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A história por trás
Tres minutos con la realidad, segundo o DoReSol
A primeira vez que ouvi Tres minutos con la realidad, o que mais me chamou a atenção foi aquele silêncio que se rompe com um bandoneón que não soa como os outros. Não é um tango dos de antigamente, daqueles que arrastavam o compasso como um passo arrastado na calçada de Buenos Aires. Aqui, o instrumento se estica, se quebra, brinca com dissonâncias que parecem tiradas de um ensaio da Nadia Boulanger, mas sem jamais perder essa raiz portenha que pulsa em cada nota. Não é música para dançar, e sim para sentir como o tempo se dobra em três minutos exatos, como se alguém tivesse medido o instante justo antes de a realidade se tornar pesada demais.
Piazzolla compôs esta obra numa época em que os puristas do tango o chamavam de tudo, desde “assassino do tango” até “snob desrespeitoso”. Os anos 1950 e 1960 o deixaram à margem das rádios e dos selos, mas ele seguiu em frente com aquela ideia que o obcecava: é música contemporânea de Buenos Aires. Não buscava agradar os da Guardia Vieja, e sim mostrar que o tango podia respirar outros ares. E em Tres minutos con la realidad ele conseguiu: uma peça que não soa como nada anterior, mas que ao mesmo tempo cheira a cais, a café da madrugada e àquela melancolia que só se compreende se alguém já percorreu as ruas da cidade quando o sol se põe.
Do álbum
The Soul of Tango, Greatest Hits
Astor Piazzolla · 2021 · Track 7
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