🇨🇺 CU · Cuba · Capítulo 4 de 6

A Nova Trova: A Canção que Não Pôde Ser Silenciada (1967–presente)

Em 19 de janeiro de 1968, três jovens músicos cubanos subiram ao palco da Casa de las Américas em Havana para um concerto organizado pelo recém-fundado Centro da Canção de Protesto. Seus nomes eram Silvio Rodríguez, Pablo Milanés e Noel Nicola. Nenhum deles tinha mais de vinte e cinco anos. Nenhum havia gravado um álbum ainda. A noite avançou e em um determinado momento —conta o próprio Silvio— eles ficaram sem canções de protesto. Então, da plateia, Vicente Feliú, Eduardo Ramos e Martín Rojas levantaram a mão: eles também tinham canções. Foram convidados a subir.

10 min de leitura publicado 27/05/2026 5 leituras por DoReSol
A Nova Trova: A Canção que Não Pôde Ser Silenciada (1967–presente)

Aquela noite, quase por acidente, foram definidos os contornos do que se tornaria o movimento cultural mais influente da música cubana pós-revolucionária: a Nueva Trova.

Não foi um ato fundacional solene nem uma declaração de princípios. Foi um grupo de jovens com violões que tinham algo a dizer e que encontraram, naquele momento e naquele lugar, um público disposto a ouvir.

O contexto: a Revolução e a canção

Para entender a Nueva Trova, é preciso entender o que Cuba era em 1968. A Revolução de 1959 havia transformado o país de maneira radical: havia eliminado a indústria fonográfica privada, fechado cassinos e cabarés, exilado grande parte dos músicos que haviam construído a tradição do son e do bolero, e estabelecido um sistema de cultura estatal que controlava a produção e distribuição artística. Ao mesmo tempo, havia criado novas instituições —o ICAIC, a Casa de las Américas, as escolas de arte— que ofereciam aos artistas recursos e audiências que antes não existiam.

Os jovens que fundaram a Nueva Trova haviam crescido dentro desse sistema. Eram filhos da Revolução no sentido mais literal: haviam sido formados por suas instituições, absorvido sua linguagem e seus valores, e queriam expressar de dentro o que sentiam e pensavam. Mas também haviam escutado Bob Dylan, Joan Baez, os Beatles, Chico Buarque, Violeta Parra e Víctor Jara. E queriam fazer algo que incorporasse tudo isso sem renunciar à tradição trovadoresca cubana que vinha de Pepe Sánchez e Sindo Garay.

O resultado foi um gênero sem precedentes: canções de uma densidade poética extraordinária, construídas sobre o violão acústico como base, mas abertas a qualquer influência musical, com letras que podiam falar de amor com a mesma intensidade com que falavam de política, e que operavam na zona de tensão entre o compromisso ideológico e a liberdade artística.

O Grupo de Experimentação Sonora do ICAIC

Em 1969, um ano após aquele concerto fundacional, o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica criou o Grupo de Experimentação Sonora sob a direção do guitarrista e compositor Leo Brouwer. O objetivo era desenvolver uma nova linguagem musical para o cinema cubano, mas o grupo rapidamente se tornou o laboratório onde a Nova Trova tomou sua forma definitiva.

Lá, Silvio Rodríguez, Pablo Milanés, Noel Nicola, Sara González, Amaury Pérez e outros jovens compositores se reuniram sob a orientação de Brouwer, que lhes abriu as portas para o jazz, a música eletroacústica, a bossa nova brasileira, o folk norte-americano e a música clássica contemporânea. O ICAIC os protegeu dos funcionários mais ortodoxos do aparato cultural revolucionário — que viam com desconfiança suas influências estrangeiras e seu estilo informal — e lhes deu o tempo e o espaço para desenvolver sua própria linguagem.

Em dezembro de 1972, um encontro de jovens trovadores em Manzanillo formalizou o movimento sob o nome de Movimento da Nova Trova. A partir desse momento, teve uma estrutura institucional, embora sua energia criativa já estivesse em pleno desenvolvimento.

Silvio Rodríguez: o poeta da Revolução e suas contradições

Silvio Rodríguez Domínguez nasceu em San Antonio de los Baños, província de Havana, em 29 de novembro de 1946. Ele foi o mais prolífico, o mais enigmático e o mais influente dos trovadores de sua geração. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, compôs mais de quinhentas e sessenta canções e lançou cerca de vinte álbuns de estúdio, tornando-se o compositor cubano mais reconhecido internacionalmente do século XX ao lado de Ernesto Lecuona — uma distinção que Cuba lhe concedeu oficialmente ao final do século.

Seu idioma poético é inconfundível: imagens surreais, metáforas que não se explicam, mas se sentem, uma tendência ao simbolismo e à alusão que transforma suas canções em objetos abertos a múltiplas interpretações. "Ojalá" — com esse desejo de que o amor vá embora para poder deixar de amá-lo — é uma das canções de desamor mais originais da música em espanhol. "Pequeña Serenata Diurna" tem a alegria mais pura de toda a sua obra. "La Era Está Pariendo un Corazón" captura o espírito utópico dos primeiros anos da Revolução com uma energia que ainda eletriza.

Sua relação com o regime foi sempre complexa. Silvio foi em alguns momentos censurado e em outros celebrado pelas mesmas autoridades. Seu programa de televisão Mientras Tanto foi cancelado nos anos sessenta porque os funcionários consideravam que o estilo informal das apresentações era inadequado. E, no entanto, ele continuou trabalhando dentro do sistema, convencido — ou pelo menos agindo como se estivesse convencido — de que a Revolução era o quadro certo para sua arte.

Em suas últimas décadas, Silvio realizou turnês de concertos gratuitos pelos bairros mais pobres de Cuba, financiados por ele mesmo. Morreu em Havana em 26 de maio de 2025, aos setenta e oito anos, deixando uma obra que nenhum acontecimento político pode reduzir ou ampliar: está lá, completa, e é grande.

Seus álbuns fundamentais são Días y Flores (1975) — sua estreia formal e o mais direto de toda a sua obra —, Al Final de Este Viaje (1978) — que contém "Ojalá", "Canción del Elegido" e "Óleo de Mujer con Sombrero" —, Rabo de Nube (1980) — com as orquestrações mais elaboradas de sua carreira — e Unicornio (1982) — cuja canção homônima, baseada na história de alguns vaqueiros roubados que Silvio chamava de seu unicórnio, tornou-se um hino geracional em toda a América Latina.

Pablo Milanés: o romântico que também era político

Pablo Milanés Arias nasceu em Bayamo, Granma, em 24 de fevereiro de 1943. Ao contrário de Silvio, que vinha da tradição do feeling e da experimentação sonora, Milanés tinha uma formação mais clássica: estudou no Conservatório Municipal de Havana e absorveu desde jovem a música norte-americana, a bossa nova brasileira e o son cubano tradicional. Sua voz — melosa, cálida, com uma afinação impecável — era exatamente o oposto da de Silvio: onde este era angular e críptico, Milanés era redondo e acessível.

Essa acessibilidade foi sua maior força. Suas canções chegavam onde as de Silvio demoravam mais para chegar: às pessoas que não buscavam poesia, mas emoção direta. "Yolanda" — composta em 1970 e que com o tempo se tornou um dos hinos de amor mais cantados de toda a música em espanhol — é a prova definitiva dessa capacidade. É uma canção sobre o amor a uma mulher específica que se tornou a canção sobre o amor a qualquer pessoa. "Para Vivir", "Yo No Te Pido", "El Breve Espacio en que No Estás", "Cuánto Gané, Cuánto Perdí": todas são canções que transcendem o contexto político que as gerou para falar do que não tem contexto.

Mas Milanés também foi político e corajoso. "Yo Pisaré las Calles Nuevamente" — escrita em homenagem às vítimas do golpe militar de Pinochet no Chile em 1973 — é um dos documentos mais comoventes da solidariedade latino-americana na música. Suas turnês pela América Latina, suas colaborações com Chico Buarque, Mercedes Sosa, Joan Manuel Serrat, Fito Páez e Ana Belén — reunidas no álbum duplo Querido Pablo de 1985 — demonstraram que a Nueva Trova havia conseguido algo que poucas correntes musicais de sua época conseguiram: ser simultaneamente cubana e latino-americana, revolucionária e universal.

Em suas últimas décadas, ele se distanciou publicamente do governo cubano e manifestou claramente sua decepção com o rumo da Revolução. Morreu em Madri em 22 de novembro de 2022, aos setenta e nove anos. O luto foi continental.

Noel Nicola, Sara González e a geração completa

Além de Silvio e Pablo — os dois nomes que o mundo conheceu — a Nueva Trova teve uma geração completa de trovadores de primeira linha. Noel Nicola foi o terceiro do trio fundador: menos conhecido fora de Cuba, mas essencial para entender o movimento como um todo, com canções de uma delicadeza e ironia que seus contemporâneos mais famosos nem sempre tinham. Sara González foi a voz feminina mais importante do movimento, intérprete de "Un Hombre se Levanta" de Silvio e compositora de suas próprias canções de intensidade excepcional. Vicente Feliú, Amaury Pérez e Eduardo Ramos completaram uma geração que, em conjunto, representa um dos momentos mais altos da canção popular cubana.

A Nova Trova e a América Latina

A influência da Nova Trova na música latino-americana dos anos setenta e oitenta foi direta e profunda. O movimento da Nova Canção — que no Chile teve Víctor Jara e Violeta Parra, na Argentina Mercedes Sosa e León Gieco, no Uruguai Daniel Viglietti — encontrou na Nova Trova cubana um interlocutor natural e um espelho. Quando Víctor Jara foi assassinado no Estádio Chile após o golpe de Pinochet em 1973, Silvio Rodríguez e Pablo Milanés o transformaram em símbolo de toda uma geração de artistas comprometidos.

As turnês de ambos os trovadores pela Argentina, México, Espanha e toda a América Latina nos anos setenta e oitenta levaram a música cubana pós-revolucionária a audiências que nunca tinham tido acesso a ela. Na Espanha — que naqueles anos estava saindo da ditadura franquista e construindo sua própria democracia — a Nova Trova foi recebida com uma intensidade emocional que surpreendeu os próprios cubanos: era a música da liberdade para um país que acabava de encontrar a sua.

A Tensão Interna: Arte e Revolução

A história da Nueva Trova não pode ser contada sem falar de suas contradições. O movimento nasceu dentro da Revolução e às vezes foi celebrado por ela, mas também foi monitorado, ocasionalmente censurado e pressionado para que seus conteúdos servissem aos objetivos do Estado. Alguns de seus membros — como Pablo Milanés em seus últimos anos — tomaram posições publicamente críticas ao governo cubano. Outros — como o próprio Silvio Rodríguez — mantiveram até o fim uma fidelidade ao projeto revolucionário que muitos na América Latina acharam difícil de entender.

Essa tensão entre o artista e o Estado, entre a liberdade criativa e o compromisso ideológico, é em si mesma parte do que torna a Nueva Trova tão fascinante como objeto de estudo e como experiência humana. Suas melhores canções carregam essa tensão dentro: são simultaneamente livres e comprometidas, pessoais e políticas, cubanas e universais. Essa impossibilidade resolvida em música é sua maior conquista.

O Legado

A Nueva Trova mudou o que a canção popular latino-americana poderia ser. Demonstrou que o violão e a voz poderiam ser instrumentos de uma complexidade poética comparável à de qualquer arte maior. Que o compromisso político não precisava empobrecer a forma artística. Que era possível fazer canções que falassem ao mesmo tempo de amor e do mundo, da pessoa amada e do continente em chamas.

Silvio Rodríguez e Pablo Milanés são, junto com Chico Buarque, os cantautores em espanhol e português mais importantes da segunda metade do século XX. Isso não é uma opinião: é o consenso de cinco décadas de crítica musical e de milhões de pessoas em toda a América Latina que cresceram com suas canções como trilha sonora de suas vidas.

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Top 10 Álbuns Essenciais da Nova Trova Cubana

#CanciónArtista
01

No Final Desta Viagem

Silvio Rodríguez

1978

Pendiente
02

Dias e Flores

Silvio Rodríguez

1975

Pendiente
03

Yolanda

Pablo Milanés

1982

Pendiente
04

Unicornio

Silvio Rodríguez · 1982

1982

Canción5:10
05

Pablo Milanés

Pablo Milanés

1975

Pendiente
06

Rabo de Nube

Silvio Rodríguez

1980

Pendiente
07

Querido Pablo

Pablo Milanés e vários artistas

1985

Pendiente
08

Tríptico

Silvio Rodríguez

1984

Pendiente
09

Noel Nicola

Noel Nicola

1975

Pendiente
10

Como um Campo de Milho

Pablo Milanés

2005

Pendiente
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A série completa

Cuba

Son, mambo, bolero, timba. A ilha que inventou metade do Caribe.

Capítulo 4 de 6 6 de 6 publicados
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