançou a música chilena para o mundo no século XXI. A artista chilena mais bem-sucedida da era digital em seu momento mais puro: a perda do amor transformada em pop perfeito.

Pendiente
02

Amárrame

Mon Laferte ft. Juanes · 2017

Grammy Latino de Melhor Canção Alternativa. Cumbia e bolero no mesmo espaço com a voz mais poderosa do pop alternativo latino-americano. Cinco indicações em uma única noite.

Pendiente
03

Plata ta tá

Mon Laferte ft. Guaynaa · 2019

Lançada no dia seguinte ao gesto no Grammy. A declaração política transformada em canção com o ritmo mais irresistível possível. Ativismo e dança na mesma peça.

Pendiente
04

Milhões

Camila Moreno · 2009

A estreia que ninguém esperava: a canção sobre injustiça econômica que chegou ao Grammy Latino e abriu a porta para o folk político mais honesto da nova geração chilena.

Pendiente
05

Fría

Gepe · 2016

O pós-folclore chileno em sua versão mais contemplativa. Cueca e indie pop no mesmo espaço sem que nenhum dos dois perca sua essência. A síntese mais perfeita do que Gepe vem construindo há vinte anos.

Pendiente
06

Rebeldes (álbum)

Alex Anwandter · 2014

O pop político mais preciso da cena indie chilena. Synth-pop de superfície brilhante e raiva política por baixo. A identidade sexual como ato de resistência no Chile contemporâneo.

Pendiente
07

Quememos el reino

Camila Moreno · 2019

A canção do levante. A raiva acumulada de uma geração que o sistema havia prometido incluir e que decidiu em outubro de 2019 que esperava demais há muito tempo.

Pendiente
08

El baile de los que sobran

cantada no levante · 2019

Não é nova — tem trinta e três anos — mas sua presença nas praças do Chile em 2019 é o momento mais importante da música chilena no século XXI: a demonstração de que as canções verdadeiras não envelhecem quando a injustiça que descrevem também não envelhece.

Pendiente
09

La China

Javiera Parra · 2007

A neta de Violeta reinventando o folclore com os instrumentos do indie. O sobrenome mais pesado da música chilena transformado em conversa e não em obrigação.

Pendiente
10

Mala Madre (álbum)

Camila Moreno · 2015

O álbum que consagrou Camila Moreno na cena nacional: três Prêmios Pulsar e a confirmação de que o folk político tinha futuro no Chile do século XXI além da nostalgia.

Pendiente

Fim da Série Chile

Cap.TemaStatus
1Música Tradicional e Folclore — cueca, mapuche, paya, Margot Loyola
2Violeta Parra — a fundadora, "Gracias a la Vida"
3A Nova Canção Chilena — Víctor Jara, Quilapayún, Inti-Illimani
4Exílio e Resistência — música fora do Chile, a Nova Canção
5Rock e Pop Chileno — Los Jaivas, Los Prisioneros, La Ley, Los Tres
6O Século XXI — Mon Laferte, Gepe, Camila Moreno, o levante

Série Chile completa. 6 de 6 capítulos.

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Encerramento da Série · Chile

Com este capítulo fechamos a série de 6 partes sobre Chile. Obrigado por lê-la.

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A série completa

Chile

Nueva canción, rock chileno, cueca, Violeta Parra e o legado. Um país que se reinventa cantando.

Capítulo 6 de 6 6 de 6 publicados
  1. CAP 01

    🇨🇱 Cap 01

    A Música Tradicional e o Folclore: As Três Raízes de um País Longo (séculos XVI–XX)

    O Chile é o país mais longo do mundo: 4.300 quilômetros de norte a sul, do deserto do Atacama — o mais árido do planeta — até os canais patagônicos e a Terra do Fogo. Nesse territó

    11 min 26/05/2026 Ler

  2. CAP 02

    🇨🇱 Cap 02

    Violeta Parra: A Fundadora (1917–1967)

    Existe uma maneira confortável e equivocada de lembrar Violeta Parra: como a senhora que cantava folclore chileno e escreveu "Gracias a la Vida". É uma redução que a transforma em

    11 min 27/05/2026 Ler

  3. CAP 03

    🇨🇱 Cap 03

    A Nova Canção Chilena: O Movimento que o Mundo Ouviu Após o Golpe (1965–1973)

    Em 1970, aconteceu algo que nunca havia ocorrido antes na história da América Latina: um governo socialista chegou ao poder por meio de eleições democráticas. **Salvador Allende**

    11 min 27/05/2026 Ler

  4. CAP 04

    🇨🇱 Cap 04

    O Exílio e a Resistência: A Música Chilena Fora do Chile (1973–1990)

    Em 11 de setembro de 1973, quando os aviões da Força Aérea chilena bombardearam o Palácio de La Moneda e o general Augusto Pinochet assumiu o poder, a música popular chilena se div

    10 min 27/05/2026 Ler

  5. CAP 05

    🇨🇱 Cap 05

    O Rock e Pop Chileno: A Geração que Falou de Dentro (1965–2000)

    A música chilena sob a ditadura tinha duas faces: a que cantava do exílio e a que cantava de dentro. A Nova Canção foi a face mais visível da resistência interna — mas não foi a ún

    10 min 27/05/2026 Ler

  6. CAP 06 você está aqui

    🇨🇱 Cap 06

    O Século XXI: A Música Chilena que Fala ao Mundo (2000–hoje)

    Em 18 de outubro de 2019, estudantes do ensino médio em Santiago começaram a pular massivamente as catracas do metrô para protestar contra um aumento de trinta pesos na tarifa. O q

    10 min 27/05/2026 você está aqui

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