🇩🇴 DO · República Dominicana · Capítulo 1 de 6

As Raízes e o Merengue Típico: A Alma do Cibao (Séc. XIX–1950)

A ilha de La Española — Hispaniola — é geograficamente única no Caribe: o único lugar do mundo onde dois países compartilham uma ilha e onde a história desses dois países produziu duas culturas musicais completamente diferentes, mas igualmente poderosas. A oeste, o Haiti — com seu vodu, seu compas, seus tambores que vêm diretamente da África Ocidental. A leste, a República Dominicana — com o merengue, a bachata e uma identidade musical que é a síntese mais perfeita das três culturas que fundaram a América Latina: a taína, a africana e a espanhola.

7 min de leitura publicado 26/05/2026 94 leituras por DoReSol
As Raízes e o Merengue Típico: A Alma do Cibao (Séc. XIX–1950)

A música dominicana tem três raízes básicas: taína, africana e espanhola. Dos tambores de couro de origem africana às guitarras e acordeões europeus, passando pelas maracas indígenas, a identidade sonora da República Dominicana é um mosaico de tradições e legados culturais.

Os Taínos: A Memória que Sobreviveu nos Instrumentos

Os Taínos — o povo indígena que habitava a Ilha Hispaniola quando os europeus chegaram em 1492 — foram exterminados em menos de cinquenta anos devido a uma combinação de conquista militar, doenças e trabalho forçado. Eles não deixaram descendentes diretos em número significativo, mas deixaram algo que nenhum conquistador poderia confiscar: a memória de seus instrumentos e ritmos.

A güira — o raspador de metal que hoje é um dos três instrumentos centrais do merengue dominicano — acredita-se que seja de origem nativa taína. É o instrumento mais antigo do conjunto e o que conecta diretamente a música contemporânea da República Dominicana com o universo sonoro pré-colombiano.

Os Taínos tinham danças rituais que celebravam a vida e a natureza — o areíto, a cerimônia musical coletiva onde o canto, a dança e a memória histórica se integravam em um único ato. Esse universo ritual não sobreviveu diretamente, mas sua herança rítmica e instrumental permaneceu na música que veio depois.

A Herança Africana: a Tambora

Com a chegada dos colonizadores espanhóis no século XV, novas formas de dança e música foram introduzidas, que, misturadas com as tradições africanas trazidas pelos escravos, deram origem a estilos únicos.

A tambora — o tambor de duas cabeças que, junto com a güira, forma o núcleo rítmico do merengue — é de origem africana. Chegou à ilha com os escravos trazidos de várias regiões da África Ocidental e Central e foi o instrumento que manteve viva a memória rítmica africana em uma ilha onde tudo o mais estava sendo destruído.

A herança africana reflete-se na percussão, no uso do corpo e na improvisação que caracterizam muitos ritmos dominicanos. O merengue e a bachata, embora tenham raízes diversas, incorporam elementos rítmicos e estilísticos da herança africana, criando uma expressão cultural rica e única.

Merengue: A Síntese Crioula

Em meados do século XIX, quando os dominicanos declararam independência e proclamaram a República Dominicana, começou a se espalhar e ganhar popularidade uma nova expressão musical e de dança chamada "merengue".

A primeira menção pública da dança do merengue entre os dominicanos data de 1854, mas há registros de que tanto o ritmo quanto a dança já eram conhecidos antes de 1844. O merengue surgiu como uma evolução da contradança europeia, incorporando elementos afro-caribenhos. Da contradança espanhola, fundida com elementos do areíto taíno e ingredientes musicais africanos, surgiu uma dança crioula conhecida como La Tumba Dominicana, que durante o século XVIII e parte do século XIX foi a manifestação de dança preferida pelos habitantes de Santo Domingo colonial.

Um certo véu de mistério envolve a origem do nome: alguns dizem que é uma palavra de origem francesa usada para designar um doce chamado "suspiro", que é feito com claras de ovos batidas de um lado para o outro, um processo que, segundo alguns especialistas, é comparável aos movimentos pélvicos dos dançarinos.

O Acordeão Alemão: O Terceiro Elemento

Após vários anos, a forma de interpretar o merengue mudou radicalmente quando um instrumento até então desconhecido chegou ao país vindo da Alemanha: o acordeão. A partir de então, o merengue começou a ser tocado com a güira (de origem taína), a tambora (africana) e o acordeão (europeu).

Inicialmente, o merengue típico cibaeño era tocado com instrumentos de corda como o tres e o cuatro, mas quando os alemães chegaram à ilha no final do século XIX trocando seus instrumentos por tabaco, o acordeão rapidamente substituiu as cordas como instrumento principal.

O resultado foi a trindade instrumental mais representativa da cultura dominicana: güira + tambora + acordeão. Três instrumentos, três continentes, uma só ilha. O grupo típico simboliza as três culturas que se combinaram para formar a República Dominicana de hoje.

El Perico Ripiao: o merengue mais puro

O merengue típico do Cibao — a região norte da República Dominicana — também é conhecido como perico ripiao: um termo que, segundo a tradição popular, deriva do nome de um bordel em Santiago de los Caballeros onde este estilo era tocado nos anos trinta.

O perico ripiao nasceu nos campos do norte da República Dominicana, especialmente na região do Cibao. Sua origem remonta a meados do século XIX, quando já era escandalosamente popular por suas letras ousadas e passos de dança sensuais. Durante a segunda metade do século XIX, o merengue se consolidou como a dança e a música preferidas nas áreas rurais do Cibao. Sua popularidade cresceu apesar da oposição de setores conservadores, que criticavam suas letras e movimentos considerados provocativos.

Uma figura importante nos primórdios do merengue foi Francisco "Ñico" Lora (1880–1971), a quem se atribui a rápida popularidade do acordeão no início do século XX. Ñico Lora foi o acordeonista e compositor que mais contribuiu para definir o som do merengue típico em suas primeiras décadas de existência.

A Ditadura de Trujillo e o Merengue Nacional

A partir de 1930, a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo tomou o merengue e o transformou em um instrumento de propaganda nacional: a dança camponesa desprezada pela elite urbana foi proclamada símbolo da identidade dominicana, gravada em discos, transmitida pelo rádio controlado pelo regime, e transformada em hino do trujillismo.

Essa apropriação teve consequências paradoxais: o merengue se popularizou massivamente, alcançando toda a ilha, incluindo as classes que antes o rejeitavam, e se profissionalizou — mas ao custo de se tornar a música do poder durante trinta anos de ditadura brutal.

As orquestras de merengue da era Trujillo — as de Luis Alberti, a de Billo's Caracas Boys, a Orquestra Generalíssimo Trujillo — eram instrumentos do regime tanto quanto conjuntos musicais. Essa história incômoda faz parte do merengue, e ignorá-la seria tão desonesto quanto ignorar que o merengue sobreviveu à ditadura e continuou sendo a música mais amada dos dominicanos depois que Trujillo foi assassinado em 1961.

Nota Editorial: O merengue tem em sua trindade instrumental — güira taína, tambora africana, acordeão alemão — a síntese mais literal da história da América Latina: a herança indígena que não foi completamente destruída, a herança africana trazida pela escravidão, e a herança europeia que chegou como conquista e acabou sendo adotada e transformada. Nenhum dos três elementos sobreviveu intacto nessa mistura: a güira agora é de metal, não de cabaça; a tambora tem uma forma que não existe na África; o acordeão no merengue soa diferente de como soa na Alemanha ou no norte do México. A mistura não preservou nada: transformou tudo. E dessa transformação nasceu algo que não existia em nenhum dos três mundos de origem.

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Top 10 do Merengue Típico e as Raízes

#CanciónArtista
01

El Negrito del Batey

Medardo Guzmán · 1930s

O merengue típico cibaeño em sua forma mais clássica. A voz do campo dominicano antes da orquestração urbana.

Pendiente
02

Compadre Pedro Juan

Perico Ripiao tradicional · S. XIX

O perico ripiao em seu estado mais puro. A güira, a tambora e o acordeão em perfeita trindade.

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03

Música de Ñico Lora

Francisco "Ñico" Lora · 1900–1960

O pai do merengue típico moderno. O acordeonista que definiu o som do Cibao.

Pendiente
04

La Juma de Ayer

Merengue típico tradicional · S. XIX

As letras ousadas do merengue que escandalizaram os conservadores. A voz do povo que não pedia permissão.

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05

Juangomero

Tatico Henríquez · 1960s

O mestre do merengue típico do século XX. Tatico Henríquez sendo a continuidade do perico ripiao na era moderna.

Pendiente
06

Ay Cosita Linda

Merengue tradicional · S. XIX

A cumbia do Caribe hispânico. O merengue em sua versão mais festiva e mais dançante.

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07

La Mangulina

Tradicional dominicana · S. XIX

O ritmo irmão do merengue. A mangulina como variante regional do universo musical rural dominicano.

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08

Caña Brava

Luis Alberti · 1940s

O merengue orquestral na era Trujillo. Luis Alberti profissionalizando o gênero para os grandes salões.

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09

O Santiagués

Merengue típico cibaeño · S. XIX

O merengue de Santiago de los Caballeros. A capital do Cibao como berço do ritmo mais puro.

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10

Merengue Clássico

Orquestra Santa Cecília · 1940s

A transição do merengue rural para o urbano. O salão de baile dominicano na era pré-moderna.

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A série completa

República Dominicana

Merengue, bachata, dembow. A ilha onde se inventou a cadência tropical moderna.

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