A história por trás
Os Prisioneros transformaram o som de uma marcha militar no primeiro compasso de «Jugar a la guerra». A canção começa com redobros de tambor que se transformam em trompetes de rendição, como se o exército já tivesse perdido antes mesmo de começar. Não há espaço para heroísmos: a faixa avança com um ritmo que mistura o marcial com toques de rockabilly, enquanto o baixo marca o passo e as guitarras entrelaçam-se num jogo de ecos que lembram interferências de rádio. Na versão chilena, o ouvinte ouve alarmes distantes e vozes distorcidas, como se o conflito estivesse a ocorrer noutra frequência. A ironia não é casual: em 1987, quando o álbum «La cultura de la basura» foi lançado, o Chile continuava sob o regime de Augusto Pinochet, e uma canção que ridicularizava o poder militar era, por si só, um ato de resistência.
A letra, escrita por Jorge González em junho desse ano, não fala de batalhas épicas, mas sim dos generais que acumulam riqueza enquanto decidem o destino dos outros. O texto brinca com a linguagem burocrática do exército — cargos, patentes, ordens — para mostrar a sua frieza, como se a guerra fosse mais um trâmite na sua agenda. A edição chilena do álbum, lançada em dezembro de 1987, incluiu esta faixa como sexta canção, mas na versão latino-americana que chegou ao Peru, à Bolívia, à Colômbia e à Venezuela um ano depois, a canção surgiu remisturada: a introdução com as trompetes foi eliminada e o baixo foi reforçado, encurtando a duração de 4:38 para 3:25. No Equador, chegou mesmo a circular uma edição em vinil com faixas diferentes. A censura nas rádios chilenas foi imediata: em plena ditadura, uma canção que ridicularizava as forças armadas não tinha lugar nos meios de comunicação controlados pelo regime. No entanto, noutros países da região, o álbum teve repercussão, especialmente entre os jovens que viam no rock dos Los Prisioneros uma forma de protestar sem armas.