Início · Músicas · Elis Regina · Águas de março
A história por trás
Águas de março, segundo o DoReSol
A primeira vez que você ouve Águas de Março na versão de Elis Regina, o que mais te atinge não é só a voz que parece navegar entre a chuva e o asfalto, mas como a canção faz com que cada palavra soe como um objeto arrastado pela corrente. Tom Jobim a escreveu em março de 1972, em sua casa no Poço Fundo, onde o som do violão se misturava com o rumor da chuva na serra do Rio. A letra começa com uma lista de coisas que caem —pedras, galhos, cacos de garrafa— e, no entanto, não há desespero no ritmo, mas uma cadência que avança como a água pelas ruas. O detalhe está em como a música e a letra se imitam: os versos descem em espiral, tal qual a água nas sarjetas, e a melodia, embora repetitiva em sua estrutura, nunca se estagna. É essa paradoxo que faz com que, até hoje, ao ouvi-la, a gente sinta que está seguindo o mesmo leito que o compositor imaginou há cinquenta anos.
A gravação original saiu em 1972 em um disco pequeno, o Disco de Bolso, mas rapidamente se tornou um tema que transcendia seu formato. Jobim a incluiu depois em Matita Perê (1973), e em 1974 a regravou em dueto com Elis para Elis & Tom, uma versão que muitos consideram definitiva. A canção até deu a volta ao mundo: nos anos 80, foi usada em uma campanha da Coca-Cola com um arranjo mais roqueiro, e nos anos 90, a versão em inglês virou jingle do Ayala Center nas Filipinas. Mas além dos usos comerciais, o que perdura é sua capacidade de condensar um estado de espírito: a mistura de melancolia e fluidez com que Jobim a escreveu em um momento em que, segundo contou, o médico lhe dera um prognóstico reservado. A letra, que começou como um desabafo (“é pau, é pedra, é o fim do caminho”), terminou sendo um retrato daqueles instantes em que a vida parece arrastar tudo em seu passo, mas sem jamais perder a elegância.
Do álbum
Elis
Elis Regina
Dados
Créditos
Música Tom Jobim