🇫🇷 FR · França · Capítulo 2 de 7
O Cabaré e o Music Hall: O Paris que o Mundo Inteiro Queria Ser (1880–1960)
No final do século XIX, Paris era a cidade mais livre do mundo ocidental em um sentido muito específico: a liberdade de mostrar o corpo, de rir do poder, de misturar classes sociais no mesmo espaço, de fazer do espetáculo uma conversa sem censura entre o artista e seu público. Essa liberdade tinha um endereço postal: o **Montmartre** do final do século — o bairro da colina com seus cafés, seus cabarés, seus artistas famintos e seus burgueses que pagavam para estar em contato com algo que seus salões não podiam lhes oferecer.
O cabaret e o music hall foram as instituições que canalizaram essa liberdade. Não eram a mesma coisa: o cabaret era pequeno, íntimo, literário — o espaço onde Aristide Bruant insultava os ricos que vinham vê-lo e os ricos aplaudiam — enquanto o music hall era grande, espetacular, populista, projetado para grandes audiências que queriam nus artísticos, acrobatas, cantores famosos e a sensação de estar no centro do mundo.
As duas grandes salas que definiram a era do music hall parisiense foram o Moulin Rouge — inaugurado em 1889 no Boulevard de Clichy, com suas pás vermelhas e seu can-can que escandalizou a Europa vitoriana — e as Folies Bergère — abertas desde 1869 na Rue Richer, com suas revistas suntuosas onde as mulheres desfilavam em estados de seminudismo diante de públicos de parisienses e turistas que vinham especificamente para isso.
Manet pintou o bar das Folies Bergère em 1882 — uma das pinturas mais importantes do impressionismo — como se quisesse registrar para a história um mundo que sabia ser temporário: a garçonete inexpressiva diante do espelho que reflete o tumulto do local, a garrafa de champanhe, o burburinho de uma cidade que se entretém e se esquece.
Os Anos Loucos: O Mundo Celebra a Sobrevivência
A Primeira Guerra Mundial matou nove milhões de pessoas e deixou a Europa em estado de choque coletivo. O que se seguiu — os anos vinte, as années folles, os anos loucos — foi a resposta de uma geração que havia sobrevivido ao inimaginável e que decidiu celebrá-lo com uma intensidade que assustava os mais conservadores: mais dança, mais música, mais champanhe, mais nudez, mais velocidade.
Paris foi o centro dessa celebração. A cidade atraía artistas, escritores e músicos de todo o mundo — Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Gertrude Stein — que encontravam nela uma liberdade criativa que seus países de origem não ofereciam. E sobre essa Paris dos années folles, o music-hall reinou como a forma de entretenimento mais popular, mais viva e mais representativa do espírito da época.
Mistinguett: A Rainha que Segurou suas Pernas
Jeanne Florentine BourgeoisMistinguett — nasceu em Enghien-les-Bains em 1875 e chegou aos palcos do music hall parisiense no início do século XX como dançarina e cantora com uma energia e carisma que rapidamente a tornaram a artista mais popular da França.
Em 1912, durante uma apresentação no Folies Bergère, Mistinguett dançou com um jovem artista do music hall que seria o amor de sua vida: Maurice Chevalier. Juntos dançaram a valse chaloupée — uma valsa acrobática onde literalmente se entrelaçavam — e o casal artístico e sentimental que formaram durante uma década foi o fenômeno do espetáculo parisiense nos anos entre guerras.
Suas pernas eram lendárias — dizia-se que eram as mais famosas de Paris — e Mistinguett as segurou por um milhão de francos, em um dos primeiros atos de marketing pessoal na história do espetáculo. As canções que a tornaram famosa — "Mon Homme", "La Java", "Ça c'est Paris" — eram canções do bairro, da rua, das pessoas que trabalhavam e amavam e sofriam no Paris popular, cantadas com uma voz que não era bela no sentido operístico, mas que tinha a autenticidade de quem vem de baixo e sabe disso.
Maurice Chevalier: O Canotier que Conquistou Hollywood
Maurice Auguste Chevalier nasceu em 12 de setembro de 1888 em Ménilmontant — o mesmo bairro de Paris onde Piaf nasceria vinte e sete anos depois — em uma família operária. Ele foi acrobata de circo, imitador nos cafés-concerto do bairro, cantor nos cabarés de Montmartre. Em 1909, tornou-se parceiro artístico da grande estrela do music-hall Fréhel, que lhe conseguiu seus primeiros contratos importantes. Depois veio Mistinguett.
O que Chevalier construiu a partir dessa base foi um personagem único e inimitável: o boulevardier parisiense — o homem da rua que sabe o seu valor, que usa o chapéu de palha inclinado para um lado, que caminha com bengala, que sorri com aquele sorriso de quem está perfeitamente confortável consigo mesmo e com o mundo. Uma imagem de Paris que o mundo inteiro achava irresistível porque continha tudo o que Paris prometia: elegância sem solenidade, humor sem vulgaridade, amor sem drama.
Em 1925, estreou "Valentine" no Casino de Paris — sua primeira grande canção, com letra ligeiramente picante que na versão americana teve que ser censurada, embora Chevalier sempre apontasse para o nariz no momento exato para que o público entendesse o que não podia ser dito — e essa canção o lançou ao estrelato.
Em 1928, Hollywood o chamou. Ernst Lubitsch o dirigiu em "The Love Parade" (1929) ao lado de Jeanette MacDonald, em uma das comédias musicais mais sofisticadas que o cinema americano havia produzido até então. "Louise" — cantada nesse filme — tornou-se um de seus temas mais queridos no mundo anglófono. Passou sete anos na Califórnia, filmando com os melhores diretores da era dourada de Hollywood, enquanto seu sotaque francês e seu canotier o transformavam no símbolo vivo do que o mundo imaginava ser um francês.
Quando sua estrela americana se apagou e ele voltou para a França em 1935, foi o jovem Charles Trenet quem escreveu seus primeiros sucessos da segunda fase: "Y'a d'la joie" foi originalmente uma canção de Trenet que Chevalier estreou, antes de o próprio Trenet reivindicá-la para sua carreira solo.
Chevalier continuou atuando até os oitenta anos. Morreu em 1º de janeiro de 1972, o último sobrevivente da geração que havia inventado o music-hall parisiense.
Joséphine Baker: A Vênus de Ébano que Escolheu a França
Em 2 de outubro de 1925, uma companhia de dançarinos e músicos afro-americanos chegou a Paris para se apresentar no Théâtre des Champs-Élysées. A produção se chamava "La Revue Nègre" e entre seus integrantes estava uma dançarina de dezenove anos de St. Louis, Missouri, que havia crescido na extrema pobreza dos bairros negros do sul dos Estados Unidos e que havia vivido os pogroms raciais de East St. Louis de 1917 — quando uma turba branca destruiu o bairro negro e matou dezenas de pessoas — sendo uma menina de onze anos.
Freda Josephine McDonaldJoséphine Baker — chegou a Paris como parte de um coro e se tornou a maior estrela da Europa da noite para o dia. O público francês a descobriu no Danse Sauvage — um número de dança em que ela e seu parceiro Joe Alex interpretavam uma dança de inspiração africana com uma energia e uma sexualidade que o salão europeu nunca tinha visto — e o impacto foi imediato, total e irreversível.
No ano seguinte, o Folies Bergère a contratou para a revista "La Folie du Jour" (1926), onde Baker dançou com uma saia feita de dezesseis bananas de plástico e pouco mais. A apresentação foi uma sensação. Picasso, Hemingway, Le Corbusier, E.E. Cummings a admiravam. Chamavam-na de "a Vênus de Ébano", "a Pérola Negra", "a Sereia dos Trópicos". Ela era a artista mais bem paga da Europa.
O que Baker fazia com seu corpo no palco era, segundo os críticos que tentaram analisá-lo, uma mistura impossível de calcular: erotismo e humor ao mesmo tempo, energia física de uma intensidade que assustava e fascinava ao mesmo tempo, uma presença que fazia o palco parecer pequeno, mesmo que fosse o maior palco de Paris.
Baker escolheu a França como seu país. Ela se naturalizou francesa em 1937. E quando a guerra estourou, essa escolha foi total: ela se juntou à Resistência Francesa como agente de espionagem, usando sua fama e seus contatos internacionais para transportar informações confidenciais escondidas em suas partituras musicais — com tinta invisível — por toda a Europa ocupada. Ela colocava sua vida em risco em cada viagem. O general Charles de Gaulle a condecorou pessoalmente com a Legião de Honra e a Cruz de Guerra.
Após a guerra, ela adotou doze crianças de diferentes etnias e nacionalidades que chamou de sua "Tribo Arco-Íris" — um experimento de família universal que ela mesma descrevia como a demonstração de que a fraternidade humana era possível. Nos anos 60, ela apoiou ativamente o movimento pelos direitos civis de Martin Luther King nos Estados Unidos — o país que a havia expulsado com o racismo e para o qual ela voltou para dizer o que pensava.
Ela morreu de uma hemorragia cerebral em 12 de abril de 1975, em Paris, dois dias após sua última apresentação no palco — um show de gala para celebrar os cinquenta anos de sua chegada à França. Ela tinha sessenta e oito anos. Vinte mil pessoas alinharam-se nas ruas de Paris para ver sua procissão passar. Em 2021, o governo francês transferiu simbolicamente seus restos para o Panteão — o mausoléu dos grandes franceses — tornando-a a primeira mulher negra a receber essa honra.
Charles Trenet: O Louco Cantor e "La Mer"
Se o music hall foi o espetáculo dos anos vinte e trinta, Charles Trenet foi o artista que nos anos quarenta conectou esse mundo com a chanson mais poética e luminosa. Nascido em Narbonne em 1913, com a energia desenfreada de um comediante e a sensibilidade de um poeta, Trenet escreveu "La Mer" em 1945 — durante uma viagem de trem entre Montpellier e Perpignan, segundo a lenda, em vinte minutos olhando o Mediterrâneo pela janela.
"La Mer" é a canção francesa mais versionada da história: Bobby Darin a gravou em inglês como "Beyond the Sea" em 1959 e chegou ao Top 10 nos Estados Unidos. A rede de rádio estatal japonesa a adotou como jingle. Foi versionada em dezenas de idiomas. É talvez o fragmento de música francesa que mais pessoas no mundo ouviram sem saber que era francesa.
Trenet morreu em 2001, aos oitenta e sete anos, o último da grande geração do music hall e da chanson entre guerras — a ponte entre o mundo do canotier de Chevalier e o mundo do violão acústico de Brassens.
O Paris que Inventou o Século XX
O que o cabaré e o music-hall de Paris produziram no período de 1880 a 1960 não foi apenas entretenimento: foi uma forma específica de se relacionar com o corpo, com a liberdade, com a mistura de classes e culturas, com a sexualidade como matéria de arte, que influenciou tudo o que veio depois na cultura popular ocidental.
O can-can do Moulin Rouge, a saia de bananas de Joséphine Baker, o chapéu canotier de Chevalier, a voz de Mistinguett cantando "Mon Homme" — todas essas imagens circularam pelo mundo e construíram o mito de Paris como cidade da liberdade, do prazer inteligente, da arte que não teme o escândalo. É um mito que exagera e simplifica, como todos os mitos. Mas é um mito que essas artistas construíram com trabalho real, com risco real, com vidas que viveram sem pedir permissão.
Nota editorial: Joséphine Baker cruzou a Europa ocupada pelos nazistas com informações de inteligência escondidas nas partituras musicais, escritas com tinta invisível. Ela era a artista mais famosa da Europa e ninguém a inspecionava seriamente nas fronteiras — sua fama era sua cobertura. Há algo extraordinariamente literal nisso: uma mulher que usou o espetáculo como ferramenta de sobrevivência desde criança, agora usando-o como ferramenta de resistência. O corpo que o music-hall havia transformado em imagem tornou-se uma arma. A mesma pessoa, o mesmo palco, propósitos completamente diferentes.
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Top 10 do Cabaré e Music-Hall Francês
La Mer
Charles Trenet · 1945
A canção francesa mais regravada da história. Escrita em vinte minutos em um trem olhando para o Mediterrâneo. "Beyond the Sea" de Bobby Darin. A sintonia da Rádio Tóquio. O fragmento de música francesa que mais pessoas ouviram sem saber que era francês.
J'ai Deux Amours
Joséphine Baker · 1931
A declaração de dupla lealdade: meu país e Paris. A canção com que Baker resumiu toda a sua vida — a mulher de St. Louis que amou a França mais do que o país que a rejeitou.
Valentine
Maurice Chevalier · 1925
A primeira grande canção do homem do chapéu de palha. O som dos années folles destilado em três minutos de charme parisiense perfeitamente calculado.
Mon Homme
Mistinguett · 1920
O blues do amor desigual cantado do bairro popular de Paris. A rainha do music hall em sua versão mais honesta e poderosa.
Louise
Maurice Chevalier · 1929
O Chevalier de Hollywood, no filme de Lubitsch que levou o charme parisiense ao mundo inteiro. A canção que convenceu a América de que o sotaque francês era o mais sedutor do planeta.
La Java Bleue
Fréhel · 1938
A voz dos bairros pobres de Paris em sua forma mais autêntica. Fréhel cantando a vida que viveu — a pobreza, o amor e o abandono — com a honestidade de quem não tem nada a perder.
Ça c'est Paris
Mistinguett · 1926
O hino ao Paris dos années folles. Mistinguett cantando a cidade que a tornou famosa com a posse de quem sabe que a cidade também lhe pertence.
La Tonkinoise
Joséphine Baker · 1930
Baker cantando na encruzilhada entre o music-hall parisiense e os ritmos coloniais que a França trazia de além-mar. O primeiro grande sucesso discográfico da Vênus de Ébano.
Y'a d'la joie
Charles Trenet · 1937
A alegria de viver transformada em canção na véspera da guerra. Trenet aos vinte e quatro anos com a leveza de quem ainda não sabe o que vai acontecer.
La Valse Chaloupée
Mistinguett & Maurice Chevalier · 1912
A dança mais famosa do music-hall parisiense entre guerras. Dois artistas que também eram amantes, dançando entrelaçados um no outro diante de um Paris que os adorava.
A série completa
França
A chanson, o yé-yé, o rap francês. Uma tradição de letra antes da melodia.
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CAP 01
🇫🇷 Cap 01
La Chanson Française: A Arte de Cantar o que Não Pode Ser Dito de Outra Maneira (séculos XIX–presente)
Em francês existe uma palavra — chanson — que significa simplesmente "canção".
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CAP 02 você está aqui
🇫🇷 Cap 02
O Cabaré e o Music Hall: O Paris que o Mundo Inteiro Queria Ser (1880–1960)
No final do século XIX, Paris era a cidade mais livre do mundo ocidental em um sentido muito específico: a liberdade de mostrar o corpo, de rir do poder, de misturar classes sociai
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CAP 03
🇫🇷 Cap 03
O Yé-yé e o Pop Francês: A Geração que Reinventou a Canção com os Ouvidos Voltados para a América (1960–1980)
Em 22 de junho de 1963, uma multidão de duzentas mil pessoas se reuniu na Place de la Nation em Paris para um concerto ao ar livre organizado pela emissora de rádio **Europe 1** —
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CAP 04
🇫🇷 Cap 04
A Música Clássica Francesa: Debussy, Ravel, Satie e o Som que Mudou o Mundo (séculos XIX–XX)
Quando o jovem **Claude Debussy** estudava no Conservatório de Paris na década de 1880, os professores perguntavam repetidamente qual regra ele seguia ao compor suas harmonias pouc
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CAP 05
🇫🇷 Cap 05
O Jazz na França: Por que Paris Foi a Capital Mundial do Jazz (1920–1960)
No final dos anos vinte, um músico negro de Nova Orleans chamado **Sidney Bechet** chegou a Paris e se deparou com algo que nunca havia experimentado em seu país de origem: o públi
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CAP 06
🇫🇷 Cap 06
A Música Eletrônica Francesa: O French Touch que Redefiniu a Música de Club (1993–2021)
No dia 22 de fevereiro de 2021, um vídeo curto apareceu nas redes sociais do Daft Punk. Não havia palavras, não havia comunicado de imprensa. Apenas a imagem de dois robôs — os cap
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CAP 07
🇫🇷 Cap 07
O Hip-Hop Francês e o Século XXI: A Voz Daqueles que a República Preferia Não Ouvir (1982–hoje)
No verão de 1982, o promotor **Bernard Zekri** organizou em Paris o primeiro grande concerto de hip-hop realizado fora dos Estados Unidos. Chamou-se **New York City Rap Tour** e fo
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