🇩🇴 DO · República Dominicana · Capítulo 1 de 6
As Raízes e o Merengue Típico: A Alma do Cibao (Séc. XIX–1950)
A ilha de La Española — Hispaniola — é geograficamente única no Caribe: o único lugar do mundo onde dois países compartilham uma ilha e onde a história desses dois países produziu duas culturas musicais completamente diferentes, mas igualmente poderosas. A oeste, o Haiti — com seu vodu, seu compas, seus tambores que vêm diretamente da África Ocidental. A leste, a República Dominicana — com o merengue, a bachata e uma identidade musical que é a síntese mais perfeita das três culturas que fundaram a América Latina: a taína, a africana e a espanhola.
A música dominicana tem três raízes básicas: taína, africana e espanhola. Dos tambores de couro de origem africana às guitarras e acordeões europeus, passando pelas maracas indígenas, a identidade sonora da República Dominicana é um mosaico de tradições e legados culturais.
Os Taínos: A Memória que Sobreviveu nos Instrumentos
Os Taínos — o povo indígena que habitava a Ilha Hispaniola quando os europeus chegaram em 1492 — foram exterminados em menos de cinquenta anos devido a uma combinação de conquista militar, doenças e trabalho forçado. Eles não deixaram descendentes diretos em número significativo, mas deixaram algo que nenhum conquistador poderia confiscar: a memória de seus instrumentos e ritmos.
A güira — o raspador de metal que hoje é um dos três instrumentos centrais do merengue dominicano — acredita-se que seja de origem nativa taína. É o instrumento mais antigo do conjunto e o que conecta diretamente a música contemporânea da República Dominicana com o universo sonoro pré-colombiano.
Os Taínos tinham danças rituais que celebravam a vida e a natureza — o areíto, a cerimônia musical coletiva onde o canto, a dança e a memória histórica se integravam em um único ato. Esse universo ritual não sobreviveu diretamente, mas sua herança rítmica e instrumental permaneceu na música que veio depois.
A Herança Africana: a Tambora
Com a chegada dos colonizadores espanhóis no século XV, novas formas de dança e música foram introduzidas, que, misturadas com as tradições africanas trazidas pelos escravos, deram origem a estilos únicos.
A tambora — o tambor de duas cabeças que, junto com a güira, forma o núcleo rítmico do merengue — é de origem africana. Chegou à ilha com os escravos trazidos de várias regiões da África Ocidental e Central e foi o instrumento que manteve viva a memória rítmica africana em uma ilha onde tudo o mais estava sendo destruído.
A herança africana reflete-se na percussão, no uso do corpo e na improvisação que caracterizam muitos ritmos dominicanos. O merengue e a bachata, embora tenham raízes diversas, incorporam elementos rítmicos e estilísticos da herança africana, criando uma expressão cultural rica e única.
Merengue: A Síntese Crioula
Em meados do século XIX, quando os dominicanos declararam independência e proclamaram a República Dominicana, começou a se espalhar e ganhar popularidade uma nova expressão musical e de dança chamada "merengue".
A primeira menção pública da dança do merengue entre os dominicanos data de 1854, mas há registros de que tanto o ritmo quanto a dança já eram conhecidos antes de 1844. O merengue surgiu como uma evolução da contradança europeia, incorporando elementos afro-caribenhos. Da contradança espanhola, fundida com elementos do areíto taíno e ingredientes musicais africanos, surgiu uma dança crioula conhecida como La Tumba Dominicana, que durante o século XVIII e parte do século XIX foi a manifestação de dança preferida pelos habitantes de Santo Domingo colonial.
Um certo véu de mistério envolve a origem do nome: alguns dizem que é uma palavra de origem francesa usada para designar um doce chamado "suspiro", que é feito com claras de ovos batidas de um lado para o outro, um processo que, segundo alguns especialistas, é comparável aos movimentos pélvicos dos dançarinos.
O Acordeão Alemão: O Terceiro Elemento
Após vários anos, a forma de interpretar o merengue mudou radicalmente quando um instrumento até então desconhecido chegou ao país vindo da Alemanha: o acordeão. A partir de então, o merengue começou a ser tocado com a güira (de origem taína), a tambora (africana) e o acordeão (europeu).
Inicialmente, o merengue típico cibaeño era tocado com instrumentos de corda como o tres e o cuatro, mas quando os alemães chegaram à ilha no final do século XIX trocando seus instrumentos por tabaco, o acordeão rapidamente substituiu as cordas como instrumento principal.
O resultado foi a trindade instrumental mais representativa da cultura dominicana: güira + tambora + acordeão. Três instrumentos, três continentes, uma só ilha. O grupo típico simboliza as três culturas que se combinaram para formar a República Dominicana de hoje.
El Perico Ripiao: o merengue mais puro
O merengue típico do Cibao — a região norte da República Dominicana — também é conhecido como perico ripiao: um termo que, segundo a tradição popular, deriva do nome de um bordel em Santiago de los Caballeros onde este estilo era tocado nos anos trinta.
O perico ripiao nasceu nos campos do norte da República Dominicana, especialmente na região do Cibao. Sua origem remonta a meados do século XIX, quando já era escandalosamente popular por suas letras ousadas e passos de dança sensuais. Durante a segunda metade do século XIX, o merengue se consolidou como a dança e a música preferidas nas áreas rurais do Cibao. Sua popularidade cresceu apesar da oposição de setores conservadores, que criticavam suas letras e movimentos considerados provocativos.
Uma figura importante nos primórdios do merengue foi Francisco "Ñico" Lora (1880–1971), a quem se atribui a rápida popularidade do acordeão no início do século XX. Ñico Lora foi o acordeonista e compositor que mais contribuiu para definir o som do merengue típico em suas primeiras décadas de existência.
A Ditadura de Trujillo e o Merengue Nacional
A partir de 1930, a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo tomou o merengue e o transformou em um instrumento de propaganda nacional: a dança camponesa desprezada pela elite urbana foi proclamada símbolo da identidade dominicana, gravada em discos, transmitida pelo rádio controlado pelo regime, e transformada em hino do trujillismo.
Essa apropriação teve consequências paradoxais: o merengue se popularizou massivamente, alcançando toda a ilha, incluindo as classes que antes o rejeitavam, e se profissionalizou — mas ao custo de se tornar a música do poder durante trinta anos de ditadura brutal.
As orquestras de merengue da era Trujillo — as de Luis Alberti, a de Billo's Caracas Boys, a Orquestra Generalíssimo Trujillo — eram instrumentos do regime tanto quanto conjuntos musicais. Essa história incômoda faz parte do merengue, e ignorá-la seria tão desonesto quanto ignorar que o merengue sobreviveu à ditadura e continuou sendo a música mais amada dos dominicanos depois que Trujillo foi assassinado em 1961.
Nota Editorial: O merengue tem em sua trindade instrumental — güira taína, tambora africana, acordeão alemão — a síntese mais literal da história da América Latina: a herança indígena que não foi completamente destruída, a herança africana trazida pela escravidão, e a herança europeia que chegou como conquista e acabou sendo adotada e transformada. Nenhum dos três elementos sobreviveu intacto nessa mistura: a güira agora é de metal, não de cabaça; a tambora tem uma forma que não existe na África; o acordeão no merengue soa diferente de como soa na Alemanha ou no norte do México. A mistura não preservou nada: transformou tudo. E dessa transformação nasceu algo que não existia em nenhum dos três mundos de origem.
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Top 10 do Merengue Típico e as Raízes
El Negrito del Batey
Medardo Guzmán · 1930s
O merengue típico cibaeño em sua forma mais clássica. A voz do campo dominicano antes da orquestração urbana.
Compadre Pedro Juan
Perico Ripiao tradicional · S. XIX
O perico ripiao em seu estado mais puro. A güira, a tambora e o acordeão em perfeita trindade.
Música de Ñico Lora
Francisco "Ñico" Lora · 1900–1960
O pai do merengue típico moderno. O acordeonista que definiu o som do Cibao.
La Juma de Ayer
Merengue típico tradicional · S. XIX
As letras ousadas do merengue que escandalizaram os conservadores. A voz do povo que não pedia permissão.
Juangomero
Tatico Henríquez · 1960s
O mestre do merengue típico do século XX. Tatico Henríquez sendo a continuidade do perico ripiao na era moderna.
Ay Cosita Linda
Merengue tradicional · S. XIX
A cumbia do Caribe hispânico. O merengue em sua versão mais festiva e mais dançante.
La Mangulina
Tradicional dominicana · S. XIX
O ritmo irmão do merengue. A mangulina como variante regional do universo musical rural dominicano.
Caña Brava
Luis Alberti · 1940s
O merengue orquestral na era Trujillo. Luis Alberti profissionalizando o gênero para os grandes salões.
O Santiagués
Merengue típico cibaeño · S. XIX
O merengue de Santiago de los Caballeros. A capital do Cibao como berço do ritmo mais puro.
Merengue Clássico
Orquestra Santa Cecília · 1940s
A transição do merengue rural para o urbano. O salão de baile dominicano na era pré-moderna.
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A série completa
República Dominicana
Merengue, bachata, dembow. A ilha onde se inventou a cadência tropical moderna.
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🇩🇴 Cap 01
As Raízes e o Merengue Típico: A Alma do Cibao (Séc. XIX–1950)
A ilha de La Española — Hispaniola — é geograficamente única no Caribe: o único lugar do mundo onde dois países compartilham uma ilha e onde a história desses dois países produziu
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CAP 02
🇩🇴 Cap 02
A Bachata: O Amor desde as Margens (1962–1990)
Durante a maior parte de sua história, a bachata foi considerada muito vulgar, grosseira e musicalmente rústica para ser transmitida pela televisão ou rádio na República Dominicana
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CAP 03
🇩🇴 Cap 03
Juan Luis Guerra: O Poeta do Merengue (1984–presente)
Há um antes e um depois na história da música dominicana, e esse antes e depois têm um nome: Juan Luis Guerra.
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CAP 04
🇩🇴 Cap 04
O Merengue de Orquestra: Johnny Ventura, Wilfrido Vargas e a Era de Ouro (1960–1990)
O merengue do Cibao era um gênero de guitarra, acordeão, güira e tambora — uma música íntima, rural, de casamentos e festas de bairro. A grande transformação que transformou o mere
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CAP 05
🇩🇴 Cap 05
A Bachata Moderna: Dos Bairros do Bronx para o Mundo (1990–presente)
A história da bachata moderna não ocorreu principalmente em Santo Domingo, mas em Nova York — especificamente no Bronx e em Washington Heights, os bairros onde a diáspora dominican
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CAP 06
🇩🇴 Cap 06
O Dembow e o Século XXI: Dos Quintais para o Mundo (1990–presente)
Se existisse um roteiro para a história dos gêneros musicais dominicanos dos séculos XX e XXI, seria sempre o mesmo: um ritmo nasce nas margens, entre as pessoas que os meios de co
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