🇺🇾 UY · Uruguai · Capítulo 1 de 5
O Candombe: Os Tambores que Sobreviveram a Tudo (século XVIII–hoje)
Na segunda metade do século XVIII, o Porto de Montevidéu era a única entrada
No final do século XVIII, 35% da população de Montevidéu era de descendência africana. Essa proporção — extraordinariamente alta para qualquer cidade do Cone Sul — foi a condição material que possibilitou o que estava por vir: a sobrevivência e transformação das tradições musicais africanas em algo que o Uruguai acabaria reconhecendo como seu patrimônio cultural mais próprio e insubstituível.
Os escravos trazidos para Montevidéu não vinham de uma única região ou de uma única cultura. Eles vinham de dezenas de povos diferentes, com línguas diferentes, cosmologias diferentes, tradições rítmicas diferentes. O que tinham em comum era o tambor como instrumento central da vida espiritual e comunitária, e a disponibilidade dos dias de festa — principalmente 6 de janeiro, Dia de Reis, quando Baltasar, o rei mago negro, era o protagonista — para se reunir e recriar no espaço reduzido da colônia o que haviam perdido na travessia do oceano.
Esses encontros — que por volta de 1800 eram conhecidos como tangos ou tambos — foram a origem de tudo. O termo candombe foi documentado pela primeira vez em 1830, e já descrevia algo específico: uma forma de reunião musical e de dança da comunidade afro-montevidéu que tinha seu próprio vocabulário rítmico, seus próprios personagens, suas próprias regras de participação.
As Salas de Nação: Os Primeiros Espaços do Candombe
A instituição que permitiu que o candombe sobrevivesse nos séculos coloniais foram as Salas de Nação — associações de pessoas escravizadas e libertas organizadas por origem étnica ou regional, que as autoridades coloniais toleravam como válvula de escape social e que os próprios africanos usavam como espaços de preservação cultural, ajuda mútua e resistência silenciosa.
Cada Sala de Nação tinha seu próprio rei e rainha — escolhidos pela comunidade, não pelos colonizadores — e suas próprias práticas rituais. Nessas salas, foram preservados os cantos, as danças, os tambores e as memórias dos países de origem durante décadas de escravidão e marginalização. Não eram apenas espaços de entretenimento, mas arquivos vivos de culturas que o sistema colonial tentava apagar.
À medida que o século XIX avançava e a escravidão foi legalmente abolida no Uruguai (1842), as Salas de Nação foram se transformando em comparsas — grupos carnavalescos que desfilavam pelas ruas de Montevidéu e levavam o candombe ao espaço público. Os cortiços do Bairro Sur — as habitações coletivas onde se concentrava a comunidade afro-montevideana — tornaram-se os novos centros do candombe urbano.
O Instrumento: Três Tambores, Um Universo
O que torna o candombe musicalmente único no mundo é seu sistema de percussão: três tambores de tamanhos diferenteschico, repique e piano — que funcionam como um organismo coletivo onde cada um tem uma função específica e insubstituível.
O chico é o tambor menor e de som mais agudo. Marca o tempo com uma regularidade quase metronômica — é a espinha dorsal rítmica que mantém todo o conjunto unido. O repique é o tambor médio, o improvisador: sua função é a síncope e o diálogo com o chico, adicionando variações e respondendo ao que fazem os outros dois. O piano é o tambor maior e mais grave — seu nome no candombe não vem do instrumento de teclado, mas de sua função melódica dentro do conjunto: leva a "melodia" rítmica, as frases mais longas e mais complexas.
Os três tambores são tocados batendo a pele com a mão aberta e com uma baqueta que também pode bater na madeira do corpo do tambor — a técnica de bater no lado do tambor é chamada de hacer madera e adiciona outra camada tímbrica à mistura. Os tambores são pendurados no pescoço com uma correia chamada talí, permitindo tocar enquanto se caminha no desfile.
Uma cuerda completa pode ter entre 50 e 100 tamboristas — todos tocando o mesmo ritmo base com variações específicas de acordo com seu instrumento — e o efeito sonoro resultante, quando dezenas de tambores dos três tamanhos tocam juntos na rua, é um dos sons mais fisicamente poderosos que a música popular latino-americana produziu. Não se ouve apenas com os ouvidos: sente-se no peito.
Antes de cada chamada, os tamboristas acendem fogueiras nas ruas para tensionar as peles de seus tambores — o calor faz com que o couro se estique e o som fique mais claro e preciso. Esse ritual de afinação ao redor do fogo é um dos momentos mais vivos do candombe: a comunidade reunida antes de sair, o cheiro do fogo, o som das primeiras notas de ensaio ressoando nas paredes dos cortiços.
Os Personagens: A Memória Viva da Origem
À frente da linha de tambores desfilam os personagens simbólicos do grupo — figuras que incorporam a memória da escravidão e dos ancestrais africanos e que dão ao candombe sua dimensão teatral e espiritual:
O Gramillero representa o curandeiro tradicional africano — o feiticeiro da tribo que conhecia as plantas medicinais (gramillas) e tinha acesso ao mundo dos espíritos. Ele veste casaca e cartola da era colonial, carrega uma bengala e uma pequena mala com suas ervas. É o ancião sábio, a conexão com o conhecimento ancestral.
A Mama Vieja é a Governanta: a mulher de autoridade na comunidade, aquela que guardava as tradições e transmitia a cultura de geração em geração. Ela dança com leque e sombrinha, com a dignidade serena de quem sabe que sua memória é o mais valioso que possui.
O Escobero é o mais acrobático dos personagens: aquele que abre caminho para o grupo com sua vassoura, afastando os maus presságios. Ele faz malabarismos com um cabo de vassoura — girando-o atrás das costas, lançando-o ao ar, equilibrando-o em um dedo — com uma habilidade que pode levar anos para dominar completamente.
Esses três personagens não são fantasias de carnaval no sentido convencional: são papéis de alto valor cultural e simbólico que são transmitidos dentro das famílias e dos grupos, e que carregam o peso de representar os ancestrais no espaço público.
As Chamadas: O Desfile Mais Importante do Uruguai
O maior evento de candombe é o Desfile de Chamadas — o nome vem da prática original de "chamar" a comunidade com tambores para sair à rua e se juntar à celebração. É realizado todos os anos em fevereiro, durante o carnaval, nos bairros Sur e Palermo de Montevidéu.
Durante duas noites consecutivas, mais de 2.000 tambores desfilam pelas ruas do bairro histórico do candombe no maior evento do seu tipo no mundo. As comparsas competem em técnica, figurino, coreografia, e na qualidade e coesão de sua corda de tambores. As varandas dos cortiços do Bairro Sur ficam cheias de espectadores. As ruas literalmente vibram.
O Desfile de Chamadas é também o momento em que as cordas dos três bairros históricos — Sur, Palermo e Cordón — mostram seus estilos específicos: cada bairro tem um toque ligeiramente diferente do piano que é sua assinatura sonora e que os entendidos reconhecem imediatamente. Diversidade dentro da unidade.
Repressão e Resistência
O candombe sobreviveu a vários séculos de pressão institucional. As autoridades coloniais o toleraram como uma válvula de escape, mas o mantiveram sob vigilância. As autoridades republicanas do século XIX o perseguiram periodicamente. E em 1978, a ditadura militar que governava o Uruguai desde 1973 ordenou o despejo dos cortiços no Bairro Sur — sob o pretexto técnico de risco de desabamento — dispersando a comunidade afro-montevideana que havia sido o coração do candombe durante séculos.
Foi o golpe mais duro que o candombe havia recebido em sua história moderna. Mas não foi suficiente para matá-lo: as famílias afrodescendentes mantiveram a prática viva em outros espaços, e quando a ditadura terminou em 1985, o candombe iniciou seu processo de revitalização e reconhecimento institucional, culminando com a declaração de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2009.
O Candombe no Século XX: Da Rua ao Disco
Ao longo do século XX, o candombe saiu dos cortiços e entrou no estúdio de gravação. Os artistas que fizeram essa transição — que trouxeram o ritmo dos tambores de rua para a linguagem da canção popular, do rock e do jazz — são responsáveis por o candombe ser conhecido hoje além dos bairros de Montevidéu.
El Kinto — o grupo fundado nos anos sessenta pelo percussionista e cantor Rubén Rada junto com o pianista Eduardo Mateo — foi o primeiro experimento de candombe-rock: tambores afro-montevideanos misturados com a eletricidade e a atitude do rock anglo-saxão. Foi uma pequena e seminal revolução.
Ruben Rada — nascido em 1943 no Barrio Sur, filho de uma família de tamborileiros — tornou-se o artista que mais fez para levar o candombe ao pop internacional: sua voz, seu ritmo e sua maneira de integrar os tambores em arranjos de pop e jazz contemporâneo são únicos na música uruguaia.
Jaime Roos — branco, do bairro Palermo, músico de formação clássica — teve uma das relações mais produtivas e complexas que qualquer artista uruguaio não afrodescendente teve com o candombe. Sua canção "Brindis por Pierrot" (1984) é uma das mais belas homenagens que a canção popular uruguaia produziu ao mundo do carnaval e do candombe: três minutos que capturam o espírito de uma noite de Llamadas com a precisão de alguém que a viveu por dentro sem ter nascido nela.
Nota editorial: O dia 6 de janeiro — Dia de Reis — era a data mais importante do calendário candombe colonial. Os escravos de Montevidéu saíam às ruas nesse dia com seus tambores, trajes e cantos porque as autoridades não podiam negar-lhes a participação em uma festividade cristã. Era a brecha no sistema: a religião do opressor usada como cobertura para preservar a cultura do oprimido. Baltasar — o rei mago negro — era o pretexto perfeito. Os tambores soavam em nome de um rei mago africano e ninguém podia proibi-lo sem proibir também o Natal. Duzentos anos depois, esses mesmos tambores soam todos os domingos no Barrio Sur. A brecha tornou-se tradição. A tradição tornou-se patrimônio da humanidade.
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Top 10 do Candombe Uruguaio
Candombe del 900
Rubén Rada · 1982
O grande artista do candombe pop uruguaio recriando as origens do gênero. A ponte entre a tradição afro-montevideana e a canção popular contemporânea em sua forma mais perfeita.
Brindis por Pierrot
Jaime Roos · 1984
A homenagem mais bela que um músico uruguaio não afrodescendente fez ao mundo do candombe e do carnaval. Três minutos que capturam uma noite de Llamadas por dentro.
Dedos
El Kinto (Eduardo Mateo & Rubén Rada) · 1970
O primeiro grande experimento de candombe-rock. Mateo e Rada inventando uma linguagem musical que ninguém antes havia imaginado possível no Uruguai.
Barrio Sur
Rubén Rada · 1984
O bairro histórico do candombe transformado em canção de amor. Rada cantando para os cortiços e as chamadas com a ternura de quem cresceu ouvindo esses tambores.
Tirana
Los Olimareños · 1971
A melodia mais conhecida do candombe tradicional cantada pela dupla que levou a música popular uruguaia à sua maior profundidade política e poética.
Kambalache
Rubén Rada · 1991
Rada em sua versão mais internacional: o candombe como groove exportável, a voz dos tambores montevideanos chegando a audiências que nunca tinham ouvido as Chamadas.
O Canto da Comparsa
La Comparsa Marabunta · tradicional
A voz coral da comparsa em sua forma mais pura: o canto que acompanha os tambores no desfile, a melodia que a corda leva pelo Bairro Sur todo fevereiro.
Quem Vai Lavar a Roupa
Eduardo Mateo · 1972
Mateo — o gênio mais misterioso da música uruguaia — levando o candombe para o jazz e a melodia com uma delicadeza que o gênero raramente havia mostrado antes.
A redoblar
Alfredo Zitarrosa · 1966
O grande trovador do Uruguai usando o ritmo do candombe como base para uma canção de conteúdo político. O tambor como instrumento de protesto e identidade.
Las Llamadas (desfile ao vivo)
todo fevereiro
A gravação do desfile não existe como objeto discográfico — existe como experiência. Mas qualquer gravação ao vivo de Las Llamadas no Barrio Sur é um documento musical sem equivalente no continente.
A série completa
Uruguai
Candombe, murga, canto popular e rock platense. Uma identidade rioplatense distinta.
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🇺🇾 Cap 01
O Candombe: Os Tambores que Sobreviveram a Tudo (século XVIII–hoje)
Na segunda metade do século XVIII, o Porto de Montevidéu era a única entrada
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CAP 02 Em breve
🇺🇾 Cap 02
El Tango Rioplatense: La Orilla que Argentina Prefiere Olvidar (1880–hoy)
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CAP 04 Em breve
🇺🇾 Cap 04
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🇺🇾 Cap 05
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