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Acordes em preparação
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Do álbum
Kamikaze
Luis Alberto Spinetta · 1982 · Track 6
Dados
A história por trás
Na primeira vez que Barro tal vez toca, nota-se que algo não encaixa totalmente no que se espera de uma zamba. Não é só pelos acordes iniciais —lá menor e sol maior— que já lhe dão um ar melancólico, mas porque essa combinação se rompe justamente quando o refrão chega ao seu ponto mais alto. Ali, onde uma zamba tradicional manteria seu ritmo, Spinetta acelera o pulso para gritar o título da canção, como se a própria argila se tornasse voz. E não é por acaso que esse momento ocorre: a faixa foi gravada à noite no jardim, com grilos e rãs ao fundo, um detalhe que o músico anotou nas notas do disco como "os grilos e as rãs em múltiplos estéreos para a zamba final". Esse som ambiental, quase orgânico, confere à canção uma textura pouco ouvida em gravações de estúdio dos anos 80, quando tudo costumava ficar excessivamente polido.
A história por trás de Barro tal vez começa muito antes de chegar a Kamikaze. Spinetta a escreveu em 1965, quando tinha quinze anos, e embora tenha ficado guardada por quase duas décadas, acabou se tornando um de seus temas mais emblemáticos. Não foi um sucesso comercial ao ser lançada em 1982 —o álbum Kamikaze nem sequer buscava isso—, mas com o tempo conquistou seu lugar. Mercedes Sosa a incluiu em Cantora, un viaje íntimo, cantando em dueto com ele, e anos depois Ligia Piro a interpretou em um recital em memória de Germán Parsons, ligado aos vinte e nove anos do atentado à AMIA. Até mesmo Spinetta a levou ao seu concerto unplugged para a MTV em 1997, onde a tocou sozinho com violão acústico e um Rhodes, demonstrando que, além dos arranjos, a essência da canção sempre foi pura e direta. A duração exata é de três minutos e vinte e três segundos, mas nesses minutos cabem décadas de silêncio, de escrita adolescente e de uma zamba que, ao final, acabou sendo muito mais que um gênero: um grito na argila.