A história por trás
Organismo en el aire, segundo o DoReSol
Há canções que nascem de um instante de silêncio entre o barulho de fora e o que carregamos dentro. Organismo en el aire é uma delas: Spinetta a escreveu em sua casa em Buenos Aires, na rua Elcano, enquanto seus três filhos pequenos corriam pela casa. O peso dessa solidão —aquela que não escolhe, que se infiltra pelas frestas do dia— tornou-se o primeiro verso: *"Sentado na varanda, olhando o mar, compreendo como é a solidão".* Não é um lamento, mas uma observação fria, quase científica, como se o Flaco tivesse posto esse vazio que todos carregamos sob um microscópio. A canção avança em um clima de suspense, onde os teclados de Juan Carlos "Mono" Fontana —que assina todos os arranjos do álbum— tecem uma atmosfera densa, como se o próprio ar fosse um organismo vivo que respira lentamente. A faixa, a sétima do disco, é a mais longa de Téster de violencia (6:46), e sua estrutura joga com essa ideia de evaporação que o artista mencionou: não cai sobre o corpo, mas se dissolve, torna-se etéreo, como o título que a fecha: *"organismo en el aire"*, essa presença que tudo dirige sem tocar em nada.
O contexto em que essa música nasceu é tão denso quanto seu som. Spinetta acabara de gravar La, la, la com Fito Páez, um disco duplo que os levou a tocar pelo país enquanto a Argentina tentava digerir o retorno da democracia. Mas naquele mesmo ano, o assassinato das mães de Fito Páez —um fato que marcou o cantor rosarino— deixou uma marca indelével em ambos. Spinetta, por sua vez, canalizou essa dor em Téster de violencia, um álbum que não fala da violência como um ato externo, mas como algo que habita os corpos, os gestos cotidianos, a forma como respiramos. O disco foi gravado em 1988, mas sua semente estava em 1987, quando o Flaco estreou Organismo en el aire no teatro Astral em Buenos Aires. Na época, o país já havia condenado as juntas militares (1985), mas as leis de impunidade de 1986 e as sublevações dos carapintadas em 1987 lembravam a todos que a violência não era apenas uma lembrança, mas um presente que se infiltrava em cada decisão. O álbum, eleito o melhor do ano pela Encuesta Anual do Clarín, foi gravado em três dias com equipamentos emprestados e lançado no mercado como um grito contido: Spinetta não buscava vender discos, mas um som que refletisse o peso de viver em um país que ainda não havia terminado de se curar. E no meio desse ruído, Organismo en el aire flutua, leve e pesado ao mesmo tempo, como se fosse a trilha sonora daquele instante em que a solidão e a presença se roçam sem se tocar.
Do álbum
Tester de violencia
Luis Alberto Spinetta · 1988 · Track 7
Dados
Créditos
Letra Luis Alberto Spinetta
Música Luis Alberto Spinetta