A história por trás
Te aconsejo que me olvides, segundo o DoReSol
O bandoneón de Aníbal Troilo acende nos primeiros segundos de Te aconsejo que me olvides com uma melodia que parece sussurrar mais do que cantar. Não é a típica milonga que avança em compasso de quatro, mas um fraseado que se estica e contrai, como se cada nota respirasse antes de cair no silêncio. O arranjo, ajustado a menos de três minutos, brinca com esses espaços vazios: o bandoneón se enreda em giros inesperados, enquanto o contrabaixo e a guitarra acentuam o compasso com uma precisão que não força, apenas acompanha. Há algo nessa economia de recursos que faz a canção não soar como um tango tradicional, mas como um tango que já sabe que o século XX vai lhe pedir mais.A peça nasceu no coração do Abasto, aquele bairro portenho onde Troilo cresceu ouvindo bandoneóns nos bares de solitários.
Quando a gravou, nos anos 40, já fazia décadas que tocava em orquestras e havia desenvolvido aquele estilo pessoal que o diferenciava: menos fogos de artifício que Pichuco —como era conhecido— e mais um som íntimo, quase doméstico. A letra, que não aparece na versão instrumental mas é atribuída ao gênero, fala de um conselho que dói porque soa como uma despedida definitiva. O próprio título é uma ordem em segunda pessoa, como se o músico dissesse ao ouvinte: “Não insista, isso já terminou”. Gravada em estúdios modestos de Buenos Aires, com equipamentos que hoje parecem rudimentares, a canção sobreviveu ao tempo porque conseguiu o que poucos tangos alcançam: transformar a dor em algo que soa como verdade.
Do álbum
Yo soy el tango - 1941
Aníbal Troilo · 2004 · Track 12
Dados