A história por trás
Lejísimo, segundo o DoReSol
A primeira vez que Lejísimo soou ao vivo, no Teatro Astral de Buenos Aires em junho de 1987, o público não sabia que estava ouvindo algo mais do que uma canção: era o germe de uma viagem sonora que Spinetta carregava havia meses. A faixa abre Téster de violencia —o disco que gravou em 1988— com um ar etéreo, como se o próprio ar se estendesse entre os dedos dos músicos. A letra, com aquela imagem do céu "lejísimo" (distante demais), que não oferece respostas mas apenas perguntas, funciona como o contraponto perfeito ao peso conceitual do álbum: enquanto o disco explora a violência pelo corpo, Lejísimo a eleva ao espiritual sem cair em dogmas. Há um verso que resume tudo: "violenta ecuación de vivir sin un por qué" (equação violenta de viver sem um porquê), uma frase que soa tanto como um diagnóstico quanto como um consolo ao mesmo tempo.
O disco nasceu num momento em que a Argentina tentava respirar após a ditadura, mas o ar ainda estava carregado. Spinetta havia terminado La, la, la com Fito Páez, e pouco depois, o assassinato das mães de seu companheiro o marcou profundamente. Quando gravou Téster de violencia, o país já vivia as primeiras rachaduras da democracia: as leis de impunidade de 1986 e as rebeliões militares de 1987 lembravam que a violência não era apenas um conceito abstrato. Mono Fontana, responsável por todos os arranjos de teclado, deu ao álbum uma textura que oscila entre o cru e o etéreo, e Lejísimo é o exemplo mais claro: a bateria de Jota Morelli lateja com uma precisão quase clínica, enquanto as guitarras de Spinetta e Guillermo Arrom se entrelaçam num diálogo que parece flutuar. Quatro minutos e quarenta segundos de duração, mas o tempo se dissolve quando a faixa entra naquela "evaporação" que Spinetta mencionava: não é uma canção que se canta, é uma que se habita.
Do álbum
Tester de violencia
Luis Alberto Spinetta · 1988 · Track 1
Dados
Créditos
Letra Luis Alberto Spinetta
Música Luis Alberto Spinetta