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Do álbum
Kind of Blue
Miles Davis · 1959 · Track 2
Dados
A história por trás
Em Freddie Freeloader o blues se desmonta e se remonta de outra forma. Não é um doze compassos qualquer: toma a estrutura clássica do gênero, mas no último acorde de cada volta —onde normalmente iria um B♭7— surge um A♭7, um giro que desestabiliza a progressão e lhe dá aquele ar de suspense que nunca chega a se resolver. Wynton Kelly, o pianista da sessão, carrega o peso rítmico com um fraseado que cheira a taverna e a suor, como se cada nota estivesse contando uma história de bares da Filadélfia ou noites em Nova York onde o blues se mistura com algo mais livre. A trompete de Miles Davis entra depois, serena mas com aquela tensão que só ele sabia imprimir, enquanto os saxofones de John Coltrane e Cannonball Adderley se enredam em improvisações que soam como uma conversa entre velhos amigos que se entendem sem palavras.
A gravação do tema ocorreu em 2 de março de 1959 nos estúdios da Columbia em Nova York, no meio daquelas sessões que terminariam dando forma a Kind of Blue. Kelly substituiu Bill Evans no piano para esta faixa, e a mudança não foi casual: Evans vinha tocando com Miles em 1958, mas neste tema buscavam um som mais terreno, mais próximo do blues do que do jazz cerebral. O título, segundo contam, vem de um tal Freddie, um cara que se infiltrava nos concertos sem pagar —um *freeloader*— ou talvez da caricatura de Red Skelton, aquele palhaço vagabundo que todos lembravam. O certo é que a peça, com seus quase dez minutos de duração, tornou-se uma daquelas obras que não envelhecem: continua soando fresca porque, no fundo, não é só blues nem só jazz modal, mas as duas coisas ao mesmo tempo.