A história por trás
Quando você mergulha em Yer Blues, encontra uma peça que, embora leve a assinatura de Lennon–McCartney, é essencialmente uma criação de John Lennon. Nasceu durante uma fase introspectiva em Rishikesh, Índia, e se apresenta como uma espécie de brincadeira com o gênero blues, mirando de forma um tanto irônica as versões que os músicos britânicos faziam. O próprio Lennon admitiu que, enquanto buscava uma conexão espiritual e lidava com pensamentos sombrios, quis compor um blues, mas duvidava de poder emular os mestres originais. Na letra, essa insegurança é percebida ao se referir a personagens como o Sr. Jones de Bob Dylan, e no terceiro verso, há um eco de Robert Johnson. O resultado é uma canção que brinca com a seriedade e a paródia, abordando o fenômeno do blues britânico de 1968 e a discussão sobre se os artistas brancos poderiam realmente cantar blues com autenticidade. A frase do refrão, "Se eu ainda não morri, querida, você sabe o motivo", pode ser interpretada como uma piada sobre a ambiguidade das letras do blues e seu significado profundo, como aponta o biógrafo Jonathan Gould, que vê nesta canção um exemplo do "realismo cultural" que distinguia The Beatles, reconhecendo que certas expressões musicais afro-americanas estavam fora de seu alcance direto como intérpretes, exceto pela autocrítica. Musicalmente, a peça se move em Mi maior, mas é adornada com notas acidentais típicas do blues, e sua estrutura rítmica, embora majoritariamente em 12/8, experimenta mudanças de compasso e andamento.
A gravação de Yer Blues teve um caráter muito particular. Foi realizada em um espaço reduzido dentro do EMI Studio Two, descrito como um grande armário na sala de controle. Paul McCartney relembrou em 2016 como, buscando uma sensação de confinamento e proximidade, eles se enfiaram naquele pequeno cômodo com os instrumentos, amplificadores apontados para as paredes e um único microfone para John. Fizeram tudo de uma vez, ao vivo, e o resultado foi muito potente. Ringo Starr também evocou com carinho essas sessões, sentindo que as lembravam dos primórdios da banda, quando tocavam ao vivo. Essa crueza e foco no blues se alinham com trabalhos posteriores de Lennon em carreira solo, como Cold Turkey e seu álbum de 1970, marcando um afastamento das complexas experimentações de estúdio que caracterizaram temas como Tomorrow Never Knows. Além disso, nesta gravação, Paul McCartney utilizou um baixo Fender Jazz Bass de 1966, um detalhe técnico que se soma ao som distintivo da canção. É possível ouvir os membros da banda gritando uns com os outros nas partes instrumentais, o que contribui para essa atmosfera de gravação ao vivo e espontaneidade. A canção foi lançada em 22 de novembro de 1968 como parte do álbum The Beatles, também conhecido como o White Album.