🇩🇴 DO · República Dominicana · Capítulo 2 de 6

A Bachata: O Amor desde as Margens (1962–1990)

Durante a maior parte de sua história, a bachata foi considerada muito vulgar, grosseira e musicalmente rústica para ser transmitida pela televisão ou rádio na República Dominicana. Era a música dos bairros pobres, dos bares decadentes, dos trabalhadores braçais e dos migrantes rurais que haviam chegado a Santo Domingo sem dinheiro e sem futuro. A classe média dominicana a rejeitava com o mesmo desprezo com que a elite portenha havia rejeitado o tango um século antes.

7 min de leitura publicado 27/05/2026 97 leituras por DoReSol
A Bachata: O Amor desde as Margens (1962–1990)

E, no entanto — ou precisamente por isso — a bachata se tornou o gênero musical mais querido da República Dominicana e, décadas depois, um dos gêneros mais ouvidos do mundo.

Essa trajetória — da marginalidade absoluta à declaração de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO — é a história mais extraordinária da música latino-americana do século XX.

O Bolero de Guitarra: A Origem em 1962

A primeira gravação oficial de bachata foi feita em 1962 nos estúdios da Radio Televisión Dominicana por José Manuel Calderón — conhecido como "O Mestre da Bachata" — com as músicas "Borracho de amor" e "Condena". Naquela época, o gênero não era chamado de bachata, mas simplesmente "bolero de guitarra."

A voz de Calderón era incomum para os bachateros: ele cantava em barítono, não no falsete emocionado que caracterizaria a maioria de seus sucessores. Ele inovou na instrumentação da bachata, aplicando cordas, seções de metais e piano, e substituindo as maracas por uma güira.

Calderón mudou-se para Nova York em 1967 e gravou com várias gravadoras. Após cinco anos, ele retornou à República Dominicana, apenas para descobrir que os bachateros haviam sido marginalizados, já que o gênero havia se associado à pobreza e à prostituição, e apenas a Radio Guarachita — uma estação de rádio de cobertura nacional — o programava.

Radio Guarachita: o único espaço

Radio Guarachita — fundada por Radhames Aracena em Santo Domingo — foi durante décadas o único espaço mediático onde a bachata podia ser ouvida na República Dominicana. Todos os grandes bachateros da primeira geração tiveram ali sua primeira e frequentemente única oportunidade de alcançar o público.

Aracena conseguiu expandir seu negócio e criar um estúdio de gravação em sua casa, abrir uma fábrica de prensagem de discos e dois selos discográficos: Discos Guarachita e Zuni. Empresas Guarachita foi um pilar da indústria da bachata na República Dominicana.

Muitos dos grandes artistas de bachata tiveram sua primeira oportunidade graças à Radio Guarachita: José Manuel Calderón, Leonardo Paniagua, Blas Durán, Eladio Romero Santos, Edilio Paredes e Ramón Cordero. Sem essa rádio, a bachata poderia ter se extinguido antes que alguém a valorizasse.

A "música de amargura": o blues dominicano

O nome "amargue" — com o qual a bachata foi conhecida durante décadas antes de adotar o nome que tem hoje — diz tudo o que há para saber sobre seu universo emocional: a amargura. Não a tristeza aristocrática do tango, não a melancolia contemplativa do blues, mas a amargura específica do homem pobre e da mulher abandonada que não têm nada para consolar sua dor exceto o álcool e a música.

As letras da bachata clássica são diretas ao ponto de serem desconfortáveis para aqueles que preferem sua dor envolta em metáforas. "Você me deixou" não: "Você me deixou por outro que tem mais dinheiro do que eu." "Estou sofrendo" não: "Estou bêbado porque você não voltou." A honestidade brutal de quem não tem nada a perder porque já perdeu tudo.

Por muito tempo em sua história, a bachata foi rejeitada pela sociedade dominicana de classe média e alta, e associada ao subdesenvolvimento rural e ao crime.

Luis Segura: o Pai da Bachata

Luis Segura — nascido em Mao, província de Valverde, em 21 de junho de 1939 — é conhecido como "O Pai da Bachata" e é considerado um dos melhores intérpretes da bachata tradicional.

Suas primeiras gravações foram nos anos sessenta, mas foi somente com sua versão de "Pena por ti" no início dos anos oitenta que Segura alcançou a fama. Sua imensa popularidade levou a uma crescente aceitação do gênero, tornando-a a primeira canção de bachata a ser apresentada na rádio FM. Isso quebrou a tradição do gênero de estar confinado às transmissões AM, que eram predominantemente direcionadas às áreas rurais, e elevou o status do gênero ao alcançar audiências urbanas e convencionais.

Blas Durán: a guitarra elétrica entra na bachata

Blas Durán (1941–2023) foi o homem que mudou o som da bachata para sempre: é mais conhecido por introduzir a guitarra elétrica na música bachata com seu bachata-merengue de 1986 "Consejo a las mujeres."

Antes de Blas Durán, a bachata era tocada com guitarra de nylon — o instrumento do bolero clássico, do son cubano, da música romântica latino-americana. A guitarra de nylon dava ao gênero sua textura suave, melancólica, íntima. A guitarra elétrica de Blas Durán — com suas cordas de aço e som mais brilhante e agressivo — foi uma ruptura que os puristas odiaram e que o público adotou com entusiasmo.

Os artistas que vieram depois — Antony Santos, Luis Vargas, Raulín Rodríguez — construíram sobre as inovações de Blas Durán, levando a guitarra elétrica ao centro do som da bachata moderna.

Eladio Romero Santos: o trovador da pobreza

Eladio Romero Santos — um dos bachateros mais importantes dos anos setenta e oitenta — foi o compositor que capturou com maior precisão o universo social da bachata: suas letras descreviam a vida dos bairros pobres de Santo Domingo com a mesma função que o blues cumpria no Delta do Mississippi, sendo a crônica daqueles que não apareciam em nenhum jornal.

Suas canções — "El Tiguere Bachatero", "La Cañita" — são documentos da República Dominicana da pobreza e da migração interna, o diário sonoro de uma geração que viveu a transição do campo para a cidade sem os recursos para processar essa ruptura de nenhuma outra maneira.

O Estigma e a Resistência

Durante décadas, a bachata foi o símbolo de tudo o que a República Dominicana oficial não queria ser: rural, pobre, negra, sexual, desordenada. As classes médias e altas a rejeitavam com uma virulência que tinha tanto de medo quanto de desprezo — o medo de se reconhecerem em algo que o projeto de modernização nacional queria deixar para trás.

E, no entanto, a bachata continuou. Foi transmitida de boca em boca, de cassete em cassete, nos bares de bairro e nos carros públicos que cruzavam Santo Domingo. Ninguém podia proibi-la porque ninguém com poder a levava a sério. E essa invisibilidade foi sua proteção.

Nota editorial: José Manuel Calderón gravou a primeira bachata em 1962 e encontrou ao retornar de Nova York que o gênero havia sido associado à pobreza e à prostituição. Apenas a Radio Guarachita a programava. Voltou para Nova York decepcionado. Décadas depois, a bachata é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Esse arco — da total invisibilidade ao reconhecimento global — levou mais de cinquenta anos e ocorreu sem que nenhuma instituição oficial o planejasse ou promovesse. Foi a música que ninguém queria que se tornou a música que todo mundo queria. O desprezo de uma elite cultural é, aparentemente, o melhor anúncio que um gênero musical pode ter.

10 · 0 en DoReSol

Top 10 da Bachata Clássica

#CanciónArtista
01

Pena por Ti

Luis Segura · 1983

A primeira bachata na FM. O momento em que o gênero começou a sair das margens. Luis Segura sendo o pai da bachata.

Pendiente
02

Conselho às Mulheres

Blas Durán · 1986

A bachata-merengue que introduziu a guitarra elétrica no gênero. O antes e o depois do som bachata.

Pendiente
03

Condenação

José Manuel Calderón · 1962

A primeira gravação de bachata da história. O início de tudo.

Pendiente
04

O Tigre Bachatero

Eladio Romero Santos · 1970s

A crônica mais honesta da vida nos bairros pobres dominicanos. A bachata como o blues do Caribe.

Pendiente
05

Não Me Ciumes Tanto

Luis Segura · 1980s

Luis Segura em seu repertório mais popular. A bachata tradicional em sua forma mais acessível.

Pendiente
06

O Milho

Luis Vargas · 1991

O primeiro álbum com pedal de coro na guitarra bachata. Luis Vargas inovando o som desde dentro.

Pendiente
07

Cravinho

Blas Durán · 1970

O primeiro grande sucesso de Blas Durán. Bachata bolero antes da guitarra elétrica.

Pendiente
08

Noite de Casamento

Eladio Romero Santos · 1970s

O universo sentimental da bachata em sua versão mais melancólica.

Pendiente
09

La Cañita

Eladio Romero Santos · 1970s

A vida do campo dominicano transformada em bachata. A memória rural no coração do bairro urbano.

Pendiente
10

Borracho de Amor

José Manuel Calderón · 1962

O lado B do primeiro single de bachata. A dor do abandono no primeiro bolero de guitarra dominicano gravado.

Pendiente

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A série completa

República Dominicana

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